Deu Zebra/Divulgação
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Marina Lima e seus afetos à meia voz

Cantora interpreta clássicos do pop rock racional e uma inédita em show intimista que acontece no Tom Jazz

Lauro Lisboa Garcia, Especial para o Estado

30 de maio de 2013 | 20h16

São afetos à meia voz. Com um punhado de clássicos do pop-rock brasileiro que ela vem propagando desde a década de 1980, como Fullgás e a pontual Charme do Mundo, novidades e todo o charme do mundo, Marina Lima continua em cartaz no Tom Jazz com o belo show Maneira de Ser, inspirado em seu livro confessional de mesmo nome, com textos e imagens cativantes, lançado em 2012.

O show, segundo depois da reinauguração do Imperator, agora transformado em centro cultural no Méier, subúrbio do Rio, que segue em temporada de um mês na casa paulistana, abre com um significativo vídeo de seu irmão e parceiro Antonio Cícero, dizendo o poema de Carlos Drummond de Andrade, revelando a origem de “os inocentes do Leblon”, citado num verso de Virgem, a bela canção que abre o espetáculo, seguida de Pseudo Blues, do mesmo álbum de 1987, que ela nunca tinha cantado ao vivo.

A direção de Marcio Debellian é tão elegante quanto o livro que organizou com ela. O diretor deu um clima mais aconchegante à casa (que pode ser interpretado como referência ao “lado quente do ser”), colocando 60 lâmpadas vermelhas no lugar das convencionais, uma delas no microfone de Marina, que dá um efeito cênico interessante. Combina com a intensidade do roteiro, com o conforto que a compositora busca para reinterpretar grandes canções pop adaptadas a seu momento atual.

Para quem se incomoda com o fato de ela ter perdido parte da voz, Marina faz questão de frisar que não é cantora, embora interprete canções de outros autores que provocam grande comoção no show, como À Francesa (Claudio Zolli/Antonio Cícero), Me Chama (Lobão), Mesmo Que Seja Eu (Roberto Carlos/Erasmo Carlos) e Como 2 e 2 (Caetano Veloso). 

Há também a recente parceria de Marina com Adriana Calcanhotto (Não Me Venha Mais Com Amor), de seu álbum mais recente, Clímax, de 2011, e a inédita Partiu, só dela, que foi feita para um EP com cinco canções para ser lançado na internet (duas delas para baixar de graça), que deve sair este ano, com produção de Adriano Cintra, ex-Cansei de Ser Sexy e agora na banda Madri. “Rolou uma afinidade muito grande e quero levar isso adiante”, diz Marina.

No Rio, onde Marina não se apresentava fazia muito tempo depois de ter se mudado para São Paulo, Maneira de Ser foi um acontecimento, apenas numa noite, com o show vinculado à exposição de imagens do livro. No Tom Jazz, o clima é um pouco diferente - e ela se mostra muito à vontade com a plateia eufórica a cada canção.

“Nem o livro nem o show tratam de memória, até porque tem muita coisa presente”, diz Marina. “Acho que é um diário de afetos. Quero falar de coisas que são relevantes agora. Para quem já me conhece ou não me conhece, me conhecer um pouco melhor, as bases de quem eu sou, quais são os assuntos que têm a ver com a minha personalidade e que permeiam meu trabalho desde o começo.”

Colaboradores do livro, como o DJ Zé Pedro, lembraram de passagens da vida de Marina, que nem ela mesma tinha guardadas na memória. “Não tenho interesse em fazer uma biografia. Nem me lembro de tantas coisas, não dá pra carregar tanta mala. Vou deletando certas coisas, só fica o que realmente acho que importa pra poder explicar ou traduzir no que eu me transformei. Ainda tem muita coisa pela frente.”

E entre os assuntos relevantes, um deles é o problema sério com as cordas vocais. “Passei anos achando que era um problema emocional. Quando descobri que havia uma fenda aberta nas cordas vocais, que foi um erro médico numa operação de aspiração da garganta, foi um alívio pra mim. Porque eu estava correndo atrás de um fantasma que não existe. Desencanei e estou tranquila. Posso não ser exatamente como eu era, mas não sou como era em nada, na vida”, diz, rindo.

Acompanhada de Alex Fonseca (bateria, programações e direção musical), Edu Martins (baixo, teclado, vocal e direção musical), o velho parceiro de longa data William Magalhães (teclados e vocal) e Jennifer Naemi (backing vocal), Marina modula a voz de maneira confortável, favorecida pelos eficientes arranjos. Um dos pontos altos é, claro, o encontro com Tom Jobim em 1987, exibido no telão com os dois cantando Lígia. Duas gerações e dois compositores estilosos e cheios de bossa.

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