Michael Jackson faz 45 anos sem muito que festejar

Um homem branco e aflito soprou ontem à noite 45 velas colocadas sobre o bolo encomendado pelo Rancho Neverland, no Vale Santa Unes, Califórnia. Seus filhos pequenos cantaram "parabéns", amigos telefonaram e presentes não pararam de chegar. Mas a angústia maior veio na hora de fazer o pedido. Michael Joseph Jackson quer ser Peter Pan, quer ter uma gravadora nova, quer voltar a vender um milhão de discos, quer que os jornalistas virem sapos, quer que a fome dos países pobres desapareça, quer voltar a fazer um videoclipe nos moldes de Thriller, quer estar sempre perto de crianças, quer poder dormir com elas, quer conversar com as árvores, quer sair ao sol sem ter de usar luvas.E quer paz. Michael Jackson quer que o deixem viver como sempre sonhou, uma criança cheia de amiguinhos em um castelo fantástico com enormes rodas gigantes, trens de verdade e carrosséis iluminados. Música, mesmo contra sua vontade, foi para o segundo plano.Seu Invincible, último disco lançado há três anos, foi vencido pela megalomania de uma produção estimada em US$ 30 milhões. O álbum vendeu bem no lançamento, mas naufragou logo depois. O teste da memória afetiva não falha: pense em um sucesso de Michael Jackson. Ele provavelmente não foi criado após 1987, época do lançamento do disco Bad, seu último grande acerto.O fato é que o mundo dos homens com mais de 18 anos sempre foi triste demais para Michael Jackson. Sua "menoridade" atingida aos 45, para muitos a maior forçação de barra da história do show biz, é um universo que o cantor criou para si com sinceridade. A criança molestada pelo pai, que entrava no coro forçado a trocar o jogo de basquete com os amigos por uma sessão de estúdio com os irmãos, cresceu em busca da infância que nunca teve. Quando decidiu assinar um contrato com uma mulher para que ela gerasse seus filhos e sumisse do mapa logo em seguida, Jackson não queria filhos. Queria amiguinhos.O recente documentário de Martin Bashir, A Vida Íntima de Michael Jackson, teve uma edição maldosa. O jornalista inglês usou um nefasto recurso para tirar boas revelações de seu entrevistado: chegou manso, brincou com as crianças, ganhou confiança e, quando estava a caminho da saída, virou para trás e disparou as piores perguntas. Mas sua importância é inegável. Foi ele quem revelou um artista em estado mental preocupante. Michael Jackson diz querer ser Peter Pan, coloca máscaras para esconder os filhos, entra em crise enquanto dá mamadeira para um deles.Michael Jackson fala pouco da era mais gloriosa de sua música justamente porque foi ela a sua era mais catastrófica. Em 1963, aos cinco anos, cantou Climb Every Montain para os colegas de sua classe no jardim de infância. Quando terminou, sentiu o chão tremer por longos segundos. "Os aplausos foram trovejantes. Não achei que tinha feito nada de especial. Só cantei como cantava todas as noites em casa", lembrou depois. No Grammy de 84, saiu com oito prêmios dos 12 aos quais havia sido indicado. Quatorze canções suas foram para o topo das paradas americanas. Três de seus álbuns entraram para a lista dos mais vendidos no mundo. Thriller inventou a indústria de videoclipes. Espera-se que não fique para a história só a imagem de um nariz deformado.

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