‘Mefistofele’ recupera o homem de teatro que foi Arrigo Boito

Montagem de Caetano Vilela, apresentada em festival de Belém, reforça o caráter entre o sacro e o profano da peça

João Luiz Sampaio, Especial para O Estado de S. Paulo

07 de agosto de 2014 | 02h00

BELÉM - Triste a sorte de Arrigo Boito. Na história da ópera, ele é o jovem arrogante, apressado em acusar Giuseppe Verdi de retrógrado ou o homem que, amadurecido, reconhece seu equívoco e fornece ao antigo rival o texto para duas de suas principais obras, Otello e Falstaff. Há espaço ainda para aqueles que o jogam no balaio dos autores italianos que, no fim do século 19, se renderam à influência, então tida como nefasta, do alemão Richard Wagner. Seja como for, Boito tem sua obra sempre relegada a segundo plano.

A edição deste ano do 13.º Festival do Teatro da Paz, em Belém, no entanto, acaba por resgatar sua figura. Na noite de terça, 5, subiu ao palco uma montagem, a primeira no Brasil em quase 50 anos, de seu Mefistofele; e, em setembro, a programação se encerra com o Otello que Verdi escreveu com base na sua adaptação da peça de Shakespeare.

Mefistofele é a adaptação de Boito para o Fausto de Goethe. Sua história é acidentada. Se outros compositores colocaram o foco, bem ao gosto da ópera romântica, na história de amor entre Fausto e Marguerite, Boito se propôs a voos mais altos, seguindo de perto o original. O resultado foi uma obra de mais de 5 horas, tão mal recebida que o autor a retirou do palco após a segunda apresentação. Nos anos seguintes, ele então se dedicaria a uma revisão da partitura, cortando praticamente metade do que havia escrito – e é essa a versão que, com a chancela do compositor, entrou para o repertório.

A questão é que, no afã de manter tudo aquilo que lhe parecia mais importante no original – não apenas a história de amor, mas também os desafios do pensamento e a busca de Fausto pelo ideal da beleza –, Boito acabou por compor uma ópera que, à primeira vista, parece fragmentada. Não é por acaso que se trata de uma ópera tão pouco encenada – e, em certo sentido, dirigir Mefistofele é, antes de mais nada, resolver problemas cênicos provocados pela aposta do compositor em uma troca vertiginosa de ambientes e propostas cênicas e musicais.

Na montagem de Caetano Vilela, no entanto, os fragmentos se revelam parte de um todo que resgata o homem de teatro que foi Boito. A oposição entre o ambiente medieval do prólogo com o uso da tecnologia na recriação do rio Peneu; o jogo com o teatro de marionetes; a evocação do pecado original como artífice de uma discussão entre o sacro e o profano; a religiosidade saturada de um final apoteótico – o diretor trabalha com uma profusão de ideias e signos que são apresentados e relidos sem que nada pareça excessivo ou fora do lugar, estabelecendo um discurso teatral que em momento algum abre mão da necessidade narrativa.

Musicalmente, a Sinfônica do Teatro da Paz teve bom desempenho. Na estreia, é possível fazer reparos ao tempo dramático da regência do maestro Miguel Campos Neto ou a certo desequilíbrio entre orquestra, coro e solistas. Mas o espetáculo é, de maneira geral, fluente e a grande qualidade da direção musical é dar espaço aos cantores – o que é particularmente efetivo quando se tem em cena intérpretes do nível da soprano Adriane Queiroz (Marguerite), do baixo Denis Sedov (Mefistofele), do tenor Fernando Portari (Fausto) ou da meio-soprano Céline Imbert, em participação especial. O deuto Lontano, Lontano, entre soprano e tenor, ou a ária Eu Sou o Espírito Que Nega, de Mefistofele, são testemunhos dessa qualidade – e da maturidade dos artistas envolvidos na produção, que merecia vida mais longa em outros teatros do País.

BELÉM - Homenagear Arrigo Boito (1842-1918) não foi uma decisão deliberada da parte da direção artística do Festival do Teatro da Paz, a cargo de Gilberto Chaves e Mauro Wrona. A ideia, eles explicam, foi, de um lado, trazer ao palco um título-chave do repertório que há muito não se fazia no Brasil – Mefistofele, de Boito – e, de outro, relembrar os 450 anos de Shakespeare com aquela que é uma das mais bem acabadas versões para o mundo da ópera de uma de suas peças: o Otello, de Verdi.

Mefistofele tem récitas até o fim de semana e, na sequência, os corpos estáveis começam a trabalhar na preparação de Otello. Mas, nos dias 22 e 23 de agosto, o festival também vai apresentar um espetáculo dedicado ao compositor norte-americano George Gershwin (1898- 1937): na primeira parte, estará o balé Um Americano em Paris e, na segunda, a pouco conhecida ópera Blue Monday, que estreou nos Estados Unidos em 1927 e cuja trama se desenrola no Harlem, em Nova York. 

A direção será de Glaucivan Gurgel e, no elenco, estão o tenor Jean William, a soprano Marly Montoni, o barítono David Marcondes e o baixo Raimundo Nascimento, entre outros. Miguel Campos Neto rege o espetáculo, à frente da Orquestra Jovem Vale Música. A programação conta ainda com recitais, em especial o do tenor paraense Atalla Ayan, no dia 24 de agosto.

Otello terá direção cênica de Wrona e regência e direção musical de Silvio Viegas, maestro do Teatro Municipal do Rio que, em 2013, comandou apresentações, em Belém, de outro Verdi: Il Trovatore

Para Wrona, um dos aspectos mais importantes do festival é a diversidade estética das montagens. Seu Otello, explica, de corte mais tradicional, vai trabalhar com o conceito de um espaço cênico que diminui à medida que o personagem se enreda cada vez mais em seu ciúme, provocado pela trama de Iago. 

O personagem título será vivido pelo tenor italiano Walter Fraccaro, a soprano brasileira Gabriella Rossi será Desdêmona, o barítono Rodrigo Esteves, Iago, o baixo Sávio Sperandio, Lodovico, e a meio-soprano Ana Victoria Pitts, Emilia. As récitas estão marcadas para os dias 20, 22 e 24 de setembro. / J.L.S.

O repórter viajou a convite do festival.

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