Maurício Pereira faz homenagem a Adoniran

Ninguém conhece melhor que Maurício Pereira as canções que todo mundo um dia já assobiou. Seu novo show, Canções que um dia você já assobiou, parece ter sido imaginado por um lunático de gênio cantarolando no chuveiro e que de repente resolve continuar cantarolando num palco. O resultado é absolutamente irresistível. Canções que um dia você já assobiou é como uma hilariante coletânea de música pop que mostra com perfeição até que ponto Lamartine Babo, Keith Richards e Herb Alpert sempre fizeram parte de um mesmo universo. Para Maurício Pereira, bem mais que um estilo, o pop é um ponto de vista: enquanto todo mundo adora se queixar que a música pop é um caso irrecuperável da mais vulgar superficialidade, Maurício Pereira sabe que essa superficialidade é justamente seu maior encanto. Por isso, ele faz questão de ir até o fundo de cada canção só para conferir se por acaso não existe arte no que costuma soar tão descartável. Maurício Pereira nunca descarta nada. Canções que um dia você assobiou é um show sem vergonha de ser alegre: sua arte é a euforia. Que todos se divertem muito fica gloriosamente evidente o tempo todo - seja com sua interpretação de O Amor e o Poder, Mestre Jonas e Comunicação ou com os backing vocals que acompanham tanto a impagável Férias na Índia quanto sua versão do Zodiac de Donna Summer. Mas mesmo em seus momentos mais divertidos, Maurício Pereira nunca se esquece - como o excepcional músico que é - de ouvir os Titãs antecipados pelos Incríveis que cantavam Era um garoto que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones e de vislumbrar o caminho que leva de Namoradinha de um Amigo Meu até Aos pés da Santa Cruz. A banda que o acompanha não é nunca menos que memorável: Maurício Pereira escolhe seus músicos com a mesma perfeição com que escolhe suas músicas. A bateria de Carneiro Sândalo dá a impressão de revestir cada compasso como se estivesse embalando uma caixa de petit fours para presente; Luiz Waack continua tocando sua guitarra com a delicadeza e a alegria de um mandarim em transe; Reinaldo Chulapa, sempre impecável, é uma presença maciça no palco e maciça em cada nota de seu baixo; Roberto Gastaldi muitas vezes se dá ao luxo de usar o trompete como quem usa aspas; e Daniel Szafran sempre parece extrair de seus teclados bem mais que um conjunto enfeitiçado de acordes: é a partir de seus gestos e seus olhares que muitas vezes todos se guiam. É uma referência invejável. Seu show deve continuar por mais um bom tempo todas as sextas feiras no restaurante Grazie a Dio! - um lugar cujo bom gosto para música só é comparável à surpreendente qualidade de seus pratos. O show de hoje à noite, entretanto, vai contar com uma apresentação especial em homenagem aos vinte anos da morte de Adoniran Barbosa - um compositor que, como Maurício Pereira gosta de definir, foi o primeiro a cantar certo o errado. A participação de Skowa e do sempre inigualável André Abujamra na homenagem de hoje deve tornar tudo ainda mais especial - principalmente para todos que insistem em se lembrar dos tempos de Os Mulheres Negras, quando Maurício Pereira e André Abujamra formaram uma das mais explosivas e adoráveis duplas da história recente de nossa música. Se Maurício Pereira fizer com Adoniran Barbosa um décimo do que fez com Paolo Conte ou com sua interpretação de A Lua e Eu, por exemplo, vai ser impossível esquecer o show desta noite. Afinal, é bem provável que Adoniran Barbosa tenha cantado certo o errado. Maurício Pereira, André Abujamra e Skowa há muito tempo descobriram uma forma pessoal e única de cantarem certo o certo. Maurício Pereira e a banda Turbilhão de Ritmos - Show em homenagem a Adoniran Barbosa. Na ocasião será lançado o livro Adoniran: Dá Licença de Contar, de Ayrton Mugnaini Jr. Grazie a Dio! Rua Girassol, 67. Tel.:3031-6568. Hoje, a partir das 19h. R$ 7,00 (couvert artístico)

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.