Marsalis ilustra a história do jazz

Parafraseando o poeta mexicano Octavio Paz, Wynton Marsalis é o último castelo da pureza de nossa época. O jazzista mais conceituado da atualidade - e também o mais refratário às idéias de música pop e fusões musicais - está chegando de novo ao Brasil para apresentações inéditas com a Lincoln Center Jazz Orchestra no Teatro Municipal de São Paulo, nos dias 22 e 23 de novembro."Devo montar um repertório que abranja de alguma maneira a história do jazz, com peças como "Body & Soul", por exemplo, entre composições próprias", afirmou o trompetista, em entrevista exclusiva à AGÊNCIA ESTADO, por telefonte, de seu escritório no Lincoln Center - ele é o diretor do Jazz at Lincoln Center, instituição de ensino, formação e pesquisas musicais."Além de músicas minhas, tocaremos composições de integrantes da orquestra e peças de Duke Ellington, Count Basie, Thelonious Monk e outros, além de Louis Armstrong, como parte das celebrações do centenário do músico", disse.Aos 39 anos, Marsalis desembarca no Brasil com um conjunto com 14 integrantes, boa parte desconhecida, mas também com muitos emergentes festejados do jazz. São eles: Seneca Black Ryan Kisor, Marcus Printup (trompetistas), Wycliffe Gordon, André Hayward, Ron Westray (trombonistas), Wess "Warmdaddy" Anderson, Walter Blanding Jr., Victor Goines, Ted Nash, Joe Temperley (saxofonistas), Farid Barron (pianista), Rodney Whitaker (baixista) e Herlin Riley (baterista).Um dos mais ovacionados desse conjunto é justamente o caçula, o também trompetista Seneca Black, de 22 anos. "Eu o conheci ainda no ginásio e pode-se dizer que é um amigo de longa data", disse Marsalis. Seneca Black, nascido em 15 de abril de 1978, começou a relacionar-se com Marsalis aos 14 anos, quando foi descoberto estudando trompete na New World School of the Arts, em Miami. Inicialmente, foi o trompetista Lew Soloff quem o levou a Nova York, para estudar na The Manhattan School of Music. Na cidade, ele tocou com a Afro-Cuban Jazz Orchestra de Chico O´Farrill e com a Manhattan Jazz Orchestra e acabou sendo cooptado por Marsalis."Nós temos instrumentistas que vieram do Harlem, Cleveland e Escócia", diz Marsalis. "Eu não acredito que haja um local específico para o desenvolvimento do jazz, isso não existe", ele pondera. É possível então levar a sério o jazz à brasileira? "Evidentemente que sim, vocês têm jazzistas extraordinários aí, como o meu amigo Guga Stroeter, da orquestra Heartbreakers - ele é um músico excepcional de jazz", afirma.As atividades educacionais do Jazz at Lincoln Center estão no centro das intenções que envolvem a turnê da orquestra fora do País, explica Marsalis. A partir deste mês, o conjunto estará na estrada passando pela Alemanha (Braunschweig), Praga (República Checa), Viena e Salzburg (Áustria). Depois, virão a São Paulo e Buenos Aires.A educação pelo via do jazz é a principal atividade do Jazz at Lincoln Center. A instituição liderada por Marsalis e por Rob Gibson promoverá mais de 450 apresentações, eventos e transmissões para a TV durante o período entre 2000 e 2001. Ao mesmo tempo, Marsalis acaba de realizar um feito extra: conseguiu que fosse aprovada a construção de uma nova sede para seu instituto, o Frederick P. Rose Hall, o primeiro centro educacional de jazz de porte nos Estados Unidos, que deverá ser inaugurado em 2003."A idéia é ajudar crianças a escapar de um destino inevitável, dar-lhes educação e apoio", diz o trompetista. "Não só ajudá-los a crescer como profissionais, mas também como pessoas, seres humanos", afirma.Por conta de divergências de natureza artística, ele mantém relações tensas até com a própria família - o irmão Branford Marsalis é o que mantém os mais freqüentes embates, pelo trânsito que tem no mundo pop. "Nada aconteceria se um músico da minha orquestra montasse uma banda de hip-hop, essa é uma decisão pessoal, eu não teria nada a dizer a respeito disso", ele afirma. Não ficaria nem chateado. "Claro que ficaria, afinal de contas eu estaria perdendo um músico", diz Marsalis, secamente.Wynton Marsalis gravou seu primeiro disco em 1981, quando tinha então 20 anos, pela Columbia. No disco, que levava seu nome, era acompanhado pelo irmão saxofonista Branford, além dos pianistas Herbie Hancock e Kenny Kirkland, os baixistas Ron Carter, Charles Fambrough e Clarence Seay e os bateristas Jeff Watts e Tony Williams. O disco mais recente é "The Marciac Suite", também pela Columbia."Entre um disco e outro, minha carreira passou por muitas transições, algumas mudanças, e é claro que eu mudei muito, estou tocando melhor, estou mais seguro", diz o trompetista. "Mas os princípios filosóficos continuam basicamente os mesmos - embora eu não seja o mesmo", pondera ele.Entre um disco e outro, por exemplo, ele gravou (em 1997) a ópera "Blood in the Fields", um megaprojeto jazzístico que lhe rendeu o prêmio Pulitzer e o colocou num lugar de rara celebridade entre os músicos do gênero - só Duke Ellington e Charles Mingus chegaram tão longe no reconhecimento público, fora das fronteiras musicais."Não concordo com o fato de que ter ganho o Pulitzer tenha aumentado minha responsabilidade", afirma. "Pessoalmente isso só faz com que eu continue tocando seriamente, mas o prêmio atrai atenções para a música e isso é sua maior contribuição", analisa.Uma das coisas de que Marsalis evidentemente não gosta de falar é sobre a idéia de que seja hoje um homem rico. No fim de 1999, ele lançou cerca de 20 horas de música em 15 CDs, uma série intitulada "Swinging into the 21st", da Columbia Records. Até então, acreditava-se que ele estava ganhando US$ 1 milhão por disco que fazia, mas um colunista do "New York Times", Peter Watrous, escreveu que ele fez "concessões" e levou "somente" US$ 100 mil por disco na série - o que ainda assim lhe teria rendido US$ 1,5 milhão."Não me lembro do que dizia o artigo", tergiversa Marsalis, que chegou a escrever para o "New York Times" contestando o artigo de Watrous. "Eles só falam", desdenha. Ele não demonstra muito entusiasmo em engrossar a discussão sobre se sua música significa uma regressão rumo à tradição do jazz ou se é uma trincheira contra o barulho e a fusion.O que mais parece entusiasmar Marsalis, na verdade, é a questão educacional. Ele vive da idéia de que o ensino do jazz encerra um princípio filosófico e vital em si mesmo. "A inflexão e o timing e a linguagem da música são algo para o qual trabalhamos durante nossas vidas inteiras", ele diz. "Nós falamos naturalmente por meio da música em uma certa sintaxe, quando as sentenças vêm, assim como o pronome, o verbo, o advérbio, e isso tem uma certa ordem e estrutura que é parte de nós mesmos."Compor, para Marsalis, já é uma coisa diferente da improvisação. "Fazer solos é como falar e isso, às vezes, pode ser um exercício de egolatria - é preciso ter cuidado", ele afirma. "Mas compor, escrever música, é mais difícil, embora não queira dizer necessariamente que seja melhor ou pior", ele pondera.De qualquer modo, compor é um objetivo muito definido e raro entre os músicos da orquestra de Marsalis. A próxima grande atração do Jazz at Lincoln Center deve estrear no dia 25) é a ópera "Body & Soul", um tema gospel e bluesístico escrito pelo trombonista Wycliffe Gordon, de 33 anos. "Ainda não a ouvi, mas deve ser extraordinária, porque Gordon é um dos melhores", ressalta Marsalis.O músico, apesar do rigor e da seriedade com que dirige sua empreitada jazzística, não chega a ser marcial no jeito de enxergar a música e o erro. "Thelonious Monk sempre dizia: ´Eu gosto de ouvir as pessoas cometerem erros´", ele lembra. "Quando você erra, isso quer dizer que está indo para algum ponto", pondera Marsalis. "Nossa forma é muito humana e isso é exatamente o que acontece também em nossa casa e em nossa família", afirma.Convenções - "Na maior parte das vezes, cometer um erro só quer dizer que seu ouvido não está desenvolvido suficientemente ou você não está no caminho certo", admite. "O que determina o que vai acontecer é quanto você é escravo das convenções, quanto de suas habilidades o tornam eficiente para participar de uma arena musical", salienta.Compor, para Marsalis, pode ser até uma encomenda, como pouca gente poderia imaginar. Seu disco mais recente, "The Marciac Suite", por exemplo, foi feito a partir da insistência de um amigo do trompetista, Jean-Louis Guilhaumon, que organiza o festival da cidade de Marciac, na França (na região de Gascony). Guilhaumon insistia que ele fizesse algo sobre a cidade, uma das que mais aprecia ao redor do mundo.Entre as canções, está uma chamada "Sunflowers", na qual ele evoca a paisagem monetiana da região. "Não creio que seja uma peça de inspiração impressionista", ele diz, acrescentando que vê mais Van Gogh do que Monet por ali. "Na verdade, são composições com referência direta à paisagem, à cidade e às pessoas que eu conheço lá, que me inspiraram muito."O som da Lincoln Center Jazz Orchestra de Wynton Marsalis pode ser ouvido nos seguintes CDs (todos disponíveis pelo selo Columbia Jazz): "Live in Swing City" (1999), "Big Train" (1999), "Sweet Release & Ghost Story" (1999), "Jump Start and Jazz" (1997), "Blood on the Fields" (1997), "They Came to Swing" (1994), "The Fire of the Fundamentals" (1993) e "Portraits by Ellington" (1992).

Agencia Estado,

10 de setembro de 2000 | 19h45

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