Arquivo Estadão
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Memórias eternas vividas à mesa do Restaurante Plataforma

João Marcello Bôscoli escreve as lembranças de noites vividas em algum cantinho entre a mãe Elis Regina, o pai Ronaldo e Tom Jobim

João Marcello Bôscoli, Especial para o Estado

06 Dezembro 2014 | 16h00

Além de ter minhas primeiras memórias emocionais com o maestro e minha mãe - durante a gravação do álbum 'Elis & Tom' em Los Angeles (1974) -, presenciei dezenas de almoços com o Tom. Pura sorte. O "escritório" de meu pai Ronaldo Bôscoli era lá no restaurante Plataforma, no Leblon. A mesa coletiva atravessava o dia e a noite, aparentando uma vagabundagem incessante. Puro engano. Textos, ideias para letras, músicas, shows, programas e roteiros eram iniciados ou finalizados ali. Pareciam um efeito colateral do objetivo principal: bater papo. José Lewgoy, Grande Otelo, Jardel Filho, Boni, João Luis Albuquerque, Roniquito de Chevalier, Augusto Cesar Vanucci, Mieli, Dory e Danilo Caymmi. Escrevo com afeto e respeito o que vi e ouvi pessoalmente. 

Verão, restaurante lotado, duas e pouco da tarde, a mesa coletiva colada ao ar condicionado vertical. Três ou quatro conversas paralelas animadíssimas, lubrificadas por doses de cerveja e Steinhäger. Chega o Tom com um braço erguido no alto segurando um copo de whisky, caminhando calmamente entre as mesas e pessoas. Aos poucos, todos ao meu redor foram se calando, na espera do maestro finalmente chegar pra responder à nossa curiosidade:

- Tom... O que você está fazendo com esse copo de uísque levantado, parecendo a Estátua da Liberdade?

- Ô Bôscoli... É que o meu médico me mandou suspender a bebida...

A mesa quase caiu de rir.

Outra:

Ronaldo estava indo ao Canecão assistir a um show escrito e dirigido por ele e Miele.

- Tom, tô indo à estreia de uma nova temporada lá no Canecas. Vamos?

-  Pra ir ao meu show, cobro um cachê. Pra assistir ao show de alguém, quero dois cachês...

Mais uma:

Estava eu almoçando com o meu pai e o Jhosep - seu assistente e fiel escudeiro - devidamente vestido, aliás, uniformizado pela Jacksonmania: jaqueta vermelha, sapato penny loafer, meia branca evidenciada pela barra curta da calça jeans preta. Sim, o corte Jhery Curl "wet-look" entupido de gel também estava lá.

Tom passa por nossa mesa em direção à sua; para, me olha de cima a baixo e dispara:

- Ô Bôscoli... Seu filho gosta do Michael Jackson...

- Parece que sim.

- Eu levei anos pra ensinar meu filho a andar pra frente. Aí vem o Jackson e, em 3 minutos, ensina o menino a andar pra trás.

A última:

De vez em quando o Tom chegava com uma pequena marmita de alumínio guardando rãs já cozidas e temperadas, prontas pra serem comidas. E a brincadeira se repetia: a lista imaginária de razões pelas quais o Alberico Campana, dono do Plataforma, não vendia rãs e os protestos do maestro criavam muitas piadas. Em momentos assim, escutei ao vivo frases repetidas por ele ao longo da sua vida como "Sucesso no Brasil é ofensivo."; "Morar nos EUA é bom, mas é ruim; morar no Brasil é ruim mas é bom."; "O dia que o rock descobrir o quarto acorde vai ser uma festa.". E por aí vai. De todas, contudo, a mais querida foi dita direto pra mim: "Se a música brasileira tem a importância que creio ter, a Élis é mais do que a maior cantora do Brasil - é uma das maiores do mundo". Nesse dia, passei a ter uma percepção da dimensão do que somos e do que podemos ser. Aquela mesa do Plataforma vive na minha memória. E as memórias não envelhecem nunca. São eternas como Tom Jobim.

   

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