Milton e Gil celebram parceria no palco

O show que Milton Nascimento e Gilberto Gil estréiam nesta quinta-feira no Canecão vai ser uma celebração da amizade e do prazer em fazer música. A base do roteiro é o disco que os dois lançaram há cerca de um mês (e que, segundo a gravadora WEA, já vendeu 200 mil cópias), um repertório escolhido mais em função da afetividade do que das amplas possibilidades musicais dos dois. "Foi uma seleção subjetiva. Não nos preocupamos com nossa performance e sim com o nosso gosto geral pela música", contou esta semana Gilberto Gil, com a voz meio rouca. Milton preferiu nem falar, para poupar a dele e subir ao palco em sua melhor condição.O cuidado faz sentido porque a maratona de shows que os espera não vai terminar tão cedo; deve durar no mínimo um ano. Eles cantam no Rio até o fim da próxima semana e depois vão para o Via Funchal, em São Paulo. Em janeiro, se apresentam no Norte e Nordeste. Depois do carnaval, fazem Sul, Centro-Oeste, Uruguai e Argentina. Em junho, estarão na Europa, tocando nos festivais do verão de lá, e logo depois, Estados Unidos, numa convivência quase diária, que os dois vinham ensaiando há quatro anos.Para Gil, esse encontro com Milton era um complemento que faltava em sua carreira. "Ou então expõe alguma particularidade do meu trabalho que só aflora, só fica evidente, em sua companhia", explicou. Sempre foi assim em outras parcerias anteriores. Afinal, Gilberto Gil talvez seja o músico de sua geração que mais discos gravou com outros artistas estelares como ele. Sem contar Caetano Veloso, seu companheiro desde o início do Tropicalismo, já gravou com Rita Lee, Jorge Ben, Germano Matias e os "Doces Bárbaros" (além de Caetano, Gal Costa e Maria Bethânia). E foram sempre momentos antológicos."Não saberia dizer qual me agradou mais, com quem gostei mais de estar num estúdio ou no palco", disse Gil. "Em geral, quando me associei a esses artistas, procurei abrir espaço dentro da minha visão, dos meus critérios musicais, para o que eles tinham a me acrescentar. E creio que houve reciprocidade. Por isso sempre misturamos nossos repertórios."No caso de Milton Nascimento, a quantidade de hits de ambos pode ter dificultado a escolha. Segundo Gil, o disco e o show têm, além das cinco músicas feitas especialmente para a ocasião, aquelas que são representativas na carreira de ambos e outras, de terceiros, que eles consideram importante cantar. "Por isso, o critério foi muito mais de afetividade do que qualquer outro", ressaltou Gil. "Escolhemos as músicas que gostamos de cantar e, nos arranjos, decidimos dividi-las sem pensar em quem poderia fazer melhor esse ou aquele trecho. O Milton muitas vezes disse ´aqui nesse pedaço eu entro´ e ficou ótimo. O mesmo aconteceu comigo."Foi assim por exemplo, com Drão, Andar com Fé e Tempo Rei (do repertório de Gil) e com Calix Bento, Paula e Bebeto e Fé Cega, Faca Amolada (de Milton), que vão estar no show. Tigresa (Caetano Veloso), Vendedor de Caranguejo (Gordurinha) e Certas Coisas (Lulu Santos) também foram incluídas, mesmo não estando no disco. "Não nos preocupamos em cantar todas juntos ou dividir igualmente as músicas. Fizemos o que deu vontade na hora", avisa Gil. "Calix Bento, por exemplo, foi um pedido meu; e ele fez questão de cantar Drão."As 14 faixas do disco vão estar no show, com arranjos semelhantes, até porque os nove músicos que tocarão com Milton e Gil são os mesmos do estúdio. A novidade é que os dois vão voltar à sanfona, primeiro instrumento que aprenderam, ainda meninos, um em Minas, o outro na Bahia. Milton já tocou sanfona em outras ocasiões, mas Gil volta a ela depois de muito tempo, apesar de ter ameaçado fazê-lo na trilha sonora de Eu Tu Eles. "Na ocasião, eu não estava preparado ainda e tinha um ótimo sanfoneiro", jutificou-se Gil. Para celebrar esse retorno eles até fizeram juntos a música "Duas Sanfonas", falando dessa coincidência. No disco, chamaram Sandy e Júnior para completar um arranjo a quatro vozes que, no show, terá a participação dos músicos.Das cinco composições dos dois para o disco, Gil gosta mais de Trovoada, a única em que eles não se dividiram entre letra e música. Tal como nas parcerias de antigamente, Gil fez a primeira parte completa e Milton, a segunda. A música lembra, na levada e na harmonia, o baião As Pegadas do Amor, feito para a trilha sonora de Eu Tu Eles, o outro trabalho de Gil este ano. "Elas foram compostas mais ou menos na mesma época", lembrou o baiano. "Tive que deixar de lado esse outro disco por causa do meu trabalho com o Milton, mas a condição de assumi-lo foi acompanhar apenas o lançamento do filme e depois me dedicar só a este trabalho."

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