Milton homenageia voz feminina

Milton Nascimento considera 2002 um anoperfeito. "Trabalhei muito, reencontrei amigos e fiz novos,como o pessoal da minha banda, uma garotada animada, apaixonadaque me deu muita garra", conta ele. "Agora, fecho o ano comPietá, disco em homenagem às mulheres, desde a minha mãeadotiva, Lília, a primeira voz que ouvi, até as três cantorasque trouxe para junto de mim, a mineira Marina Machado, apaulista Simone Guimarães e a Maria Rita Mariano, filha da Elise do César Camargo." O disco chegou às lojas esta semana. Milton queriacantar sobre e para mulheres e o reencontro com Maria RitaMariano, em janeiro, radicalizou a intenção. "Ela me deu um CDpara eu dizer o que ela devia fazer da vida. Trouxe-a paracantar comigo", lembra. "Essa ligação com a voz feminina vemda infância. Pequeno, só gostava de cantoras porque achava queelas cantam com o coração e os homens só queriam mostrarrecursos vocais. Entrei em crise quando minha voz engrossou, masouvir Stella by Starlight com Ray Charles me redimiu. Pensei:homem também canta com coração, e fui por aí." Pietá nasceu no processo inverso do normal. "Agente pega um repertório e procura as pessoas adequadas. Destavez, tinha as pessoas e fui atrás das músicas", diz Milton.Além das cantoras, há a turma jovem, como o tecladista KikoContinentino, Gastão Villeroy e Bena Lobo (filho de Edu, queentra com uma música) e os antigos, como Fernando Brant, osBorges (Márcio, Lô e o Telo) e o maestro Eumir Deodato. "Elefez o arranjo original de Travessia e, neste disco, não sófez questão de estar no estúdio regendo, como cobrou metade deseu preço lá fora." O som de Pietá expressa o astral de tantos encontrose reencontros. Abre com A Feminina Voz do Cantor, declaraçãode amor a Elis Regina, a Ângela Maria e a dona Lília, cujoretrato do encarte revela uma mulher bonita e elegante, quecantava em corais. Fecha com Vozes ao Vento, falando daalegria e da missão de cantar. Entre as outras 14, há a valsa apaixonada Tristesse(em que Maria Rita faz bonito na comparação com a mãe), ascanções de Lô e Márcio Borges que grudam na memória e/ou embalamromances (Quem Sabe isso Quer Dizer Amor e Voa Bicho), uma novade Milton com Brant (Beleza e Canção), a canção-título emparceria com Chico Amaral e Beira-Mar Novo, recolhida dofolclore do Vale do Jequitinhonha, que Milton freqüentou em 2002 pessoalmente ou no contato com o grupo Meninos do Araçuaí, queo homenageou com um belo espetáculo durante o ano. A soma é a mistura de vozes, cordas, metais, percussões,violões e guitarras, sons acústicos e eletrônicos que Miltonpraticamente inventou no Brasil. Lembra os discos dos anos 70,pois remete a Minas e torna brasileiro qualquer som. É o caso deCantaloupe Island, tema sacolejante do filme Barrados noBaile, que com Herbie Hancock (piano), Pat Metheny (violão) eMilton (violão e voz) soa como canto de festa religiosa, muitagente reunida, como o compositor gosta. "Acho que é herança deminha mãe, que enchia a casa de crianças, para alegria dasvizinhas", recorda-se. "Há músicos que precisam de silêncio erecolhimento. Eu não. Quanto mais gente em volta, melhor. Contosempre que a trilha de Maria Maria foi composta quando eutinha 17 afilhados em casa."

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