M.I.A. retrabalha o funk carioca

Mais uma vez o mundo se curva diante do Brasil. Bem, se curva e sacode o popozão. A badalada ?cachorra? anglo-cingalesa M.I.A. afinal tem seu álbum de estréia lançado pela Sum Records na pátria do funk carioca. O sensual, hipnótico e familiar Arular chega aqui com quatro meses de atraso em relação à Inglaterra, mas ainda a tempo de preparar o terreno e as cinturas para os seus dois shows no TIM Festival, nos dias 22 (no MAM, no Rio) e 23 de outubro (no Arena Skol Anhembi, em São Paulo).Reduzir M.I.A. - pronuncia-se "Maia", como seu prenome, e remete a ´missing in action´ (desaparecido em combate) - a reprocessadora de um funk já reprocessado nos morros do Rio é, por mais que o ufanismo ruja, considerar apenas parte da sua música. Arular é muito mais que um CD chupado dos bailes cariocas, em que pese a importância da faixa Bucky Done Gun, pancadão para Tati Quebra-Barraco alguma pôr defeito. A propósito, a edição nacional dá o devido crédito a Dayse Tigrona, pelo ´sampler´ da música Injeção, produzida pelo DJ Marlboro. A edição internacional, nesta faixa, menciona somente o recurso a trechos do tema do filme Rocky, o Lutador.Em Arular, além do funk carioca, reconhecido no exterior como um estilo, há elementos de pop, dancehall, ragga, rap, electro, o diabo na carne de Ms. Maya Arulpragasam, de 27 anos. A colagem tramada entre sua Londres natal e o Sri Lanka de seus pais, com escala na Índia, é uma das mais poderosas manifestações do radical faça-você-mesmo hoje permitido pela, sejamos genéricos, "música eletrônica". As outras são Peaches - nome artístico da ex-prostituta canadense Merrill Nisker, que se tornou madrinha de M.I.A. ao lhe dar um seqüenciador Roland MC-505 - e The Streets - projeto do inglês Mike Skinner, que, na opinião deste crítico, pôs nas ruas o melhor álbum de 2004, A Grand Don´t Come for Free.No entanto, onde Peaches é uma niilista que se consome no sexo (Fuck the Pain Away é uma das canções mais dolorosas da história) e Skinner, um cronista da Londres superurbana (seu hino Dry Your Eyes é romantismo mais-que-tardio), M.I.A. é basicamente uma ativista política. O pai escritor lhe serve de modelo. Ele fez parte de uma organização estudantil chamada Eros, que buscava alcançar a independência da minoria tamil do Sri Lanka com a força da razão, sem violência. Não deu certo. A brutal repressão do governo fez com que todos os movimentos de libertação se fundissem aos barras-pesadas Tigres de Tamil, que se (des)equilibram na tênue linha entre guerrilha e terrorismo, no olho por olho.Daí a profusão de referências militares em Arular, de músicas como Pull up the People (que diz "eu tenho as bombas/ Para fazê-lo explodir/ Eu tenho as batidas/ Bang bang Bang") ao projeto gráfico, cheio de pistolas e tanques (a autoria é da própria M.I.A., que, na condição de designer e fotógrafa, trabalhou com a banda Elastica). Assim, no conteúdo, os Tigres de Tamil justificam seu gangsta rap. M.I.A., porém, também fala do aqui e agora: de BMWs, de créditos num Nokia, dos jeans apertados de Jennifer López. E, na forma, são mesmo Peaches (onipresente) e Skinner (Sunshowers, sobretudo) as suas referências.A história de Arular começou bem antes de sua gravação, com o vazamento da faixa Galang na Inglaterra, um ano atrás. A agora última música do CDzão - que soa um pouco como um canto de umbanda recheado de gírias jamaicanas - fez a cabeça de nove entre dez formadores de opinião musical, jogando sobre os ombros estreitos de M.I.A. a responsabilidade de ser a "próxima grande coisa". Quando chegou às lojas, o álbum não decepcionou nem a crítica nem o público de lá. Não creio que vá decepcionar aqui. Já os shows no Brasil são uma interessante incógnita: será a anglo-cingalesa capaz de seduzir uma platéia acostumada à energia sexual dos bailes funk?

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