Midem 2003 chega ao fim exigindo o fim da pirataria

As mesas que discutiram a pirataria eas taxas que incidem sobre o preço dos discos, tornando-os muitocaros e fazendo com que os consumidores acabem comprando discospiratas foram tão importantes para o 37º Midem quanto a própriafeira, mercado global de licenciamento de discos e de ediçõesmusicais. Quem o diz é a diretora do Midem - MercadoInternacional da Música -, Dominique Leguern.Duzentos conferencistas, de 50 países, revezaram-se nasmesas, entre domingo e hoje, quando a feira cerrou as portas edesocupou o Palácio dos Festivais, em Cannes, na RivieraFrancesa."Encontrar meios de combater a pirataria é questão devida e morte para a indústria do disco", disse Dominique. Nãosó para a indústria como para os criadores, intérpretes,instrumentistas que deixam de receber direitos autorais. O Midemnão apresentou respostas. A pirataria de discos sempre existiu,mas tornou-se caso gravíssimo nos anos 90, quando ficou fácil emuito barato reproduzir CDs, obtendo-se um produtonão-autorizado com qualidade igual ao original. A cópia digitalnão tem perda de qualidade.Os números do Midem são impressionantes. Quatro milentidades - gravadoras, editoras, firmas de licenciamento e detecnologia -, de 92 países, estavam representadas na feira, queteve mais de 7 mil participantes e organizou 50 shows,acompanhados por mais de 700 jornalistas vindos do mundointeiro. Poucos negócios são fechados, entretanto. "A feira épara contato, não para contratos", disse Pena Schmidt, daAssociação Brasileira de Música Independente (ABMI), uma dasparceiras (com coordenação de Brasil Música & Artes - BM&A) naorganização da vinda da delegação brasileira a Cannes.O Brasil foi o país-tema da edição 2003 do Midem.Disputavam a honraria a Inglaterra e a Irlanda. "Mas entendemosque o Brasil tem mais coisa a dizer ao mundo, sobre música, doque a Inglaterra e a Irlanda", disse Dominique Leguern."Estamos muito satisfeitos por haver escolhido o Brasil; oMidem sente-se honrado com a participação brasileira. O mundoconhece muito bem a música anglo-saxônica, mas há muito damúsica brasileira ainda por descobrir", completou.Dominique disse ainda que a Europa volta os olhos comatenção para o Brasil, esperançosa de que o governo recém-eleitoconsiga promover mudanças sociais de que o País precisa - eelogiou a indicação de Gilberto Gil para o Ministério da Cultura, para ela já um sinal de mudança.Como país-tema, o Brasil fez o show da noite de gala, oespetáculo de abertura da feira, na noite do domingo. Osartistas dividiram-se entre os dois salões principais do Paláciodos Festivais. O compositor Tom Zé fez as vezes demestre-de-cerimônias, mas não cantou. Gilberto Gil, que na manhãde domingo havia concedido disputada entrevista coletiva,assistiu aos shows. Havia recebido da delegação brasileira umcontive para cantar, mas foi, depois, desconvidado, sob alegaçãode que estava aqui na condição de ministro, não na de músico, esob o pretexto de que ofuscaria a apresentação dos outrosartistas.A delegação que representou nossa música era integradapor músicos e intérpretes novos, nomes pouco conhecidos mesmo noBrasil. A idéia era essa mesma, segundo o diretor da BM&A, ocompositor José Carlos Costa Netto: mostrar gente nova, abrir asporteiras do mundo para a produção independente. Os nomesselecionados foram o grupo de percussão corporal Barbatuques, oviolonista Yamandú Costa, a cantora Marcia Salomon, em dupla comRoberto Menescal, o projeto Bossacucanova, com o mesmo Menescale a cantora Chris Delano, o grupo Cabruera, a dupla Veiga &Salazar, o cavaquinhista elétrico Armandinho - uma amostragemampla, indo do que a Europa e o mundo já bem conhecem (a bossanova de Marcia e Menescal) ao que mesmo o Brasil desconhece (oextraordinário Barbatuques, que resgata em canto, dança ebatuques no corpo algumas expressões de nossa cultura, do passobatido do índio aos movimentos dos terreiros de candomblé).A escolha desses nomes não foi unanimemente apreciada.Houve donos de gravadoras independentes brasileiras que sesentiram preteridos, porque artistas seus não participaram doshow - questões que a BM&A e a ABMI precisam resolver. A BM&Amontou um stand brasileiro no Palácio dos Festivais - foi aprimeira vez em que a MPB teve stand no Midem, embora sempretenha participado da feira. Conseguiu fazer do Brasil país-temae chamar atenções para nossa moderna produção musicalindependente, aquela realizada por gravadoras pequenas. É umgrande passo.Quem colheu frutos imediatos foi o violonista YamandúCosta, da Gravadora Eldorado, que foi convidado a participar defestivais de jazz - o de Montreaux e de um outro, na Dinamarca,além de ter sido sondado para gravar um disco na Itália. Entreresultados concretos contam-se o contrato de licenciamento detítulos para o Japão e de distribuição na Europa conseguido pelagravadora Dabliú. As outras participantes foram a Visom Digital,a Cucamonga Records, a Nikita Music, a MCD World Music, a ST2, aRH, a Spin, a Ouver, a Rob Digital, a Jam Music, a BrazilBizz, aIMusica (que tem chances de plantar sua plataforma virtual naInglaterra e na Franca). Não houve contratos, mas contatos. Ospróximos meses dirão quanto valeu.O repórter viajou a convite do festival

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