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Memórias de quando Nat King Cole esteve no Brasil

O pesquisador e escritor Zuza Homem de Mello escreve sobre o dia em que trabalhou com o cantor que faria 100 anos neste domingo, durante sua passagem pelo Brasil, em 1959

Zuza Homem de Mello, ESPECIAL PARA O ESTADO

17 de março de 2019 | 03h00

Por sugestão do Sr. Spencer, o português diretor técnico da TV Record, responsável por minha promoção como engenheiro de som no Teatro Record, mostrei com as duas mãos abertas em concha os três microfones que me pareciam adequados para o cantor de voz aveludada que encantava o mundo. Estava com Nat King Cole à minha frente. Com tarimba de conhecedor, provou cada um e escolheu o menos provável. Um sensível microfone bi-direcional de fita, marca B & O, que se não for usado com perfeição e na distância adequada provoca ‘pufs’ que incomodam. Exige perícia do cantor. 

Nat King Cole foi um mestre na arte de saber usar o microfone a seu favor, tal qual não muitos entre as centenas de cantores com quem trabalhei na TV Record: Dick Farney, Tito Madi, João Gilberto, Elizeth Cardoso, Elis Regina, Sarah Vaughan, Ella Fitzgerald, a exigente Yma Sumac e Peppino Di Capri, o primeiro a trazer equipamento próprio. 

Com casa superlotada durante a semana de Nat King Cole, em abril de 1959, não se ouviu um só puff no antigo Cine Teatro Paramount, depois Teatro Record Centro. Cantando sem qualquer afetação, sua voz saía macia como ovos nevados e sob absoluto controle de volume nos agudos, o oposto do potente dó de peito emitido por cantores da moda. Nunca em Nat King Cole.

Com seu timbre e fraseado ímpares, sempre enriquecia as canções, inclusive as medíocres como Pretend. Ao dar a impressão de sussurrar ao seu ouvido, expunha o domínio vocal que revertia numa delicadeza incomparável e equilibrada de suas convincentes interpretações em melodias aparentemente fáceis.

Nat ditou estilo de elegância. É de se lembrar que Hélio Ansaldo, o apresentador de seus espetáculos na TV Record, adotou, desde a segunda noite, finíssimas meias pretas de fio de Escócia como as de Nat. A borda horizontal de um centímetro no lenço branco aparecendo do bolso esquerdo do paletó combinava com o terno ligeiramente brilhante que envergava impecavelmente. King Cole era dono de um porte triunfal. Do fundo do palco caminhava aos poucos majestosamente, balançando ligeiramente os ombros e atacava St. Louis Blues sob uma ovação estonteante do público que teve o privilégio de assisti-lo e nunca mais esqueceu. Vinha com um sorriso branco de ponta a ponta em total contraste com o negrume de sua pele. João Gilberto dizia “Nat King Cole é azul”.

O público explodia novamente com Cachito e em exatos quinze segundos apresentava, depois do oitavo número, os músicos que trouxera, atacando com dicção irrepreensível o medley de duas canções românticas, Mona Lisa e Too Young. Durante a segunda, dirigia-se ao camarote mais próximo do palco para entregar uma flor à felizarda mocinha bem à sua frente. O público exultava de alegria. 

Uma das exigências contratuais recebidas com estranheza foi a de que Nat deveria ter à disposição um piano branco. Foi um corre-corre na inútil busca pela cidade e, afinal, a difícil decisão foi tomada: o piano de cauda da TV Record foi pintado de branco para que um dos maiores pianistas de jazz, antes de se celebrizar como cantor, pudesse tocar dois números em seu show. Na metade do espetáculo, Nat avançava para o piano, disposto enviesado para melhor ser visto pela assistência, e executava dois soberbos solos de piano, Tea for Two e Where or When ao lado de seu guitarrista John Collins e do baixista Charlie Harris, revivendo o King Cole Trio. Vinha à tona a lucidez de seu swing construído através da personalíssima arquitetura melódico-harmônica-rítmica da qual surge o estilo elegante e moderno que engrandeceu a formação de piano-trio no jazz.

Autumn Leaves, Stardust e Blue Gardênia antecediam seu 15º número, El Bodeguero, o maior êxito da vitoriosa incursão na música latina através de três discos de sucesso, um deles gravado no estúdio carioca da Odeon.

Gravou as doze músicas de A Mis Amigos numa só tarde e à noite deu show no Golden Room do Copa. Esse era o incansável Nat King Cole. Após a última música de cada espetáculo em São Paulo, Joe Turner’s Blues, ainda tinha fôlego para viver a movimentada noite paulistana sobretudo no bar do Hotel Claridge. Não escondendo admiração, ouvia Dick Farney e, lá pelas tantas, sob a ansiedade dos sortudos frequentadores, dava uma canja ao piano divertindo-se a valer antes de tomar o rumo do hotel onde Marie Ellington, sua esposa, o aguardava provavelmente no sétimo sono.

Na despedida, declarou que voltaria ao Brasil. Não deu. A foto dele, magro no hospital, me deixou chocado. Não era ele. Quando ouvi no rádio, chorei a morte de meu cantor predileto. A música de Nat King Cole continua viva.

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