Milton Nascimento em momento jazzman no Bourbon Street

O cantor e compositor Milton Nascimento dá início à nova temporada do projeto Credicard Vozes, hoje e amanhã, no Bourbon Street Music Club, com um show inusitado não propriamente pelo teor jazzístico dele, mas pelo clima de improviso e pelo repertório diferenciado. Explica-se: Milton tem forte ligação com o jazz e já participou de trabalhos de gente como Herbie Hancock, Ron Carter, Pat Metheny, entre outros. É esse resgate de um gênero que está ligado muito à sua formação e mesmo à sua trajetória, que Milton leva a essa apresentação especial. "A gente tem feito durante muito tempo o show do Pietá, último disco que gravei. Esse show no Bourbon será ótimo para meus músicos, dará oportunidade para cada um deles solar", conta ele. "Vou tocar músicas que geralmente não incluo nos shows." O repertório pouco usual promete ser um dos pontos altos do espetáculo. Milton trará o tema instrumental Lília, que compôs em homenagem à sua mãe, que, como ele mesmo diz, sempre o incentivou a cantar e a nunca desistir do que ele quer. No show, Lília ganhará voz e arranjos diferentes do original. "É uma canção sem letra, que toco mais no exterior. Já a gravei até num disco com Wayne Shorter (Native Dancer - Wayne Shorter Featuring Milton Nascimento). Mas aqui no Brasil toco pouco ou quase nada. Talvez porque o pessoal queira ouvir mais as músicas já conhecidas." Milton diz que sempre quis preparar repertório diferenciado em seus shows, mas não o faz justamente para atender seu público. Por isso, acredita que desta vez terá liberdade para pôr em prática o que bem deseja, pela própria proposta do Credicard Vozes. Ele lembra de uma das vezes que tentou inovar em um show. Foi logo depois da morte de John Lennon. Fez uma apresentação no Rio e, para homenagear Lennon, resolveu cantar Canção da América, na versão original, em inglês (Milton compôs essa música, primeiro, em inglês e só depois criou uma versão em português para ela). A, digamos, ousadia não foi tão bem-aceita pelo público, mas Milton continuou a cantar assim. Só quando ele começou a cantar um trecho dela, em português, é que o povo o ovacionou. "Acho que se você vai ao show de um artista ou de um grupo que você gosta, você tem de confiar nele", desabafa ele. "Acho que o que vai marcar esse show será a liberdade de criação." Milton antecipa ainda outras investidas. Ainda no repertório, trará a Canção do Trabalho (ou Work Song, de Nat Adderley). Outro momento raro: vai conduzir algumas músicas no baixo acústico. "Sempre adorei tocar baixo, é o instrumento que mais gosto, mas o abandonei", comenta ele. "Quando gravei Pietá, me deu saudades dele. Comprei um baixo e estou estudando, não tanto quanto deveria. É algo que faz bem para mim." Mesmo esperando que o público que vá ao Bourbon seja mais aberto a um novo tipo de show, Milton não deixará de reservar uma parte do repertório às suas canções conhecidas. Mas tentará, ao menos, levá-la de uma maneira fora do habitual e, quem sabe, mais jazzística. Dessa safra, já estão garantidas canções como Nos Bailes da Vida, Vera Cruz e Canção do Sal, que devem receber arranjos dignos dos grandes standards. "Mas não será só jazz, porque o Brasil também tem canção do improviso." Além de seus shows, Milton Nascimento continua firme e forte com seu selo, Nascimento, que criou para lançar suas trilhas para teatro, cinema e dança. Por ele, já colocou no mercado as trilhas Maria Maria e O Último Trem. O próximo passo do selo será lançar CD da cantora Marina Machado, com Milton na produção. "Será o primeiro trabalho de outro artista lançado pelo selo Nascimento." Milton Nascimento. Bourbon Street (350 pessoas). R. dos Chanés, 127, Moema, 5091-6100. Hoje e amanhã, 22 h. R$ 185 a R$ 225.

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