Matisyahu é judeu ortodoxo e astro do hip-hop

Eis aqui um astro do hip-hop que é melhor as fãs não tentarem apalpar. Não porque ele não goste, mas é que sua religião não permite. Trata-se do rapper norte-americano Matisyahu, novo e controverso personagem da cena pop, um MC de rima & de dub que usa quipá, ou chapéu e roupas pretas, e professa o judaísmo ortodoxo.O nome Matisyahu é o equivalente hebreu para Matheus, Matthew, Mateus. Matisyahu, ex-Matthew Miller, está a caminho do Brasil - apresenta-se em Salvador (dia 24), Rio (dia 28), Porto Alegre (dia 30, no Pepsi on Stage) e São Paulo (dia 31, na Hebraica). E ele acaba de ser indicado para o Grammy pelo disco Youth, na categoria melhor disco de reggae (o Grammy será entregue no dia 11, no Staples Center de Los Angeles). No disco, além de fazer rap sobre as glórias do judaísmo com batidas de reggae e dancehall, ele também surpreende com uma cover de Message in a Bottle, do Police. Anteontem, Mati, de 27 anos, deu entrevista por telefone ao Estado. Vem com banda de 5 músicos.Você faz reggae, o ritmo que Bob Marley imortalizou. Ele era rastafári, você é judeu ortodoxo. Que ponto de contato você vê entre rastafarianismo e judaísmo?Acho que o ponto de contato são as Escrituras. As duas religiões têm inspiração nas Escrituras, essa é a interseção comum. Vejo também que os artistas do reggae têm idéias espirituais, tentam transmitir às novas gerações uma mensagem, conceitos, uma bênção, paz e unidade, levando isso a gente do mundo todo. Admiro os artistas que se relacionam com o sagrado com diferentes meios e em diferentes épocas da História. Sou abençoado em poder transmitir uma sabedoria e palavras do Velho Testamento para a música.Como um músico extremamente religioso, há coisas que você não pode fazer quando está em turnê?Sim. Tenho de respeitar tudo em termos de comida. Não podemos tocar aos sábados, não podemos tocar, ter contato ou ficar sozinhos com uma mulher (Matisyahu costumava fazer stage diving, mergulho do palco em direção à platéia, mas por conta da observância no não contato com mulheres, parou com a prática).Isso não dificulta a vida, quando você está numa banda que não tem outros judeus ortodoxos?Na banda, há alguns judeus. Mas não é difícil. É a mesma dificuldade que temos em viver num mundo que não é religioso. Os caras da banda não são religiosos, mas são respeitosos, têm espiritualidade.É bem aceito em toda comunidade judaica? Nunca há polêmica?Sim, há alguma controvérsia. Tem algumas comunidades que pensam que eu ando no limite, que estou prestes a ultrapassar alguma fronteira. Reagem mal.Você começou fazendo rap nas comunidades judaicas. Mas agora está famoso, conhecido no mundo todo. Não tem medo de que sua vida mude drasticamente?Não tenho medo. Não se pode viver com medo daquilo que possa acontecer no futuro. Você deve ter uma convicção forte, e manter-se sereno para que outras coisas não afetem aquilo que você sabe.O que pensa da intervenção americana no Iraque?Basicamente, eu acho que é um equívoco muito grande. Os americanos estão descobrindo que o american dream, o american way of life não é algo que funcione no mundo todo. Que no mundo muçulmano, no mundo árabe, a mentalidade é diferente, e aquelas pessoas não querem se tornar americanas, não querem pensar como americanos. E não é possível obrigá-las.

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