Miami reuniu o melhor da cena eletrônica mundial

O paulistano Marky sendo reconhecido nas ruas e ganhando descontos generosos em uma descolada loja de discos da Washington Avenue. O americano Christopher Lawrence dando uma pausa em seu trance habitual para revelar a paixão inusitada pelos Beatles. O inglês e eterno líder do Culture Club Boy George, discotecando house music . Um segurança balneário peruano e roqueiro chamado Ruan tirando fotos instantâneas com as garotas de topless acompanhantes do crew do club/selo inglês Movement. "Vou mostrar para minha mulher", informa ele. Uma seleção para lá de rigorosa à porta do notório club Cro bar - não basta ter estilo ou dinheiro, tem de participar. O inglês Tricky desculpando-se por não ter vindo ao Rock in Rio 3. Esses foram alguns dos episódios presenciados pela reportagem durante (e por que não dizer após, pelo adiantar da hora) a 16.ª edição da Winter Music Conference, que foi aberta no sábado e terminou hoje.Techno, drum´n´bass, trance, house e rap, as principais variantes da música eletrônica, deram o tom por cinco dias e prestaram-se a algumas reflexões que vinham dos palestrantes dos simpósios, dos DJs que se apresentaram nos clubs e nas private parties e nas conversas informais de fim de noite. "Eu odeio quando as pessoas dizem que música eletrônica não tem sentimento que é feita por computadores. É o típico comentário de gente que não enxerga um palmo à frente do nariz", diz o veterano produtor e DJ Brian Gee, um dos mais influentes do drum´n´bass e dono do selo V Recordings. "Eu defino o que eu toco apenas como música."Gee foi o primeiro britânico a render-se ao carisma e à precisão do DJ Marky. Em 1998, o produtor conferiu a performance do brasileiro, que tocou antes dele no Lov.e Club, em São Paulo. Na mesma noite, começou a arquitetar seu debut no país da realeza. "O set list de Marky arrebentou com a minha cabeça . O garoto já era um talento pronto, com uma energia incrível. Tenho de mostrar para a Inglaterra o que esse cara está fazendo no Brasil, eu pensei." Não é novidade para ninguém que a ida de Marky para a capital inglesa foi o início da mais bem sucedida carreira internacional de um DJ brasileiro. Novidade mesmo, e prova do prestígio do paulistano, é a inédita parceria entre a Movement e a Nike. A campanha publicitária da linha de tênis e roupas esportivas terá o DJ como garoto-propaganda.Os dois se reencontraram em frente das pick ups do club Level um dia antes do início da WMC. Marky tocou algumas faixas do Brasil EP, que contém remixes de dos brasileiros Xerxes e Patife. Atração prevista para a mesma noite, Patife não conseguiu o visto de entrada nos Estados Unidos e ficou na Europa, onde tocou recentemente. "Hoje, Marky e Patife são tão importantes quanto Roni Size e Jumpin´ Jack Frost, representam uma outra esfera do drum´n´bass e, o melhor, estão tornando-se produtores", diz Gee. "A maneira com que eles tocam tem influenciado as performances dos DJs ingleses, que normalmente são frios e sérios."A festa Movement trouxe também, no line-up, o DJ Ray Keith , outro dos precursores do drum´n´bass. Keith esteve no Brasil no ano passado e guarda ótimas lembranças da passagem. "Fiquei impressionado com o que vi. Existe uma jovem cultura de club sem os vícios da cena inglesa", diz Keith, lembrando que voltará ao País para segunda edição do Skol Beats, nos dias 19 de abril no Rio, 20 em Curitiba e 21 em São Paulo.Conhecido por sua miscêlania de ritmos incorporados ao drum´n´bass, Keith comenta seu desenvolvimento como DJ e os caminhos tomados pelo gênero que ajudou a criar. "Sempre ouvi uma série de coisas. No fim dos anos 70, gostava de punk rock, depois começei a tocar hip-hop, adoro soul e funk e é claro que isso se reflete no meu trabalho", continua. "Me orgulho em saber que no drum´n´bass não há nenhum tipo de fórmula preestabelecida. Isso é o que faz com que seja uma música global que conserva o espírito independente e experimental. Não é mainstream como outros estilos."Viagens - Antes de hipnotizar os que lotavam o concorrido club Cro Bar, na noite do último sábado, o DJ e produtor inglês John Digweed reclamava da rapidez com que passa por alguns países em que toca, "Gostaria de ter mais tempo para conhecer e assimilar os lugares, é complicado, pois tem momentos em que eu nem sei onde estou. É como aqueles roqueiros que gritam ´Boa noite Buenos Aires´ num show no Brasil; eu agora entendo esse tipo de confusão."Digweed não está exagerando. Quando tocou sua combinação de trance e progressive house no Phillips Expression, em Maresias, no início do ano, chegou de madrugada e foi direto para cabine de som. A volta ao País, dentro da programação do Skol Beats, também será breve. O DJ começa a tocar à tarde em São Paulo para depois seguir em direção ao Uruguai. "Mas o prazer de tocar é totalmente recompensador, a música é a minha paixão e é na frente das pick ups que eu me reconheço mais como DJ do que como produtor de estúdio", diz ele, residente da Twillo, em Nova York, e responsável pelo importante selo/club Bedrock. "É apenas um selo que se interessa pela divulgação e desenvolvimento da cena", minimiza.Surpreendentemente, um dos ilustres na pista de dança do Cro Bar era um dos expoentes do chamado trip hop (um dos ritmos mais assustadores e intrigantes surgidos na década passada). De cabelo moicano, o DJ e produtor Tricky adiantou-se em desmentir os boatos de que sua própria má vontade teria sido a causa real do cancelamento da discotecagem que ele faria na Tenda Eletro do Rock in Rio 3. "Tive alguns problemas de ordem pessoal", disse ele, que acaba de lançar o belo EP Mission Accomplished. "Peça desculpas por mim, cara." Não seja por isso.

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