Matisyahu estréia no País no Festival de Verão de Salvador

Em setembro, o rapper Adam Yauch, o MCA, integrante do pioneiro grupo de hip-hop Beastie Boys, reagiu ironicamente à pergunta sobre sua opinião a respeito do jovem astro Matisyahu, o "rabino da rima". Os Beastie Boys são de ascendência judaica. "O que eu acho? Mazel Tov (boa sorte em hebraico)!", brincou MCA. E emendou: "Acho que é um cara talentoso. Mas nosso hip-hop nunca pretendeu ser judaico. Nós não somos religiosos." Matisyahu, no entanto, faz questão de ressaltar sua religiosidade, não só na música como na postura pública. Nesta quarta-feira, num cenário tórrido e completamente pagão, o Festival de Verão de Salvador, Mati faz sua estréia em terras brasileiras. Apresenta o disco Youth, que foi indicado para o Grammy na categoria reggae. Matisyahu, cujo nome de batismo é Matthew Miller, tem 27 anos e sua música é ancorada no reggae, no hip-hop e no dancehall. Depois de Salvador, ele toca no Rio de Janeiro (dia 28), Porto Alegre (dia 30, no Pepsi on Stage) e São Paulo (dia 31, na Hebraica). O roteiro é determinado pela crença do cantor, que não se apresenta nos dias sagrados para os judeus (nunca aos sábados, por exemplo), e ele jamais pode ter contato com mulheres ou ficar sozinho com uma delas. Mati pode ser visto apenas como uma avis rara, mas não se pode negar sua coragem. Gravou Message in a Bottle, do Police, com a cozinha mais cobiçada do reggae, Sly & Robbie, mas também conduziu essa força rítmica para um hino ortodoxo, Jerusalem (Out of Darkness Comes Light). O mais bacana é que não causa aquela desconfiança típica que se tem quando a gente vê um desses roqueiros gospel tentando misturar um arcabouço de hard rock com versos de louvação ao Senhor. "Recentemente, eu li uma entrevista que Bob Marley deu à revista Beat. Alguém perguntou a ele sobre política, e ele disse: ?Não sou esquerda, não sou direita, estou no centro. Sou pelo certo. Eu também não me ligo em política. Sou religioso, e minha perspectiva é muito orientada pelo Velho Testamento. Mas, ao mesmo tempo, sou um tipo de rebelde, de revolucionário. Tenho elementos distintos em mim. Acho que minha vontade é romper essas fronteiras e estereótipos e dizer: Você pode ser religioso, você pode ter uma família. Levo minha mulher e meu filho para a estrada comigo. Você pode ser religioso e viver num ônibus com sua mulher e seu filho e, tipo, seis pessoas não religiosas e não judias, fazendo shows toda noite. E não haver contradição nisso. Pode funcionar. O que quer que uma pessoa queira, se ela puser sua energia nisso, não haverá portas fechadas.?" Vestindo ou quipá ou chapéu e roupas pretas, Mati toca acompanhado de cinco músicos, e seu reggae é de fato contagioso, o que pode facilitar sua tarefa no palco do Parque de Exposições de Salvador, terra dominada pelas cantoras de axé music. Ele vê similaridades entre o judaísmo ortodoxo e o rastafarianismo. "Acho que o ponto de contato são as Escrituras. As duas religiões têm inspiração nas Escrituras, essa é a interseção comum. Vejo também que os artistas do reggae têm idéias espirituais, tentam transmitir às novas gerações uma mensagem, conceitos, uma bênção, paz e unidade, levando isso a gente do mundo todo. Admiro os artistas que se relacionam com o sagrado com diferentes meios e em diferentes épocas da História. Sou abençoado em poder transmitir uma sabedoria e palavras do Velho Testamento para a música."

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.