Marisa Monte leva aparato musical ao Complexo do Alemão

Show marca a retormada do projeto 'Conexões Urbanas', da ONG AfroReggae, suspenso por falta de patrocínio

Maria Pia Palermo, da Reuters

01 Outubro 2007 | 17h32

Marisa Monte levou seu Universo Particular ao Complexo do Alemão, conjunto de favelas castigado por confrontos violentos entre traficantes e policiais, num show que contou com todo o aparato cênico e músicos que acompanham a cantora pelos palcos mais prestigiados do país e do mundo.   "Ela disse que vinha tocar aqui com toda a estrutura", afirmou na noite de domingo, 30, o apresentador do show, que marcou a retomada do projeto Conexões Urbanas, da ONG AfroReggae, suspenso durante dois anos por falta de patrocínio.   A música Infinito Particular, do CD de mesmo nome, abriu a apresentação da cantora e mudou o tom da noite, após a participação do Furacão 2000 e da banda AfroReggae. Austera, sentada no meio do palco e ao violão, aos poucos foi arrancando aplausos e olhares do público atento, em sua maioria formado por jovens, à medida que se movimentava pelo palco e entrava num repertório mais cadenciado, como em Passe em Casa.   "Conexões Urbanas é isso, é trazer o funk que todo mundo conhece, trazer elementos que as pessoas não conhecem. É muito especial retomar o projeto com ela, a Marisa (Monte) é uma cantora muito sofisticada, que este público aqui não conhece muito", afirmou à Reuters José Junior, coordenador do AfroReggae.   A turnê Universo Particular reúne músicas dos últimos discos da cantora (Universo ao Meu Redor e Infinito Particular), dos Tribalistas e Cor-de Rosa-e-Carvão, com sucessos como Amor, I Love You, que fechou a apresentação.   O Complexo do Alemão tem sofrido desde maio com intensos confrontos entre traficantes e policiais. Em junho, uma megaoperação das Polícias Militar, Civil e da Força Nacional de Segurança (FNS) levou 1.350 homens ao conjunto de favelas e deixou 19 mortos.   Na noite de domingo, no campo de futebol onde foi realizado o show, na favela Canitá, não se via nenhum policial nem violência entre as cerca de 2 mil pessoas que viram o show, segundo a organização. Homens da FNS, no entanto, guardavam as vias de acesso ao conjunto de favelas.   "Todo mundo sofre com a violência aqui, não adianta correr que não tem onde se esconder, mas isto (o show) é bom, assim podemos mostrar que não somos só moradores de favela que vivem na violência", disse Tamires Brás, 14, enquanto aguardava para ver a cantora pela primeira vez.   Para o fã da artista e morador da região Luciano Silva, 27, foi uma surpresa saber que ela cantaria na favela. "O show dela é bem elitizado e tem uma sonoridade bem diferente do que o pessoal escuta aqui, que é mais funk", observou ele, que já chegou a pagar R$ 120 para ver o mesmo show em uma casa de espetáculos do Rio.   "Escopetarra"   Os diversos apelos durante a noite pelo fim da violência ganharam um reforço com a doação feita pelo músico colombiano César López de uma "escopetarra" ao grupo AfroReggae.   López, que já deu sua invenção a Bob Geldof, Manu Chao e Fito Páez, disse à Reuters que a doação do instrumento (elaborado com armas confiscadas da guerrilha e paramilitares no processo de paz colombiano) é uma das iniciativas que usa para alertar contra a violência.   "A experiência do Brasil é muito enriquecedora, como a arte é usada para transformar a violência, que é também é muito grave. Na Colômbia isso ainda é muito tímido", disse o músico depois de disparar uns acordes de sua AK- 47 transformada em guitarra elétrica.

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