Alex Silva|Estadão
Alex Silva|Estadão

Melodias suaves marcam novo disco de Edgard Scandurra e Silvia Tape

Em 'Est', dupla acerta a mão e fala sobre amor de forma serena

João Paulo Carvalho, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2015 | 05h00

Edgard Scandurra e Silvia Tape conversam calmamente na sala de estar do apartamento do guitarrista na Vila Madalena, zona oeste de São Paulo, em uma abafada tarde de quinta-feira. Um não atropela a vez do outro. O diálogo, de alguma forma, parece bem entrosado. Scandurra acende um cigarro, olha fixamente para a cantora paulista, nascida em Piracicaba, no interior de São Paulo, e chama sua atenção. “Olha, quase todas as letras deste novo disco pertencem a você.” Acanhada, Silvia demora a responder. Com as mãos cruzadas e um olhar longínquo, busca inspiração nos mais variados objetos espalhados pela casa para retribuir o inesperado elogio do parceiro. Pouco tempo depois de um silêncio prazeroso, retribui de maneira doce. “Mas as melodias são suas, Ed.”

O embrião de Est, novo trabalho de Edgard Scandurra e Silvia Tape, que chega nesta terça-feira, 24, às plataformas digitais e será lançado no formato físico no ano que vem, nasceu bem longe da frenética e barulhenta capital paulista. O músico do Ira! fez uma série de gravações lo-fi, só com a ajuda de um aplicativo de música, em casa, no sossego da Praia de Itamambuca, no litoral de São Paulo. “Essas harmonias não poderiam ter sido feitas aqui. Ouça só quanto ruído tem lá fora. Impossível. Gosto de morar nessa selva de pedra, mas, às vezes, precisamos de um respiro fora de tudo isso”, diz Scandurra. Ele aponta o dedo para a janela do apartamento e reclama do barulho dos carros. “Na época da Copa do Mundo, isso aqui ficou infernal. E quando tem música no último volume, então?”, brinca ele, que mora bem no coração do tradicional reduto boêmio.

O primeiro contato de Scandurra e Silvia ocorreu no Le Petit Trou, antigo bistrô do guitarrista. Foi no andar superior do local, laboratório de teste da nova cena independente da cidade, que eles se conheceram. A doçura da moça tocou os ouvidos e o coração de Scandurra. Ele viu ali a oportunidade de dar voz às suas composições mais recentes. “O timbre da Silvia é diferente de muitas coisas. Não tem relação com a fórmula das outras cantoras da MPB. Queria algo diferente e encontrei isso nela”, afirma.

Nome conhecido da cena underground, Silvia Tape foi baixista da banda Happy Cow, em Piracicaba, em meados dos anos 1990. Hoje, ela pertence à nova formação das Mercenárias. Silvia também lançou um EP com produção de Pipo Pegoraro e a participação de Júpiter Maçã. “Em Est, pude fazer algo diferente do habitual. Nessas composições, solto a voz e dou uma interpretação mais intensa para as canções”, comenta. Coincidência ou não, o elo entre Scandurra e Silvia Tape vem de outra época. Ele integrou As Mercenárias, na qual Silvia toca atualmente. Aos 53 anos, o paulistano ainda tem a cópia do primeiro compacto e mostra com entusiasmo o material para a reportagem do Estado. “Olha só este disco. Eu toquei bateria nas Mercenárias. Tinha um pouco mais de cabelo, claro, mas pode-se dizer que nossa relação vem de longa data”, brinca.

As 10 faixas de Est são guiadas pela simplicidade. Nenhuma delas é complexa ou traz projeções sonoras inovadoras. Em Num Instante Qualquer, por exemplo, Scandurra faz o mais longo solo de guitarra da sua carreira. A música é uma das poucas do disco em que ele assume os vocais. Os elementos eletrônicos, marcantes no imponente Benzina, de 1996, seu ótimo trabalho solo eletrônico, dão as caras em A Sua Intenção, que você pode ouvir com exclusividade no portal do Estado. “Algo bom precisa ser simples. Esse foi nosso intuito”, complementa.

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