Máquina 3
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Meio livro, meio música, Zé Manoel faz um belo relato histórico

O cancionismo de 'Do Meu Coração Nu', álbum do compositor e pianista pernambucano, tira as belezas de uma tristeza endêmica sentida não por um amor perdido, mas pela incapacidade de um país de voltar a se amar

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

05 de novembro de 2020 | 09h00

O sentimento de Zé Manoel é de tristeza. Suas canções são tristes, as letras são tristes e sua voz também é triste. Talvez por isso seu álbum tenha o nome de Do Meu Coração Nu, feito sobre um dos momentos mais tristes e isolacionistas de uma nação. Seu discurso não é de protesto, apesar de estar a todo tempo denunciando o racismo, mas de algo ainda mais demolidor do que a denúncia. É um passo adiante na fila das emoções. É como se, depois da revolta, só nos restasse a vontade de chorar.

Do Meu Coração Nu é seu segundo álbum, depois do belo e aglutinador Canção e Silêncio, de 2015, produzido por Carlos Eduardo Miranda, com trabalhos de estúdio de Kassin e arranjos de orquestra de Fabio Negroni, Mateus Alves e Letieres Leite. Seu disco de agora passa pelas visões do baiano de Juazeiro, Luisão Pereira, sobrinho do sambista baiano Ederaldo Gentil. Mas, como tudo na alma desse pianista pernambucano de Petrolina, nada segue as regras. Seu disco não tem sambas nem bossas. É um álbum de canções feitas com notas de um piano amoroso que respira, se ajeita, cresce e se retrai em arpejos cheios de tristeza. Não a tristeza de um amor perdido, o que domina as narrativas da poética brasileira desde sempre, mas uma espécie de depressão social pela perda da esperança na capacidade das pessoas em amar o próximo. E pela constatação da facilidade dessas mesmas pessoas em odiar o próximo, sobretudo se esse próximo tiver a pele preta.

Os lamentos de Zé Manoel são profundos e belíssimos. História Antiga é a letra feita com o pensamento mais puro, sem nenhum subterfúgio poético. A cena que ele viu quando entrevistaram a mulher do músico Evaldo dos Santos Rosa, de 51 anos, morto por soldados do Exército no Rio, por engano, ao ter seu carro alvejado por 80 tiros em 2019. “Eles levaram o meu marido e meu amigo.” Zé chorou muito nesse dia, e essa música traz esse lamento: “Fecho os olhos e me lembro de uma história que me dá vontade de chorar / Quanta vezes nossas lágrimas secaram / Mas no peito ainda havia dor e a gente se calou / Num país com armas apontadas / Políticas ultrapassadas / E olhares atravessados para nós / Houve um tempo em que a canção não impedia mais um jovem negro de morrer / Por conta da sua cor.”

Um canto para Oxum, No Rio das Lembranças, deixa por um instante a aura melancólica e alcança a festa de uma alegria delicada com a ajuda da percussão do Grupo Bongar. Escuta Beatriz Nascimento volta ao ponto do racismo, fazendo cama para a voz da historiadora Beatriz: “A história do Brasil foi uma história escrita por mãos brancas. Tanto o negro quanto o índio não têm sua história escrita ainda. E isso é um problema muito sério. A gente frequenta universidades e escolas que não têm uma visão correta de nosso passado, do negro. Além de ser omissa, essa história deforma muito a história do negro.” Como a sequência de uma suíte, Notre Historie, feita com o percussionista, baterista e produtor francês Stephane San Juan, vem em seguida. Um outro momento cheio de grandezas da alma. 

E ainda a próxima, Não Negue Ternura, com a voz de Luedji Luna, poderia estar no conceito de suíte por não romper com o que vem desde o início. “Nega, não nego ternura”, o refrão, é uma pérola de refestelar as trocações semânticas de Chico Cesar. E elas melhoram ainda mais com os versos da poeta pernambucana Isabella Puente de Andrade, a Bell Puã, que declama no prólogo de Prelúdio para Iluminar o Rolê. Vale a pena saber deste poema na íntegra e tentarmos, brancos, imaginarem o que é a uma mãe ou uma esposa viverem pensando que o filho ou o marido podem não voltar para casa pelo simples fato de terem nascido pretos: “Os dias têm sido quentes, mas é o frio na barriga que me corta ao saber que tu perambula por aí, por ali, por onde? Por ter cor da noite, o véu do suspeito.. Meu peito acende intranquilo. Será que acusado? Perseguido? Não esquece a identidade no bolso e nos cabelos. Sou só aperto. E orações, e orações, e orações pedindo que a bala perdida se perca de vez pra gente se encontrar. Teu retorno é macio, teu retorno é alívio. E quando chegar, não esquece de mandar mensagem. O céu convida e as ruas seduzes. Que as deusas te guardem.”

Aí, quando começa o brega Pra Iluminar o Rolê, o álbum já é um filme, a trilha sonora de uma ideia. E ela segue com Wake My Divine, uma balada jazz, cantada com a norte-americana Gabriela Riley. Escuta Letieres Leite tem uma fala poderosa do arranjador e compositor baiano Letieres falando primeiro que baião e chorinho são músicas de preto e, para o susto dos sectaristas, a bossa nova também. “Luiz Gonzaga é preto e toca música de preto... Bossa Nova, só porque é feita na Avenida Atlântica, ela é menos macumba? O piano de Tom Jobim, eu já passei no pente fino, é todo à base de toque oriundo de candomblé. Ele toca cabula, mas invertido, tira uma nota, tira outra, mas é afro-brasileiro.” E é assim, um pouco álbum de música, um pouco livro de poesia e um outra tanto livro de história escrita por vozes negras que Do Meu Coração Nu se torna uma das maiores preciosidades de 2020.

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