Marisa Monte lança dois CDs simultaneamente

Um colorido, outro sisudo na aparência, os dois álbuns que Marisa Monte lança simultanemente na próxima segunda-feira - Universo ao Meu Redor (de sambas) e Infinito Particular (de canções pop, ou "songs", como ela chama) - têm a delicadeza como traço comum. São também seus álbuns mais equilibrados em mais de 15 anos de carreira, ambos só com canções inéditas. Independentes, vão ser vendidos separadamente, mas são "gêmeos bivitelinos", como brinca a cantora. "São meus discos mais delicados, femininos. Não tem nada dançante nem pesado. São intencionalmente muito leves", diz. Marisa co-produziu os dois com Alê Siqueira (Universo), com quem já tinha trabalhado nos Tribalistas, e Mário Caldato, responsável por Infinito, o trabalho mais autoral da cantora.Memórias, Crônicas e Declarações de Amor (2000) foi o último disco-solo de Marisa. Dois anos depois veio o projeto Tribalistas com Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown, além dos agregados Dadi, Cézar Mendes e Pedro Baby, todos presentes nos CDs atuais. Eles não saíram em excursão, embora tenham ficado tentados depois da monumental demanda que o CD gerou. Agora Marisa promete compensar a ausência na turnê que estréia em 28 de abril no Teatro Guaíra, em Curitiba, segue para o Rio Grande do Sul e chega a São Paulo no meio de maio. Deve escolher canções como Um a Um, Velha Infância, Carnavália, Carnalismo, que sintonizam melhor com a delicadeza dos novos discos. "Acho que devo isso ao público e a mim mesma", diz a cantora.Fora de cena: um filho e estudosNesse meio tempo, a cantora teve um filho e aproveitou para digitalizar todo seu acervo de composições gravadas em fitas cassete, algumas prontas, outras inacabadas. Ali recuperou parcerias com Brown, Arnaldo, Nando Reis, entre outros, como Gerânio e Pra Ser Sincero, gravadas agora. Ao mesmo tempo se associou a outros, como Adriana Calcanhotto, Seu Jorge, Marcelo Yuka, que assinam faixas dos CDs, além de Leonardo Reis e Rodrigo Campello, que a acompanharam em turnês.Paralelamente, Marisa iniciou uma pesquisa sobre o samba. Sabia, pelo contato com a Velha Guarda da Portela e com Argemiro do Patrocínio (dos quais produziu dois ótimos CDs), que havia uma infinidade de sambas antigos que nunca foram gravados, estavam apenas na memória de veteranos como Monarco. Foi ele quem lembrou de Meu Canário (1950), de Jayme Silva, que só teve um sucesso gravado: O Pato. Outras descobertas ficaram mais de 60 anos sem registro, caso de Perdoa, Meu Amor (Casemiro Vieira), de 1944.Ao mostrar os sambas para Marisa, acabaram tendo o próprio acervo preservado, uma vez que ela registrou todos os encontros com eles, fez cópias em CDs e entregou para cada um. "Encontrei centenas de músicas lindas, mas muitas coisas não cabiam muito para mim, porque o meio de samba é muito masculino. Você conta nos dedos as compositoras mulheres. Dona Yvonne é um raro exemplo", pontua a cantora. "Não tenho nenhum problema de gênero, já cantei Desde o dia em que ela foi embora, mas de algumas coisas realmente não conseguia me apropriar com tanto conforto. E acho legal que, sentindo tanta falta da presença feminina no samba, acabei fazendo um disco de samba muito feminino. Acho que o outro também é. E a pergunta que sempre vem: e a maternidade tem a ver com isso? Acho que tem, porque é o auge da feminilidade ser mãe, gerar, parir, amamentar, tudo isso."O contato mais próximo com a Velha Guarda intensificou certas características de Marisa. "A maneira pura com que os sambistas se relacionam com a música, despretensiosa - por eles não terem isso como meio de sobrevivência, mas como meio de extravasar os sentimentos, expressar as alegrias, angústias, tristezas -, é um aprendizado, uma grande percepção do princípio da coisa. Acho que esse envolvimento com todas essas pessoas te dá uma dimensão clara disso. Eu já tinha, mas reforça: é isso mesmo. A música é o principal, não tem nada mais importante do que isso."Mas Marisa não é purista ao abraçar o samba. É, como ela própria se refere, do jeito de Paulinho da Viola: "Quando penso no futuro, não esqueço meu passado", diz, citando um clássico dele, Dança da Solidão, que gravou em 1994. Chamou Mário Caldato, cujas referências conhecia do trabalho com os Beastie Boys, para produzir Universo justamente porque ele nunca havia feito um disco de samba. Com reforço do marido de Marisa, Pedro Bernardes, que fez as programações eletrônicas, Universo é recortado por uma série de barulhinhos e efeitos, mas com muita sutileza. Alê Siqueira, formado em música erudita, contribuiu para o toque camerístico de Infinito, especialmente nas sete faixas que combinam fagote, cello, violino e trompete e foram arranjadas por Philip Glass, Eumir Deodato e João Donato."Alê é bem embasado, é culto, estudou violão clássico, é maestro formado, tem ouvido absoluto, trabalhou muito com essa esfera de música erudita contemporânea. Queria trabalhar com arranjos escritos, tinha tido uma história ótima com ele, achei que era a pessoa perfeita. Foi um acerto", elogia a cantora. "Chamei o Mário porque não queria fazer um disco de samba, mas um disco meu, contemporâneo, que tivesse a minha linguagem, os elementos da música que faço hoje. Ele soube catalisar esse desejo com um resultado maravilhoso."A faixa que vai puxar Universo é O Bonde do Dom (não, ela não aderiu ao funk carioca, pode ficar sossegado), parceria dela com Arnaldo e Brown, que tem um verso que diz: "Trabalho em samba e não posso reclamar/ Vivo cantando só pra te tocar." Vilarejo, também do trio com Pedro Baby, é o carro-chefe de Infinito e começou a tocar nas rádios na terça-feira. Aparentemente, é uma canção bucólica (lembra as mais ternas dos Tribalistas), mas Marisa atribui a ela algo além de despertar suspiros nostálgicos: "A gente fica sempre cobrando transformações do mundo, do governo, do Lula, do ministro, do Congresso e não sei o quê. Acho que o indivíduo é a sociedade. Então, essa canção fala de todas aquelas coisas maravilhosas que o mundo poderia ser e é também um olhar contrastante em relação ao que a gente vive hoje", diz."É muito ingênuo e leviano achar que alguém vai mudar alguma coisa se a gente não mudar cada um de nós. Acredito que essa é a única transformação possível no Brasil: todo mundo não jogar lixo na rua, na praia, não fazer xixi na esquina, reciclar seu lixo, pegar o cocô do seu cachorro, todo mundo eleger melhor o Congresso, ser um consumidor consciente", prossegue. "Vilarejo fala no final: `tem um verdadeiro amor para quando você for´. Quer dizer, qualquer um pode ter esse lugar. É uma questão de transformação interior, de decisão individual."Marisa é de uma geração que não tem "essas ideologias todas", de fazer revolução. "Não queremos mudar o mundo; a gente vem de uma decepção total, primeiro a ditadura, depois o Collor e tal. Minha geração não acredita muito nisso, não tem por que acreditar. Agora, acredito que as mudanças individuais fazem muita diferença porque na soma chega-se lá no Congresso, no presidente."

Agencia Estado,

10 de março de 2006 | 17h55

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.