Mia Borders traz o novo sangue sulista a São Paulo

Guitarrista é destaque entre as revelações de New Orleans

Jotabê Medeiros, O Estado de S. Paulo

15 de agosto de 2014 | 20h33

Uma das notáveis caras novas que o Bourbon Street Fest está trazendo pela primeira vez ao Brasil é, sem dúvida, a cantora e guitarrista Mia Borders, de 26 anos. Cool e reservada, ela parece habitar aquela galáxia na qual vivia, por exemplo, Cássia Eller. Ela se apresenta no Bourbon Street Music Club na quarta, às 21 h, e volta a tocar na sexta, às 22h30, com sua banda.

Apesar da idade, ela tem uma intensidade emocional que, por vezes, lembra uma Etta James mais urbana, ou uma Nina Simone com distorção. "Claro que, quando eu era garota, ouvia essas mulheres e sonhava. É um grande elogio ser minimamente comparada a elas. Mas eu estou seguindo meu caminho, não estou emulando ninguém", disse Mia com voz rouca, em entrevista por telefone ao Estado de New Orleans, onde vive - chegou a morar em Connecticut na adolescência, mas achava o lugar tedioso.

"Minha avó não queria que eu tocasse guitarra, me colocou para estudar piano. Mas eu larguei, fui em direção à guitarra com uns 11 anos e nunca parei, estive compondo e cantando desde então", ela canta. Suas composições são confessionais, e têm grande componente autobiográfico, como a recente 25 Years (do disco Quarter-Life Crisis, do ano passado).

25 Years diz o seguinte: "Os próximos 25 não vão ser como os últimos/O passado passou/Eu tenho que fazer uma mudança/Colocar a garrafa de lado". Ela explica: "Parei de beber há dois anos. Você sabe: vivendo em New Orleans, sendo do mundo da música, do mundo noturno, é muito difícil não cair na bebida. Mas estava me fazendo mal, parei".

O repertório é quase sempre próprio, mas Mia também ataca uns covers muito particulares. É possível vê-la no YouTube, no Kennedy Center, tocando uma versão matadora de Superstition, de Stevie Wonder. "Tenho influência do blues, mas também do soul e do funk", diz. Mas tira sarro dos que a compararam com Lenny Kravitz e Tracy Chapman. "Talvez isso tenha mais a ver com meu cabelo e meus óculos escuros", comenta.

Ela é praticamente local hero de New Orleans, porque sua única excursão para o exterior até agora tinha sido um show na Suíça, em um hotel. Tem sete discos, o primeiro gravado em 2005, quando ainda era um prodígio adolescente: Good Things. Sua banda tem Jesse Morrow no baixo, Robert Lee na bateria e Takeshi Shimmura na guitarra. Para esse último, ela quebra o tom de voz distanciado e se entusiasma: "Toda minha banda pode tocar qualquer gênero. O baixista tem treinamento em jazz clássico. Mas o japonês é fora de série. Preste atenção nele: na minha opinião, é um dos melhores guitarristas em ação lá na minha região"

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A 12.ª edição do Bourbon Street Fest trará, a partir deste sábado e até daqui a 7 dias, uma amostragem dos gêneros mais importantes do amálgama cultural do Sul dos EUA. Além do R&B de Allen Toussaint e do funk&soul de Mia Borders, o blues está magnificamente representando por Walter “Wolfman” Washington & The Roadmasters; e o zydeco (espécie de forró dos pântanos) vem com um expoente, Rockin’ Dopsie, Jr. & The ZydecoTwisters.

O bluesman Walter Wolfman Washington, de 70 anos, cantor e guitarrista, é um dos grandes personagens do gênero, com seus chapéus coloridos, a performance alegre e teatral e o toque preciso na guitarra. Sua carreira começa ainda na big band de Lee Dorsey, quando era somente um garoto, e é um heterodoxo do gênero: costuma fundir blues com funk e R&B com muita naturalidade.

A veterana cantora Germaine Bazzle, acompanhada da 504 Experience, traz o sabor do jazz clássico e do chamado American Songbook para o festival. Octogenária, ela foi influenciada por Sarah Vaughan, Ella Fitzgerald e Billy Eckstein, e iniciou sua carreira cantando na igreja em Saint Louis.

O trombonista Glen David Andrews, da família de Trombone Shorty (cujo nome real é Troy Andrews), reaparece no festival trazendo uma escola de showmen impagável para o palco. Também está no programa a brass band Brass-A-Holics, uma das tradições do carnaval de New Orleans e das noites quentes da Bourbon Street.

A organização, para os shows na própria casa Bourbon Street, em Moema, escalou o Bourbon Street Jazz Quartet (para as noites de sexta e sábado) e o Dj Crizz, há 5 anos residente do cluve, será o encarregado de manter “o clima” nos intervalos dos shows.

Outra atração, já célebre nos festivais do Bourbon, é a gastronomia, que se inspira na cozinha cajun e créole sulista, com pratos levemente condimentados, resultado da combinação das culturas francesa, espanhola, africana e indígena. E durante a mostra, a organização anuncia algumas versões dos mais tradicionais pratos de New Orleans, dentre eles o jambalaya, que serão apresentados em releituras assinadas pelo chef Luís Fernando Sanguini.

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