Acervo Estadão
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Martha Herr viveu uma vida em defesa do canto e da nova música

Soprano interpretou no palco o papel de Olga Benário e estreou mais de cem obras, incluindo diversas peças de autores brasileiros

João Luiz Sampaio, ESPECIAL PARA O ESTADO

01 Novembro 2015 | 21h11

No panorama diverso da música clássica e da ópera brasileiras, há algumas figuras que, com seu trabalho e generosidade, são capazes de ultrapassar barreiras e se transformar em referência incontornável para gerações de artistas das mais diferentes orientações. Foi este o caso da soprano Martha Herr, que morreu neste domingo, 1, aos 63 anos, em São Paulo, após uma luta contra o câncer. Associada particularmente à criação contemporânea, ela não aceitou limites. E sua carreira foi, acima de tudo, um tributo às possibilidades expressivas de seu instrumento, a voz, e à atividade pedagógica.

Martha Herr nasceu nos Estados Unidos, onde estudou nas universidades de Nova York e Michigan. Após mudar-se para o Brasil, tornou-se professora da Unesp, onde dirigia o grupo de pesquisa Expressão Vocal na Performance Musical. Sua atividade docente não se limitou, porém, à universidade. Além de orientar alunos, ela desenvolveu trabalho importante com a música coral, trabalhando no aperfeiçoamento de grupos como o Coral do Amazonas.

No palco, Martha Herr realizou a estreia de mais de cem obras, incluindo na lista diversas peças de autores brasileiros, além de compositores como o norte-americano John Cage. No mundo da ópera, além de participar de montagens de autores barrocos, como Purcell, e da primeira produção brasileira do Anel do Nibelungo, de Richard Wagner, em Manaus (onde interpretou também uma inesquecível versão do Pierrot Lunaire, de Schoenberg), participou da estreia mundial de cinco obras. O destaque foi a criação do papel de Olga Benário, na Olga de Jorge Antunes, estreada em 2006 no Teatro Municipal de São Paulo.

Mozart, Rossini, Schumann, Villa-Lobos: a lista de compositores que interpretou em concertos e recitais atesta a diversidade de seu repertório. Em 2008, comemorando 30 anos de carreira, cantou Britten com a Ocam, sob regência do maestro Gil Jardim. Sua trajetória nos palcos lhe rendeu o Prêmio Carlos Gomes (1998) e o Prêmio da APCA (1990).

O trabalho com a música brasileira foi um dos pilares de sua atuação, do repertório colonial à produção atual. E não apenas no palco: em 2007, ela publicou as Normas para a Pronúncia do Português Brasileiro no Canto Erudito, resultado de anos de pesquisa e atividade musical. Da mesma forma, seu texto O Canto Que Não É Canto, A Palavra que Não é Palavra, publicado em Arte e Cultura: Estudos Interdisciplinares II, segue como referência na bibliografia em português sobre a relação entre texto e música no século 20.

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