Fred Siewerdt
Fred Siewerdt

Mestre Cézar Mendes segue à procura da melodia perfeita, com Caetano Veloso, Djavan, entre outros

Ele não faz letra. “Preciso de um poeta”, diz o mestre do violão; seu álbum foi ideia de Marisa Monte de reunir a obra criada por ele

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

22 de agosto de 2018 | 06h00

RIO - Cézar Mendes vive com o violão no colo desde que era menino, em Santo Amaro da Purificação, a cidade do Recôncavo Baiano que já havia dado ao mundo Caetano Veloso e Maria Bethânia.

Aos 6 anos, o menino sabia tocar, de tanto ouvir rádio. Aos 9, uma das irmãs deixou seu violão em cima da cama. Cezinha o tomou para si, e combinou com a dona: “Pode dispensar o seu professor que agora vou ensinar você a tocar. Você só paga minhas matinês no cinema”.

Ela nunca pagou, diz o irmão, até hoje mestre das cordas de muitos. Bethânia, Daniela Mercury, Carlinhos Brown, Margareth Menezes, Marisa Monte, Moreno, Tom e Zeca Veloso – os três filhos artistas de Caetano – já foram seus alunos.

Junto a Caetano ele se tornou compositor, em 1998. A parceria Aquele Frevo Axé acabou gravada por Gal Costa, em disco homônimo. Vinte anos depois, Cezinha lança Depois Enfim, reunião (apenas em formato digital) de suas parcerias produzida por Marisa, Arto Lindsay e Mário Caldato, com novas interpretações para nove de suas canções.

“A ideia foi da Marisa. Como minha obra é muito espalhada, pensamos em unificar tudo”, conta o violonista, aos 66 anos, há dez radicado no Rio. O rol de intérpretes de Depois Enfim é estelar.

Djavan ficou com a super-romântica Mande Um Sinal (Cézar/Ronaldo Bastos). Marisa, com a graciosa Flor do Ipê (Cézar/Tom Veloso/Arnaldo Antunes). Caetano dá sua versão para a derramada Carnalismo, (Cézar/Marisa/Arnaldo/Carlinhos Brown), faixa do primeiro CD dos Tribalistas (2002) e um dos pontos altos do show do trio.

Os portugueses Carminho e António Zambujo participam, respectivamente, de Tom de Voz (Cézar/Quito Ribeiro) e Até o Fim (Cézar/Arnaldo).

Arnaldo, parceiro mais frequente, registrou uma que não é sua, Tiranizar (Cézar/Caetano); a voz de Adriana Calcanhotto está na faixa-título (Cézar/ Arnaldo/Tom Veloso). Tom e Moreno gravaram Um Só Lugar. A voz pequena de Fernanda Montenegro surpreende pela emoção em Aquele Frevo Axé. 

Ele não faz letra. “Preciso de um poeta.” O primeiro foi Caetano. Os dois se aproximaram mais já na época do estouro de Alegria Alegria. Trinta anos depois, Paula Lavigne, segunda mulher de Caetano, lhe instigou para que virassem parceiros. “Nunca imaginei fazer música, mas ser compositor você não planeja, é algo orgânico. Morava em Itapuã, peguei um ônibus e aquilo que a Paulinha falou ficou na minha cabeça. De repente a música apareceu inteira”, relembra o compositor, que tem João Gilberto como ídolo maior.

“Eu disse: ‘Caetano, fiz uma música’. Ele respondeu: ‘Que maravilha, assovie pra mim’. Era verão, ele viajou para Nova York, encontrou com Gal e ela pediu uma música para o disco. Quando eu soube, já tinha uma editora correndo atrás de mim para editar Aquele Frevo Axé”, ri.

“A dedicação de Cezinha faz com que ele alcance uma síntese muito rara de sofisticação e simplicidade. Suas canções parecem clássicos já ao nascer”, acrescenta Arnaldo Antunes.

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