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"As pessoas só querem músicas com letras", diz Delfeayo Marsalis

O trombonista do clã Marsalis, que está em São Paulo para show único nesta quarta (21), fala ao 'Estado' sobre os caminhos e as dificuldades do jazz em um mundo bombardeado pela cultura pop

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

20 Outubro 2015 | 20h57

Um Marsalis pode ser mais ou menos sorridente, mais ou menos negociador, mais falante ou reservado, mas será sempre um Marsalis e estará dentro de um terno bem cortado. Sua música sairá de algum outro órgão vital que não seja o cérebro e ela sempre se tornará única e abrangente. 

Delfeayo Marsalis, 50 anos, é o trombonista de uma família que deve ter um churrasco daqueles aos finais de semana. Wynton é o trompetista; Branford, o saxofonista; Jason, baterista; e Ellis, o pai, o grande mestre, pianista. Delfiô (é assim que se diz) está em São Paulo para uma única apresentação, hoje, no Bourbon Street, antes de seguir para o Festival de Jazz & Blues de Mangaratiba, no Rio, entre 23 a 25.

Ao Estado, ele fala de jazz, New Orleans, próximo disco, plateias sonolentas, crianças e o mal que a “era do rap faz à música instrumental”. Enfim, um Marsalis sendo um Marsalis. 

Ainda impera a ideia de que o jazz se trata de uma música distante, apenas para estudiosos e especializados. Quebrar esse conceito ainda é um desafio?

A vida está mais difícil para os músicos que investem em gêneros instrumentais por causa da ‘era do hip-hop’, que direcionou os ouvidos para que eles aceitassem apenas músicas com letras. O importante em New Orleans é estarmos certos de que a música que fazemos tem um groove forte o suficiente para funcionar com ou sem palavras. E as pessoas sempre entendem quando o som está bombando.

Da mais pura diversão de suas primeiras décadas, o jazz se tornou muitas vezes uma música estritamente cerebral. Quem fez isso com ele?

O jazz sempre se molda àquilo de que a sociedade precisa. Na verdade, ele era música cerebral já na origem, mas se disfarçava de entretenimento. Os músicos mais velhos de New Orleans eram os grandes especialistas neste truque, porque tinham que disfarçar seus sentimentos sobre relações raciais e fingir que estava tudo bem. O tempo passou e cada geração se tornou um pouco mais radical, até que esses músicos não precisaram mais esconder suas emoções. A partir daí, o jazz ficou mais introvertido. Este não era um problema, mas alguns músicos começaram a imitar o design europeu pensando que, assim, se tornariam mais intelectuais. Sinto que as pessoas gostam mesmo das tradições com origem africana, muito mais do que as matizes europeias.

Quando uma plateia está sonolenta, de quem é a culpa? Da plateia ou dos músicos?

Se toda a plateia estiver sonolenta, dos músicos. Ela não pode degustar um prato fino esperando que vá bater em seu estômago como um hambúrguer com batatas fritas. Eu sinto que as plateias têm perdido a paciência e desejado que todas as músicas tenham uma batida reconhecível, como na música popular. Cabe ao músico saber o quanto sua plateia está aberta para ser explorada. Digo que se ela não estiver, aumente o funk, baby!

Você tem trabalhado muito com educação musical para crianças. O que chamou sua atenção?

As crianças estão sendo, mais do que nunca, influenciadas pela mídia e isso está limitando o seu desenvolvimento emocional e intelectual. Ao aprender jazz e canções da Broadway, por exemplo, elas ganham uma compreensão mais rica de harmonia, ritmo, textura. 

Como está a gravação de seu próximo disco? A África será o tema central?

Vou gravar com a Uptown Jazz Orchestra em novembro usando várias canções baseadas em temas africanos. Muitos profissionais de jazz estão removendo a alegria e a emoção da música africana e substituindo o que ela tem de melhor por equações matemáticas chatas. Os povos nativos têm uma relação única com a terra e o mundo espiritual. Eles têm um ideal que tentamos transmitir.

Um de seus irmãos, Branford, foi acusado de ter ido longe demais com seus experimentos. Outro deles, Wynton, é às vezes acusado de ser arraigado às raízes. Afinal, os Marsalis são progressistas ou tradicionalistas?

Somos radicais fundamentalistas (risos).

Estive há três ano em New Orleans e percebi que havia uma média de uns 250 músicos por esquina. Excelentes músicos. Garotos com trompetes em sua terra é como meninos com bolas nos pés no Brasil. O que fazer para que esses garotos brilhem, para que seus talentos sejam realmente usados?

A diferença entre jogadores de futebol e músicos é que os meninos de New Orleans podem fazer seus salários sem precisarem de uma formação organizada. Esses jovens trabalham duro e são capazes de ganhar a vida, mas não podem achar que serão todos o Trombone Shorty. Entre muitos, poucos vão brilhar.

Como é um churrasco na casa dos Marsalis? O pai vai ao piano, um irmão pega o sax, o outro o trompete e vocês tocam por horas, imagino.

Quando éramos jovens, sim. Agora conversamos sobre esportes, política e disputamos para ver quem faz nossa comida típica, o bom e velho gumbo.

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