Michael Jackson vai virar estátua na favela Dona Marta

Governador Sérgio Cabral Filho (PMDB) vai construir uma estátua no astro pop no Espaço Michael Jackson

Felipe Werneck,

26 de junho de 2009 | 20h34

"Máicôu!", gritava nesta sexta, 26, a garotada da escolinha de percussão Aos Pés do Santa Marta, na mesma laje onde Michael Jackson gravou o clipe de They Don’t Care About Us, em 1996. Já Gabrielle Meirelles Mendonça, que tinha um ano na época, mostrava um álbum carcomido com fotos em que aparece no colo do cantor. O pintor Edimar Marcelino Franco, 39 anos, um dos contratados por R$120 para fazer a segurança da equipe comandada pelo diretor Spike Lee, segurava o colete rosa da Sky Light Produção que usou na ocasião, já bem encolhido. Só se falava em Michael Jackson na favela. Apesar da chuva fina, o clima era de festa. Vestida com uma roupa meio esquisita, a dançarina, atriz e massoterapeuta Antônia Carlos Gomes, de 32, imitava passos do cantor e não parava de dar entrevistas.

 

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A fã Antônia Carlos Gomes dança no morro Dona Marta. Foto: AP

 

 

O governador Sérgio Cabral Filho (PMDB), que em dezembro acabou com a ocupação ostensiva do morro por traficantes armados, também não perdeu a oportunidade de entrar no assunto: anunciou que vai construir uma estátua no astro pop no local. A laje, no Beco do Curió, fica ao lado de uma igreja da Assembléia de Deus e está bem caidinha, com buracos, rachaduras, lodo e tijolos aparentes. Fica no terraço da Casa de Cultura da favela, que hoje estava sem luz. Edimar nasceu e foi criado no Dona Marta.

Hoje, amigos faziam piadas sobre o colete rosa e apertadinho que ele guardou. "Quem escolheu a cor foi ele, rapá. Rosa era o estilo dele." O pintor lembra que achou engraçado quando o cantor tirou a camisa durante as filmagens. "Os costas pareciam a de um dálmata, eram cheias de pintas pretas", disse. "Ele chegou de máscara, mas logo depois desistiu. Uma hora puxei o braço dele. A pele era toda mole, parecia borracha." Edimar só não comenta o acordo com o então traficante Marcinho VP, do Comando Vermelho, para a realização das filmagens na ocasião.

"Aquilo foi a maior salseira na época, é melhor não falar sobre isso agora porque pode dar m." Na entrada do terraço ainda há riscos no concreto com as iniciais CV. Hoje professor de percussão, José Carlos Machado, de 40 anos, também fez parte da equipe contratada para "dar livre acesso" a Michael Jackson. "Aqui, ele é ídolo", disse, à frente de 9 dos 60 jovens ritmistas que ensaiam no local, bancados pela escola alemã Corcovado.

Machado não gosta da proibição do funk imposta há seis meses pela PM no morro. "Não temos quase diversão. Queremos o retorno dos bailes. Essa é a nossa batalha." Gabrielle, de 14 anos, que segurava as fotos em que aparece no colo do cantor (vestido com a camisa do Olodum do clipe), hoje gosta de NX Zero. "Aquilo foi marcante para toda a minha família", disse. "Naquele dia, ele apontou e eu passei ela pela janela", contou a mãe, Dorlete, toda orgulhosa.

 

O governo do Estado informou que será publicado no Diário Oficial de segunda-feira o decreto que cria o "Espaço Michael Jackson". Segundo o documento, caberá à Secretaria de Obras "providenciar a recuperação do local, realizando obras necessárias e a respectiva manutenção, bem como a colocação de uma estátua do cantor simulando uma das coreografias realizadas no videoclipe gravado no local". Presidente da associação de moradores e responsável pelo prédio, José Mário Hilário disse que ainda não foi procurado pelo governo. "Vamos aceitar com o maior prazer, mas temos que conversar. O que a gente quer é que a obra seja feita e que tudo que tiver de cultura no morro fique ali. Vai ser o melhor para a comunidade."

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