JUAREZ VENTURA/MAPA FOTOGRAFIA
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Mimo faz em Olinda a ‘edição da resistência’

Mesmo sem dois patrocinadores, evento leva 20 mil pessoas por dia para o centro da cidade pernambucana; entre as atrações, Tom Zé, Hermeto Pascoal, Emicida e o ciclo de cinema

Julio Maria, O Estado de S. Paulo

25 Novembro 2018 | 19h22

OLINDA — Seria o roteiro previsível, com lágrimas no final, depoimentos de revolta e lamentos ideológicos, se o que se viu nos últimos dois dias em Olinda, a cidade que acorda ao som do ensaio de saxofones em sua Times Square própria, os Quatro Cantos, não subvertesse a lógica da crise.

Um festival de música e cinema chamado Mimo fez ali sua 15ª edição com estratégia de guerrilha. Sem dois grandes patrocinadores de shows gratuitos realizados pelo Brasil sempre em igrejas e praças abertas, o BNDES e a empresa Cielo, a situação ameaçou ultrapassar o suportável. “O ano mais difícil de todos”, diz Lu Araújo, idealizadora do projeto. Duas temporadas anteriores foram adiadas para 2019, a do Rio de Janeiro e a esperada para ser a primeira em São Paulo, e a programação, realocada. Se jogasse a tolha de Olinda, nem a fidelidade de seu último escudeiro, o Bradesco, poderia salvar a marca da desolação de uma plateia educada assistindo Chucho Valdés e Egberto Gismonti nos bancos da Igreja da Sé. Sem alardear suas dificuldades de produção com muito menos dinheiro, a Mimo caiu nas redes, foi abraçada por um discurso de resistência cultural e recebeu 217 inscrições de jovens voluntários dispostos a doar seus tempos para não ver o trem parar.

Meia noite e meia da noite de sábado, 24 de novembro, Praça do Carmo, centro de Olinda. Se pensou em uma programação que simbolizasse a resistência de um projeto sobrevivente pelas unhas de uma mulher, isso não foi anunciado. Mas quando Emicida subiu ao palco para o último show da noite, as 20 mil pessoas reunidas ali já pareciam ter entendido algum recado. Antes do rapper, um quarteto da Palestina chamado 47 Soul já havia acionado a bomba de efeito moral. A questão palestina pode parecer distante, mas ali estava muito próxima. Z the People, El Far3i, Walaa Sbeit e El Jehaz usam a plataforma rítmica do rap para se tornarem universais tocando dabke, um ritmo regional, e instrumentos árabes. Seus discursos são pela paz entre judeus e árabes em territórios ocupados, pela criação de um lar nacional para o povo judeu na Palestina e pelo fim da guerra histórica entre irmãos vizinhos. A simples existência do grupo é a própria resistência. E quando eles gritam “não ao fascismo”, dá para sentir da Igreja do Carmo a terra da praça tremer. 

Emicida já via pessoas subindo em gradis para ouvi-lo. A Chapa é Quente, Passarinhos, Hoje Cedo. Sua mensagem de paz também é legitimada pela dor, o que dá a seu discurso a força de mil homens. Mais do que estar ali para cantar junto, a plateia reconforta-se por vê-lo e senti-lo um aliado. E talvez seja essa a função maior do rap de massa. Os fãs já sabem quem está certo ou errado, precisam agora voltar a se sentir juntos, capazes, sonhadores e inspirados. As batidas graves de A Chapa é Quente deveriam ser indicadas em postos de saúde contra a depressão.

A Igreja do Carmo havia sido ocupada, antes dos shows na Praça, por Egberto Gismonti. É um velho conhecido dos line ups do festival, mas estava ali, segundo Lu, por um sentido de retrospectiva depois de 15 edições. E os bancos da catedral seguiam ocupados por um público de silêncio religioso, incluindo o escritor Luis Fernando Veríssimo na primeira fila, enquanto Egberto mostrava uma versão ao piano de Carinhoso, de Pixinguinha. Egberto, que apresentaria a cantora gaúcha Grazie Wirtti, também falou de resistência cultural em seu discurso e foi muito aplaudido. A noite anterior havia sido, no mesmo altar, de Hermeto Pascoal e banda, com o baixista Itiberê Zwarg e o pianista André Marques. Os shows da praça ficaram, também na noite de sexta, com o grupo português instrumental Dead Combo e Tom Zé.

Aos 82 anos, Tom tem o mesmo espírito indomável dos anos de Tropicália. Seu pensamento parece não seguir linha alguma, jogando o ouvinte em um caos ilógico e exaustivo. É preciso então entender as entrelinhas. O primeiro Fórum de Ideias, apresentado e mediado pela jornalista Chris Fuscaldo, deixou Tom como ele queria, solto. Não foi a melhor das saídas, já que sua memória, e não seu pensamento, precisa de ajudas pontuais para chegar onde quer. A redenção da suposta confusão vem nos shows. A música de Tom é sua fala. Tudo inesperado e abrindo janelas o tempo todo que às vezes se fecham, às vezes não, mas dizendo sem falar que só a ideia de homem livre, aquela que não segue padrões, pode ser transformadora.

Cinema do Mimo ganha notoriedade em meio à crise

A crise apontou uma curiosa situação na Mimo que pode levar seus produtores a fazer ajustes com relação às programações de cinema e de música. Com o adiamento das edições de São Paulo e Rio, que serão realizadas em 2019, o festival de cinema, realizado agora no telão ao lado da Igreja da Sé e na sala do reformado Mercado Eufrásio Barbosa, ganhou notoriedade e volume de filmes de alta qualidade, compondo uma mostra muitas vezes irresistível. O problema é que muitos shows acontecem ao mesmo tempo.

"Estamos estudando se não seria o caso de separarmos os dias. Termos os filmes no começo do evento e os shows depois” diz Lu Araujo. “Ainda acho que seria mais interessante se mantivéssemos assim como está, nenhum festival tem isso”, diz Rejane Zilles.

Os destaques deste ano foram vários. Na quinta, o perturbador documentário do inglês Phil Cox mostrou a história de ativismo soul de Betty Davis chamado Betty - They Say I’m Different. O sumiço inexplicável de uma personagem dos anos 1970, casada com Miles Davis e amante de Jimmi Hendrix, é o foco de um projeto obstinado do diretor.

Dentre os nacionais, produções ótimas como Você Não Sabe Quem Eu Sou entra na vida conturbada de Nasi, vocalista da banda Ira! e sai ileso. Alexandre Petillo, Rodrigo Grilo e Rogerio Correa cumprem com glória a missão de contar sem chapa branquismos os bastidores turbulentos sobretudo com relação ao fim da banda, em meio a processos entre os integrantes do grupo e um pedido de interdição judicial de Nasi feito pelo próprio pai. Revelador também foi Sol, Som e Surf Saquarema, de Helio Pitanga, que recuperou imagens inéditas e colheu depoimentos sobre um festival de 1976 na cidade de Saquarema, Rio, conhecido como o verdadeiro Woodstock brasileiro.

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