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Milionária solidão

Biógrafo Randall Sullivan focou nos últimos quatro anos do pop star

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

01 de dezembro de 2013 | 11h05

Randall Sullivan tem sido editor e colaborador da revista Rolling Stone por mais de duas décadas. Autor de The Miracle Detective (livro que inspirou a série televisiva homônima), mora no Oregon, nos Estados Unidos. Disse que não tem planos de vir ao Brasil para o lançamento do volume.

Sullivan não rebate a principal crítica que fazem a seu livro, a de que aborda muito pouco o legado musical de Michael, e explora muito sua vida privada. "Eu não quis escrever sobre a música de Michael Jackson, mas sobre a pessoa", afirmou. As histórias de excessos que permeavam o mito o fascinavam. Por exemplo: para promover o disco HIStory, Michael gastou cerca de US$ 30 milhões, o que incluiu mandar fazer 30 estátuas de 10 metros de altura (uma das quais flutuava no Rio Tâmisa, em Londres).

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Há pequenas revelações no livro, especialmente sobre drogas e sexualidade, mas também sobre a mágoa de MJ a respeito de críticas negativas e até a história de que um dos filhos de Michael (que todos supõem adotivos) desenvolveu vitiligo, que o artista também tinha.

A tentativa de suicídio de Paris, a filha de Michael Jackson, em junho, mostrou que essa é uma história em progresso, que nunca acaba.

A luta pelo legado de Michael ainda vai levar muito tempo. As forças em torno disso brigam pelo que resta, pelo que pode ainda haver, e nós ficamos no meio disso.

Quando você aceitou o desafio de fazer esse livro, quais eram suas principais preocupações?

A maior preocupação era que as pessoas primeiro lessem o livro. Porque a campanha que foi colocada em marcha por esse grupo de fãs, esse falso grupo de fãs, foi iniciada muito antes de o livro ser publicado, eles nem sequer leram. Era uma campanha baseada em informações totalmente falsas, então era muito difícil estar no meio disso como autor, ser atacado por pessoas que não tinham lido o livro, que reclamavam de coisas que não estavam de fato no livro. Então, minha preocupação era primeiro que se formasse uma massa crítica.

Você investiu sozinho na pesquisa ou teve alguma ajuda?

Isso começou como um artigo para a revista Rolling Stone. Mas começou a ficar grande demais para um artigo. Eles pagaram para me mandar para Los Angeles, abriram portas, me deram acesso a arquivos de informações. Mas o resto ficou por minha conta mesmo.

Temos agora, aqui no Brasil, uma grande briga sobre biografias não autorizadas. Muitos artistas da música defendem existir autorização prévia para que se publique uma biografia como a sua. O que acha disso?

Pela perspectiva americana, que é a minha, é uma catástrofe. Não sairiam biografias reais, mas somente propaganda, obras de relações públicas. Se você não é livre para fazer sua própria investigação, para dizer o que tem de dizer, o objeto (de seu trabalho) não será jornalismo, será relações públicas. E é perigoso defender isso. Não se trata apenas de artistas e celebridades, mas também de personalidades públicas, líderes políticos. Eles vão dizer em suas biografias apenas o que quiserem. Sei que no Brasil vocês não têm nenhum Hitler, mas certamente têm políticos e líderes históricos que adorariam dizer somente o que quisessem em suas biografias. Para mim, se uma pessoa usufrui dos benefícios de ser uma figura pública, também tem de pagar o preço por isso. Ninguém pode ter as duas coisas ao mesmo tempo. Se você se expõe aos holofotes, sabe que expõe também sua vida. Se não quer isso, não se exponha aos holofotes.

Estive na frente da mansão de Carolwood alguns dias após a morte de Michael Jackson, como jornalista. Fiquei espantado quando vi os caminhões enviados por suas irmãs para retirar seus bens. Foi chocante ver aquilo, o corpo ainda estava no hospital.

Elas, as irmãs e a mãe, não se preocuparam em esconder aquilo. Está tudo gravado, foi tudo exibido pelas TVs. Acho que foi a companhia de seguros que fez vídeos. Foi chocante para mim também, mas elas estavam muito à vontade.

No seu livro, Michael parece ser uma vítima do sistema. Não só uma vítima, mas principalmente uma vítima. Quem você diria que foi o maior culpado por sua tragédia? O pai dele, Joe, ocupou um papel muito central na trama. Ele foi o maior culpado?

Ninguém é culpado. Mesmo Joe Jackson, que é quem tem mais culpa e, ao mesmo tempo, foi o maior incentivador de Michael. Foi ele quem primeiro farejou o talento de Michael, que o forjou para ser um astro. Ele o ensinou, lhe deu as primeiras noções de palco na idade mais tenra. Ele seria descoberto de qualquer modo, mas Joe o levou a Barry Gordy, imaginou o que ele seria no mundo do show business. É claro que o explorou, assim como todo mundo. Todo mundo sabe como explorar um ovo de ouro.

