Milton comemora 30 anos de "Clube da Esquina"

Em fins de 1967, ao lançar seu primeirodisco, Milton Nascimento soube que sua carreira de músico,iniciada quase dez anos antes em bailes no interior de Minas,engrenara. Acabava de gravar com seu ídolo, o pianista e maestroLuiz Eça, ficara conhecido nacionalmente com a músicaTravessia, no Festival Internacional da Canção (FIC) e odinheiro, que até então variava entre escasso e nenhum, começavaa chegar com shows e a boa vendagem do elepê. Travessia,título do álbum, só vira CD agora, por iniciativa do selo Dubas,de Ronaldo Bastos, parceiro e amigo de Milton. O disco chega às lojas com textos de Caetano Veloso, EduLobo (este da época) e do próprio Milton, contando a históriadas dez músicas, todas anteriores ao festival. Ficamos sabendoque a letra de Travessia foi a estréia de Fernando Brant,que demorou a criar coragem para mostrá-la a Milton. E que amúsica foi uma "zebra" ao tirar o segundo lugar no FIC de 1967 vencido por Gutenberg Guarabira, com Apareceu a Margarida,que fez relativo sucesso na época, mas hoje está esquecida."Todo mundo só pensava em Morro Velho e no belíssimo arranjodo maestro Lyrio Panicalli, mas o público e o júri acabaramgostando mesmo foi de Travessia", lembra Milton. O curioso é que esse sucesso aconteceu quase à reveliadele. "Eu não pensava em cantar e fazia todas as músicas paraElis Regina, que tinha gravado Canção do Sal. Nem queriaparticipar de festivais, porque tinha trauma da baixaria de umBerimbal de Ouro dois anos antes", lembra o cantor, semprecheio de histórias para contar. "Só que o Agostinho dos Santosinscreveu três músicas no FIC, o Eumir Deodato, que fez oarranjo de Travessia, exigiu que eu cantasse e a Elis Reginatinha outro compromisso no dia. Ou seja, tudo aconteceu porcausa desses três, Elis, Eumir e Agostinho dos Santos." A história com Luiz Eça, o pianista do Tamba Trio, quefez a cabeça de uma geração inteira de músicos, vinha de antes."Ele era meu ídolo e, quando o conheci, tremi nas bases. Masele foi tão legal que eu ia à casa dele todos os dias, só paraestar por perto", conta ele. "Quando surgiu o disco, quis queele fosse o arranjador e deu tudo certo. Até a música MariaMinha Fé, que tem dois tempos diferentes, foi gravada semproblemas porque ele estava na regência." Além de Travessia e Maria Minha Fé, o disco temainda três hits, Morro Velho (com arranjo do maestro LyrioPanicalli, da Rádio Nacional), Canção do Sal e Outubro.Ainda hoje, os arranjos de Luiz Eça, para o orquestra e para ogrupo de base (que tinha também o baterista Bebeto, do TambaTrio) soam sofisticados e ficaram ressaltados com aremasterização acompanhada de perto por Milton. Ele conta que resistiu a esse reprocessamento. "Porcausa da experiência dos discos dos Beatles, cuja primeiraremasterização modificou o som, eu não queria. Só depois queconsertaram é que aceitei", lembra. "Foi ótimo, porque nãotenho o hábito de escutar meus discos antigos e ouvi tudo denovo. A gente fazia coisas inacreditáveis em dois canais,maravilhas das quais não tínhamos consciência." Essas lembranças podem sugerir um Milton saudosista,prestes a completar 60 anos de idade e 30 de seu disco de maiorimpacto, Clube da Esquina. Nada disso! "Adiantaram esserelógio. Não me sinto absolutamente um senhor de 60 anos, comoeu imaginava na minha infância", reclama sorrindo. "E comeceia comemorar os 30 anos do Clube da Esquina de várias formas: emshows com o Lô Borges (seu parceiro no disco), com a nova bandaque me estimula tanto quanto o Som Imaginário (seu grupo nosanos 70, formado Wagner Tiso, Toninho Horta, Luiz Alves eRobertinho Silva, entre outros) e ainda tem o espetáculo com osMeninos de Araçuaí e o grupo Ponto de Partida. Precisa maisfesta que isso?" Mesmo assim, tem mais. Daqui a dois fins de semana, elese apresenta em Ouro Preto, participando da novela Coração deEstudante (título de um de seus hits), da Rede Globo, eespetáculos gratuitos marcados para São Paulo e Bahia, com osMeninos de Araçuaí, um grupo do Vale do Jequitinhonha, querecriou sua obra com texto, dança e canto coral. Hoje écorriqueiro, mas Milton foi o primeiro artista a cantar em praçapública, sem cobrar ingresso. "São os melhores shows, pois vemtodo mundo e não só quem pode pagar o ingresso", comenta. Eleestréia também seu selo, Nascimento, com o CD duplo de suastrilhas de balé para o Grupo Corpo. "Música para balé édiferente, porque tem de seguir uma história, quase como numasinfonia. Mas algumas dessas músicas viraram sucesso por simesmo." Informalmente, ainda funciona como consultor do seloDubas. Por iniciativa dele, "Você ainda não Ouviu nada",primeiro disco de Sérgio Mendes, e o de estréia de T. Meirellesforam relançados. "Agora, com eles virá um dos primeiros daNara Leão e, quem sabe, do Agostinho Santos, que era um cantor eum amigo maravilhoso."

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