Mascarados ganham espaço na música e expõem paradoxos da fama

Daft Punk, Slipknot e Ghost B.C. são alguns bons exemplos

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

20 Junho 2014 | 02h00

A máscara finalmente chegou ao mainstream com a subida do Daft Punk ao centro do espetáculo do Grammy em janeiro deste ano. Com os elmos tecnológicos do Daft Punk, a fama do anonimato deliberado entrou em evidência - um paradoxo que sustenta alguns dos bons nomes da esfera do pop e do rock da atualidade.

Dois dos maiores atos da nova geração do heavy metal tocam incógnitos, com seus rostos mascarados. É o caso dos infernais Slipknot e Ghost B.C., que vieram recentemente ao Rock in Rio. O primeiro teatraliza a cultura da violência pirotécnica dos filmes B de Hollywood, e o segundo se joga numa cruzada contra alguns dos maiores símbolos do catolicismo, como o próprio papa.

Em abril, no Lollapalooza Festival, um tsunami sonoro chamou a atenção na tenda eletrônica (embora se tratasse de um projeto orgânico, com uma banda tocando ao vivo). Tratava-se do Bloody Beetroots, do italiano Cornelius Rifo, um grupo que parece saído de um filme da Marvel Comics. A face verdadeira de Riffo é mantida longe de fotógrafos por um pequeno contingente de produtores e seguranças (flagrado nos bastidores com Iggor Cavalera, ele cobriu o rosto rapidamente; o mistério é a chave do negócio).

Cornelius tem modos de dândi, mas vira um possesso quando sobe no palco. Dá saltos extraordinários por sobre os instrumentos, pilotando uma banda toda de preto com máscaras com olhos que acendem. Um luminoso de taberna no alto do palco pisca como se fosse de Hell’s Kitchen, há luzes hipnóticas brancas e vermelhas e iluminação cadavérica vinda do chão. Mas o som também acompanha o visual: há os computadores e bate-estacas, claro, mas também violões e piano de cauda. Punk rock orquestral, banhado em dubstep e disco music.

"Quando você imprime uma marca forte, sua música passa a ser aceita pela sua própria personalidade”, disse ao Estado Guy Manoel de Homem-Christo, uma das metades da dupla Daft Punk. Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem-Christo, que formam o Daft Punk, apresentam-se com capacetes robóticos desde que criaram a banda em Paris, em 1993. Surgiram no meio de uma onda de progressive dance francesa, que teve como expoentes o Motorbass, o Air, Cassius e Dimitri from Paris. E influenciaram meio mundo.

A música eletrônica gostou do efeito, e começaram a surgir as figurinhas decalcadas da cultura pop, como o Bloody Beetroots, ligado às HQs. Eles se vestem como Venom, um inimigo mutante do Homem-Aranha. "Não importa quão grande você possa ser, o que importa é comunicar às pessoas. Não me importo de ser indie, não me importo de ser mainstream, desde que minha comunicação não mude. Eu amo me expressar artisticamente, então não importa se é para muitos ou para poucos. Às vezes, as pessoas se esquecem que a música é o centro. É esse meu propósito, é a música. Se ela me representa 100%, então OK", disse ao Estado o músico Cornelius Rifo, o dono da banda-projeto Bloody Beetroots.

O impacto visual ganha seguidores. No último dia 14, no pequeno Clash Club, em São Paulo, marcou presença o DJ mascarado Digitalchord, brasileiro que vem ganhando espaço nas pistas com seu capacete e sua identidade desconhecida. Segundo seus assessores, ele teve discos lançados pelas gravadoras Perfecto de Paul Oakenfold, e Armada, de Armin Van Buuren.

O vocalista do grupo Ghost B.C., da Suécia, que usa artisticamente o nome Papa Emeritus II e do qual pouca gente conhece a face, falou com exclusividade ao Estado durante o último Rock in Rio sobre o uso das máscaras. À moda do Chacrinha, para confundir mais do que para explicar, ele se vestiu como um dos demais músicos de sua banda, chamados todos de Nameless Ghouls.

"Acho que posso dizer que esse conceito está em crescimento constante. Nós tivemos sorte, no sentido de que não sabíamos ao certo onde estávamos nos metendo alguns anos atrás, quando a banda começou a ter reconhecimento. Nós só queríamos uma banda sem rosto, que refletisse como nós gostaríamos de ver a nós mesmos", explicou Papa Emeritus The Second. "É claro que paramos um momento para pensar qual resultado pretendíamos com isso, e se deveríamos deixar que se tornasse cada vez maior. Mas agora nós temos consciência que estamos evoluindo, caminhando rumo ao reconhecimento, ficando grandes e nos dando conta do que está acima da superfície. E isso fez com que compreendêssemos que a fama é propícia ao anonimato. É claro que entendemos que é uma tarefa quase impossível. Você não consegue se manter anônimo, então o que fazemos é manter as máscaras. É claro que todo mundo sabe quem é Darth Vader. Mas você sabe quem é David Prowse. Você pode ir no Google e ver o rosto dele. Mas a imagem de Darth Vader permanece forte", analisou o vocalista e compositor.

Em 2004, quando de sua primeira visita ao Brasil, James Jim Root, do Slipknot, também teorizou sobre sua opção pela abordagem mascarada. "Mascarado, eu posso expressar-me de um jeito que jamais poderia de outra maneira", explicou James, que salienta não saber até quando vão sustentar essa vida de heróis populares sem rosto. "Nada é para sempre. As máscaras são para a performance, dão um pique maior, mais ação. Mas as coisas simplesmente acontecem assim e não dá para garantir que vai permanecer assim", afirma ainda.

Há 13 anos, Pavilhão 9 se mostrava

Em janeiro de 2001, após 10 anos cantando mascarado, o cantor Rho$$i, da banda de hip-hop paulistana Pavilhão 9, compareceu a uma entrevista coletiva no Rio de Janeiro de cara limpa. 

"Chega de hipocrisia, não tenho mais medo de falar o que tenho a dizer", afirmou o MC. Doze, outro vocalista do grupo, que costumava camuflar o rosto com pinturas militares, lavou o rosto e também foi de cara limpa. Era um momento histórico para o grupo, um dos mais políticos da segunda fase do hip-hop nacional, nos anos 1990. Eles se apresentaram no Rock in Rio sem máscaras.

As "fantasias", por assim dizer, do Pavilhão 9 foram usadas mais por precaução do que para criar um efeito. Formado no bairro do Grajaú, na época, por Rho$$i e Doze (vocais), Piveti e Camburão, o grupo fez um primeiro disco, em 1992, muito polêmico. Primeiro Ato trazia, entre outras, a faixa Otários Fardados, que provocou ameaças de policiais. Eles temiam represálias, segundo contam em seu site oficial.

Rho$$i contou também que o grupo teve problemas até para encontrar local para tocar e "recebeu diversas portas na cara". "O pessoal pensava que a gente ia quebrar tudo, quando nosso som não tem nada a ver com violência e, sim, com consciência", explica também.

Uma das últimas grandes apresentações do Pavilhão 9 foi no Lollapalooza Festival de 2012, onde chegou após cinco anos sem fazer shows.

Cobrir o rosto como proteção também motivou outros grupos pelo mundo, como o coletivo russo Pussy Riot, que usava máscaras de esqui até que as garotas foram presas e julgadas em 2012 sob acusação de “vandalismo motivado por ódio religioso".

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