Michel Legrand em recital, ópera e oratório

Aos 82 anos, o compositor de ‘Os Guarda-Chuvas do Amor’ fala de seus projetos

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

08 de abril de 2014 | 19h19

Compositor do clássico musical francês Os Guarda-Chuvas do Amor (Les Parapluies de Cherbourg), premiado há 50 anos com a Palma de Ouro no Festival de Cannes, Michel Legrand toca hoje, em São Paulo, na oitava edição da série Jazz All Nights, apresentada pela Bradesco Seguros. O músico começou sua turnê sul-americana há dois anos, para comemorar seus 80 anos, dos quais quase 60 dedicados à música de cinema – ele começou a compor para filmes em 1955 e já produziu mais de 200 trilhas, recebendo 13 indicações para o Oscar (ele levou três estatuetas).

Com discos gravados ao lado dos maiores nomes do jazz, de John Coltrane a Miles Davis, passando por Stan Getz e Oscar Peterson, Legrand está em plena atividade. Por telefone, o músico concedeu uma entrevista ao Caderno 2, anunciando novidades só para este ano: uma ópera, Dreyfus, baseada no caso histórico do capitão de mesmo nome (estreia em maio, no Teatro Nacional de Nice), um oratório baseado em Os Guarda-Chuvas do Amor (estreia em setembro, no Teatro Châtelet de Paris) e a trilha do novo filme de Xavier Beauvois, La Rançon de la Gloire, que será exibido no próximo mês, no Festival de Cannes.

Para um senhor que acabou de completar 82 anos em fevereiro, parece inacreditável, mas Legrand ainda arranjou tempo para compor a música de um balé encomendado pelo coreógrafo norte-americano John Neumeier, que já estreou. Concluindo o pentatlo, ele ajudou a selecionar os 15 discos do box Anthology, um resumo de sua carreira lançado este ano, e, no ano passado, cuidou da edição completa em CD de sua parceria com o diretor de Os Guarda-Chuvas do Amor (L’Integrale Jacques Demy/Michel Legrand, 11 CDs com todos os musicais do cineasta).

Pela ordem de entrada na conversa com Legrand, a ópera Dreyfus deve ser a mais polêmica das criações deste ano. "Não gosto do exército francês, sou antibélico por natureza, e foi o que me fez aceitar a encomenda do diretor Daniel Beroin". Legrand trabalhou em parceria com o velho amigo libretista Didier van Cauwelaert (Amour ou Le Passe-Muraille) para contar no palco a história do capitão judeu Alfred Dreyfus (1859-1935), um dos maiores escândalos da história da França. Acusado de traidor e incriminado por vender segredos militares aos alemães, Dreyfus foi condenando injustamente, sendo defendido em um artigo na imprensa, pelo escritor Emile Zola, que denunciou (em 1898) o Alto Comando Militar e o antissemitismo na Terceira República francesa. O Exército só o reabilitaria em 1906.

Embora conhecido como romântico autor de canções memoráveis (The Windmills of your Mind, What Are You Doing the Rest of Your Life), Legrand é um homem igualmente ligado à cerebral Nouvelle Vague do cinema francês (escreveu trilhas para Godard) e compôs para cineastas engajados como Joseph Losey (as trilhas de Eva e O Mensageiro). Legrand diz que encontrou no diretor Xavier Beauvois (do sério De Homens e Deuses) um parceiro tão interessante como Demy. Já Losey não era tão presente em sua vida (o diretor só disse que gostou da música de O Mensageiro quando o filme ganhou a Palma de Ouro em Cannes, em 1971). "Para compor a trilha de La Rançon de la Gloire, que trata do sequestro do corpo de Charles Chaplin, sentávamos ao piano lá em casa e tentávamos improvisar, como o faziam os pianistas que acompanhavam os filmes mudos".

Legrand deve tocar alguns de seus temas de cinema, mas vai dedicar mais atenção a peças jazzísticas no recital de hoje, em que é acompanhado pelo baixista Pierre Boussaguet e o baterista François Laizeau.

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