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Medalhões da MPB viveram entressafra de produção em 2014

Gil e Bethânia foram exceção em ano de recolhimento e preparação

Julio Maria, O Estado de S. Paulo

25 Dezembro 2014 | 18h14

Dentre os medalhões da MPB, poucos produziram material novo em 2015. Gilberto Gil foi uma das poucas exceções. Ele saiu de casa com um violão debaixo do braço para fazer uma das mais belas homenagens que João Gilberto já recebeu. Isso porque Gil não tentou apenas homenagear João, mas recriá-lo. E recriou, assim, o próprio Gil. O show que levou duas vezes ao teatro Net, em são Paulo, rendeu uma experiência curiosa aos seus fãs. Quem estava ali era um artista criado no ato da apresentação, algo que ficava entre as harmonias intrincadas do baiano de Juazeiro e o violão erudito do baiano de Salvador. Foi um momento iluminado que colocou o disco Gilbertos Samba entre os melhores do ano.

Seu contemporâneo de mesma idade, 72 anos, Paulinho da Viola, fez diferente. Ele também saiu de casa com o violão debaixo do braço, mas mergulhado em si mesmo, revendo a própria carreira. Começou a contar sua história sentado sozinho no palco do HSBC Brasil, tocando e cantando os versos autobiográficos do samba 14 anos, época em que via Jacob do Bandolim afinar o instrumento na sala de sua casa olhando para ele com um prazer silencioso que dizia "está ouvindo, garoto, como o som está ficando bom?". Refez Coisas do Mundo, Minha Nega, Dança da Solidão, Argumento, Bebadosamba, Coração Leviano, De muitas, contava uma história e ganhava aplausos. Imortalizava a noite lançando mão apenas do passado que havia nele. Agora, em 2015, prepara frentes que incluem documentário e apresentações na Europa ainda sobre seus 50 anos de carreira, pilotados pela produtora Marlene Mattos.

Caetano Veloso curtiu um quase recesso depois de girar com o repertório de seu disco Abraçaço. Sua única quebra de silêncio em estúdio se deu com o convite para estrear a série de álbuns de digitais iTunes session. O conceito de oito faixas gravadas ao vivo e em estúdio fez Caetano pinçar canções de várias fases de sua carreira, como Samba da Cabeça (1978), Lost in the paradise (1969), Cu-cu-ru-cu-cu Paloma (gravada por ele em 1994) e 13 de maio (2000). Depois da ressaca pelo envolvimento no grupo Procure Saber, da ex-mulher Paula Lavigne, o músico pediu para ser desligado do jornal O Globo, onde escrevia uma coluna semanal, e deu poucas entrevistas.

Seu amigo Chico Buarque só saiu da toca no final do ano. E, mesmo assim, rejeitando convites para dar entrevistas sobre seu livro O Irmão Alemão. Para escrevê-lo, ficou uma longa temporada na casa que tem em Paris, na Ile de Saint Louis. Seu silêncio, mesmo diante de um novo livro, também pode estar ligado ao desgaste sofrido com as polêmicas associadas do grupo Procure Saber, que posicionou-se contrário à publicação de biografias não autorizadas. Sua música, no entanto, chegou às lojas sem que ele movesse um músculo. Em junho, um box preparado pela gravadora Universal trouxe 22 discos e um CD triplo de raridades, recolocando o acervo de Chico nas prateleiras.

Gal Costa viveu também uma entressafra em 2014. Saiu de uma temporada do belo Recanto, ousado e experimental, dirigido por Caetano Veloso, para curtir um ano de preparação para seu próximo de inéditas, a ser lançado em 2015. Vai fazer também para o ano que vem um disco só com músicas de Lupicínio Rodrigues, patrocinado pela empresa Natura. E Maria Bethânia refletiu em seu disco novo, Meus Quintais, um estado de espírito sereno e de perdas. Uma sequência rápida de mortes à sua volta levou a irmã Nicinha em 2011, a mãe Canô em 2012 e o parceiro e diretor de teatro Fauzi Arap, em 2013.

 DESTAQUES DO ANO

1. Gil canta Você e Eu

2. Paulinho da Viola fala dos 50 anos de carreira à TV Estadão

3. Caetano Veloso canta A Bossa Nova é Foda

4. Gal Costa fez shows até o início do ano de Recanto, de 2013

5. Maria Bethania veio melancólia e suave com o belo álbum Meus Quintais

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