Sobre a sexualidade de Michael: ele era gay ou não?

Não, eu não acredito que ele fosse gay. Na verdade, tenho certeza que não era.

Mas também não era heterossexual, era?

Ele não teve relacionamentos sexuais convencionais. Em diversas ocasiões, ele se mostrou atraído por mulheres. Olhava muito as garotas, uma vez me falou de como se sentia atraído por determinada garota. Mas nunca se mostrou atraído por nenhum homem. Ele teve encontros físicos com mulheres, mas não os consumava.

Esse é um ponto dos mais contestados por fãs de Michael na internet, suas conclusões sobre a sexualidade, a hipótese de que tenha morrido virgem. Como você vê isso?

O grupo que me atacou acreditava que a sexualidade de Michael era perfeitamente normal, saudável, que tinha namoradas. E isso não era verdade. Ele nunca teve nenhum contato físico com Debbie ou Lisa Marie (suas ex-mulheres). Michael beijou muitas garotas, mas era algo que fazia apenas para consumo público.

E a empresa AEG, que contratou Jackson para aquela que seria sua última turnê? Qual o tipo de responsabilidade que teve em sua morte?

Claro que todo promotor, de algum jeito, explora o seu artista. Acho que eles deram a Michael Jackson um contrato bastante justo. A dúvida é se Michael Jackson poderia fazer tudo aquilo. Mas ele precisava desesperadamente de dinheiro, estava quebrado. Quando começou a venda de ingressos para a turnê que começaria em Londres, foi muito melhor do que a AEG imaginava, uma verdadeira loucura. E pensaram que poderia ser uma turnê de ouro, de milhares de concertos ao redor do mundo. E seus representantes disseram: "Sim, podemos fazer isso, ele está pronto". E ele de fato parecia estar em boa forma para fazer os 50 shows.

Há muitos médicos em sua história, assim como desperdício de dinheiro. É espantoso: você descreve como ele ganhou US$ 40 milhões de dólares com o primeiro disco, e depois descreve como ele ficou sem dinheiro para pagar o hotel por três dias.

Não acredito que, na história da raça humana, alguém tenha conseguido ser pior do que ele em gerir as próprias finanças. Mesmo após a morte, ele gastou meio milhão de dólares com os funerais. Nos últimos dias de vida, os cartões de crédito foram cancelados, ele não tinha dinheiro para pagar as contas nos últimos tempos. E era dono de um dos maiores catálogos de música do mundo.

E quanto aos médicos que lhe receitaram drogas e o mantiveram como um dependente ao longo da vida, como Arnold Klein, Allan Metzger e Conrad Murray?

Esses médicos eram totalmente integrados aos círculos de relacionamentos de celebridades de Michael. Eles trabalhavam para outros astros, que ficaram impressionados, e os recomendaram para Michael Jackson. Ele queria as drogas, eles as providenciavam. Ele sabia disso. De algumas, ele abusava mais que outras, então esses médicos acabaram se tornando os seus traficantes.

O New York Times foi muito cruel em sua resenha do livro, especialmente a crítica Michiko Kakutani.

Ela é lendariamente fria. Há diversos outros escritores famosos que ela também destroçou, então posso dizer que estou num clube muito bom de autores. Mas acho que o problema não era eu: ela queria que o livro fosse diferente, não era o que ela queria. Eu não quis escrever um livro sobre o artista Michael, o músico Michael. Eu estava mais interessado em escrever um livro sobre a pessoa Michael Jackson, sobre sua luta entre o bem e o mal, entre a fraqueza e a força. Eu escrevi o livro que eu queria escrever.

 

LEIA TRECHO DO LIVRO:

“Se eles atravessassem aquele portão, iriam persegui-lo para que ele assinasse o contrato concordando...

...em pagar a cada um mais 500 mil dólares. Mas, ainda assim, ele não podia deixar a mãe do lado de fora, se ela estava implorando para usar o banheiro. O que ele ia fazer, explicou, era instruir os seguranças para dizer à sua família mais uma vez que o sr. Jackson não estava no local, mas deixá-los entrar na propriedade para que pudessem utilizar as instalações. Assim que atravessaram o portão principal, foram direto para a sede da propriedade e entraram à força, procurando Michael. Michael retirou-se com as crianças para um esconderijo atrás de uma porta secreta no fundo do armário de seu quarto e de lá ligou para Schaffel. “Você está vendo o que eles fazem comigo? Você entende agora por que não quero ter nenhuma relação com os meus irmãos. A pior parte, que me mata, é que tenho de mentir para minha própria mãe”  

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