Tiago Queiroz / Estadão
Tiago Queiroz / Estadão

Meno Del Picchia cria ópera rock caipira para narrar história de primo andarilho

'Barriga de 7 Janta' é o terceiro álbum do músico

Pedro Antunes, O Estado de S. Paulo

31 Julho 2016 | 04h00

Quando descobriu que a amada estava de caso com o melhor amigo, Dico perdeu seu rumo. Desaprumou-se e sumiu. Raimundo, o sapateiro apelidado de Dico, deixou Ipaussu para cair no mundo. Deixou de ser Dico. Tornou-se Barriga de 7 Janta – apelido dado à sua magreza, como alguém que havia jantado apenas sete vezes durante a vida. Dico, ou Raimundo, existiu. E também sumiu. O músico Meno Del Picchia, bisneto de escritor, pintor e escultor Menotti Del Picchia, nunca o conheceu, mas ouviu algumas vezes a história a respeito desse personagem da sua família por parte de mãe, vinda da cidade localizada no oeste do Estado de São Paulo, próximo da fronteira com o Paraná. 

É na estrada, ao dirigir, que Meno cruzava com andarilhos. Aqueles homens a caminhar pela imensidão do interior do País lhe traziam a lembrança de Dico. Um deles, inclusive, poderia ser o familiar cujo destino, depois do sumiço de Ipaussu, é desconhecido. Com liberdade da criação artística, o músico se colocou a imaginar e arquitetar Barriga de 7 Janta, o seu terceiro álbum. Ali, ele reúne em 14 capítulos – ou canções – o destino de Dico, o homem que se perdeu dentro de si e se afastou do mundo. Meno faz do disco mais ousado esteticamente também o mais pessoal. Por mais imaginação que tenha colocado em versos e refrãos, o protagonista partilha o mesmo sangue do autor. É a história do primo desaparecido que Meno ouvia do avô Zico, pai de sua mãe, que morreu há quase duas décadas. Trata-se de uma história alojada em um lugar da sua memórias. “Tenho uma curiosidade enorme em saber o que faz alguém abandonar tudo”, conta Meno. “O que é preciso acontecer para que essa pessoa fosse parar ali, naquela estrada, no meio de lugar algum?” 

Quando terminou de gravar o primeiro, que levava o seu nome, em 2009, nasceu a primeira canção de Barriga de 7 Janta. Nascia em Primo Raimundo – Parte I, toda a história pela qual Meno se mergulharia nos anos seguintes – o motivo pelo sumiço, a insanidade, os trapos que vestia, o retorno à cidade natal. “Essa canção simplesmente aconteceu”, ele conta. Tratava-se de um samba cuja versão final, sete anos depois, ganhou ares caipiras, com a guitarra de 12 cordas de Rodrigo Caçapa, autor dos arranjos dessa faixa. 

Quando estava prestes a encerrar o segundo álbum, Macaco Sem Pelo, lançado há três anos, Meno passou a imaginar o que viria a seguir e reencontrou a ideia de criar uma história para o primo andarilho. Nessa aventura literária pela família por parte da mãe, Meno também quis incluir o lado paterno – e colocar a sua hereditariedade de forma completa – ao acrescentar o personagem Juca Mulato, ao musicar um trecho do poema de maior sucesso do bisavô por parte de pai, de quem ele herdou o sobrenome. 

Em certo momento, antes de Dico chegar à São Paulo destino de suas andanças, ele se encontra com o próprio Juca e seu cavalo Pigarço – nome do equino, aliás, que dá nome à canção. “O Barriga (ou Dico) e Juca Mulato compartilham uma dor de amor”, analisa Meno. “Quis trazer os dois lados da minha família, nesse encontro de personagens. São dois personagens parecidos. Duas pontas da minha história se encontrando.” 

Barriga de 7 Janta é um disco a respeito do descolamento da realidade. E foi gestado em sete anos. “Foi uma experiência bastante diferente”, conta Meno a respeito da composição do terceiro álbum, se comparado aos álbuns anteriores – e isso inclui até o desprendimento sonoro, com arranjos que buscam retratar o ar caipira que acompanha as andanças de Dico, desde sua paixão por Sabrina, o descobrimento da traição, até a chegada a São Paulo. “Desta vez, senti que realmente compus um disco”, conta Meno. “Não foi uma música depois da outra. Foi criar uma história inteira, narrar uma vida. Queria que as pessoas ouvissem esse disco inteiro, do começo ao fim, como se estivessem assistindo a um filme.” 

É a vida de Dico que se ouve ali, em 45 minutos, mas o grande personagem é o amor. Como um coração partido pode romper, inclusive, o encontro com a realidade. Raimundo, sapateiro que aprendeu o ofício com o pai, caiu de amores por Sabrina. Ou “explodiu por dentro”, como diz o verso da primeira faixa, quando a viu pela primeira vez. Perdê-la foi sua perdição. Parte brilhante do trabalho de Barriga de 7 Janta é a nona canção, Raimundo Perdoa, uma canção que não precisa de palavras para esparramar a serenidade na qual o personagem passa a habitar. Por fim, Dico volta a Ipaussu, onde morre leve. O verdadeiro Raimundo, que hoje deve ter por volta dos 70 anos, nunca voltou. “Eu o convidaria para tomar uma cachacinha, se o encontrasse”, brinca Meno. 

Dico, o fictício, é real. Qualquer um pode se perder por amor. Por isso, tudo soa tão próximo. “Vou citar uma frase do (bisavô) Menotti: ‘não amar é sofrer; amar é sofrer mais’”, diz Meno. “Vivo atualmente em uma relação para a qual me entrego totalmente. Perdê-la, para mim, parece assustador. Amar é arriscado e, ao mesmo tempo, é o que mais queremos.” 

MENO DEL PICCHIA 

Festival de Inverno de Bragança. Arena do Largo do Taboão. Hoje (31), às 19h. Grátis. 

Centro Cultural São Paulo. R. Vergueiro, 1.000, Paraíso. Dia 25 (5ª), às 19h. Grátis. 

Mais conteúdo sobre:
Menotti Del Picchia Literatura Música

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.