AMANDA PEROBELLI/ESTADÃO
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Marin Alsop abre temporada da Osesp e fala de sua saída do grupo

Orquestra vai apresentar a 'Sinfonia n.º 7', de Gustav Mahler, na Sala São Paulo

João Luiz Sampaio, Especial para O Estado de S. Paulo

07 Março 2018 | 06h00

Em 2010, a maestrina norte-americana Marin Alsop subiu pela primeira vez ao palco da Sala São Paulo para reger, então como convidada, a Sinfonia n.º 7 do compositor austríaco Gustav Mahler, à frente da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo. No ano seguinte, tornou-se regente titular do grupo. E, agora, oito anos mais tarde, ela volta a interpretar a obra, abrindo sua primeira temporada desde o anúncio, em dezembro passado, de que ela deixará a Osesp ao final do próximo ano. 

Alsop vai completar ao todo nove temporadas como diretora musical e regente titular em São Paulo. E, em 2019, assume o comando da Orquestra Sinfônica da Rádio de Viena. Ela explica que sua motivação não foi trocar um grupo pelo outro. “Oito anos é uma quantidade razoável de tempo e, ao longo dele, estou certa de que chegamos a um bom nível artístico”, diz, em entrevista exclusiva ao Estado, em seu camarim na Sala São Paulo. 

“Sempre acho que uma relação deve terminar quando tudo está bem. A decisão simplesmente fez sentido a todas as partes envolvidas, foi orgânica, como devem ser todas as boas decisões. E, claro, apareceu então essa nova possibilidade em Viena. Mas estou feliz de poder continuar trabalhando com a Osesp e de estabelecer com os músicos uma outra forma de relacionamento.” Ela, a partir de 2020, torna-se a primeira regente de honra da história do conjunto brasileiro, que criou também um prêmio para jovens regentes batizado com o nome da maestrina.

A Sinfônica da Rádio de Viena, nas palavras da maestrina, tem um perfil muito claro e definido na cena musical da cidade, que é a busca pela inovação na atividade orquestral, dentro e fora do palco. Quando assumiu a Osesp, em sua primeira entrevista, Alsop também tratou dessa questão, afirmando que gostaria de ajudar a instituição a pensar o que seria o papel de uma orquestra do século 21. Ela considera esse um objetivo realizado? “Sim e não”, diz Alsop, depois de uma longa pausa. 

“Eu fui um pouco ingênua ao chegar, por não entender o funcionamento da instituição no que diz respeito à complexidade de sua relação com o governo, que é pesada. Cada passo envolve diversos fatores. Não posso simplesmente resolver tocar a Nona de Beethoven em uma favela, por exemplo, é sempre mais complicado. Então, de alguma forma, apesar de todas as conquistas artísticas, no que diz respeito ao contato, ao diálogo com diferentes públicos, eu gostaria de ter feito mais.”

Sucessor

Marin Alsop não deve participar diretamente da escolha de seu sucessor como regente titular e diretor musical da Osesp. Se os rumores, por enquanto, colocam os nomes do costa-riquenho Giancarlo Guerrero e do estoniano Arvo Volmer, convidados frequentes do grupo, como fortes candidatos, a informação oficial é de que um comitê de busca será formalmente nomeado para selecionar o novo maestro.

Alsop naturalmente não fala em nomes. Mas imagina o perfil que o novo maestro deve ter. “A Osesp precisa de alguém com uma qualidade artística alta e que seja capaz de empurrar a orquestra em direção a novos voos. Ao mesmo tempo, é necessário que seja alguém cuja reputação ajude a orquestra ainda mais a refinar seu perfil internacional. Claro que estarei sempre por perto para ajudar, mas essa é uma tarefa que caberá ao novo regente ou diretor musical, não sei exatamente em que direção a Osesp está caminhando em relação ao posto (Alsop começou sua gestão como regente titular e, anos depois, foi nomeada diretora musical).”

As características a que Alsop se refere são praticamente as mesmas usadas pela Osesp ao anunciar seu nome em 2011. Sob o comando da maestrina, o grupo fez turnês europeias importantes, além de ter completado a gravação do ciclo das sinfonias de Prokofiev para o selo Naxos (o outro grande projeto discográfico do grupo, a integral sinfônica de Villa-Lobos, que ela considera de “extrema importância”, foi realizado por Isaac Karabtchevsky). 

O grupo ainda estuda, segundo ela, qual a melhor forma de lançar a gravação em vídeo das quatro sinfonias de Brahms, com os concertos e os comentários dela a respeito das peças. É um legado do qual se orgulha e, se tivesse que pensar em novos projetos do tipo com a Osesp, provavelmente teria a música russa em mente. “Sei que é um repertório que já foi gravado por grandes maestros russos. Mas é um repertório que os músicos da Osesp fazem particularmente bem. Então, se alguém quisesse que eu gravasse as sinfonias de Shostakovich, por exemplo, acho que gostaria da ideia.”

Depois de oito anos em São Paulo, Marin Alsop prepara-se para, no ano que vem, trocar a América Latina pela Europa como seu segundo endereço – ela segue vivendo em Baltimore, nos Estados Unidos, onde dirige a sinfônica local, posto que vai dividir sua atenção com a nova posição em Viena. É um recomeço, ela reconhece, com um sorriso. “Sim, o trabalho precisa ser construído do zero, tudo de novo, e desta vez em alemão”, brinca a maestrina. “Não se trata apenas da relação com a orquestra, mas de entender a cultura em que ela está inserida, a vibração da cidade. Eu demorei dois anos para entender o que era São Paulo e a Osesp.”

Ela acredita, no entanto, que internamente passos importantes foram dados. O principal deles, a ampliação da academia da orquestra, com cursos agora também de regência e de canto. “A academia é uma contribuição para o meio musical, para o jovem que tem a chance de refinar sua formação em um contexto de excelência”, ela diz, particularmente animada com a possibilidade de ajudar uma nova geração de maestros a desenvolver seu talento, “entendendo que há muito em jogo além da técnica e do conhecimento musical”. 

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Para ela, foi fundamental na compreensão do papel pedagógico da instituição receber a incumbência de gerir também o Festival de Inverno de Campos do Jordão (Alsop chegou a ser anunciada como diretora do evento em abril de 2012, mas a Osesp voltou atrás com relação ao anúncio dias depois). 

Da mesma forma, ela acredita que foram importantes iniciativas como as transmissões de alguns concertos pela internet, o investimento no selo digital da Osesp ou a decisão de realizar um concerto de jazz e música brasileira em Londres, durante uma participação no prestigiado Festival Proms, em Londres. “Todas essas ideias apontam para o futuro de alguma forma. Mas sempre há mais a se fazer.”

De volta ao Mahler desta semana, que será apresentado quinta, sexta e sábado na Sala São Paulo, ela diz que a Sinfonia n.º 7 revela um compositor em um momento de paz, sem parecer tão torturado como em outras obras, mais intimista. E acredita que o trabalho desta semana é um bom termômetro de como evoluiu sua relação com a orquestra. “Em 2010, fiquei impressionada com a rapidez no aprendizado, ensaio a ensaio. Hoje, é evidente como já começamos em um nível altíssimo e, a partir dele, podemos crescer, com uma variedade de nuances e coloridos muito maior.”

OSESP 

Sala São Paulo. Pça. Julio Prestes, s/nº, tel. 3223-3966. 5ª e 6ª, 20h30; sáb., 16h30. Ingressos: de R$ 40 a R$ 222.

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