Marília Pêra canta o que Carmen Miranda não gravou

A estrela trocou o teatro pela música. Em lugar de dramaturgos como Nelson Rodrigues, Wilson Sayão e outros que interpretou nos últimos anos, Marília Pêra volta aos palcos paulistanos apoiando-se no trabalho de compositores do porte de Tim Maia, Chico Buarque, Edu Lobo, Gonzaguinha, Dorival Caymmi, Cartola, Ary Barroso e Jorge Ben Jor. Estrela Tropical, que entra em cartaz esta noite, no Teatro Renaissance, não apresenta a Marília Pêra dramática mas a Marília Pêra cantora. Ela já soltou a voz em outras ocasiões. Nos anos 70, logo após seu extraordinário sucesso com Fala Baixo Senão eu Grito, de Leilah Assunção, o primeiro espetáculo em que público e crítica perceberam a dimensão real de seu talento, Marília estrelou um trabalho pouco visto, o show musical Feiticeira, dirigido por Nelson Motta, com quem estava casada então.Nos anos 80, um de seus maiores triunfos foi outro show, Elas por Ela, em que prestava tributo às vozes femininas da música popular brasileira, de Carmen Costa a Elis Regina. E conquistou platéias do Rio com A Estrela Dalva, de Renato Borghi, musical que levava para o palco a vida e obra de Dalva de Oliveira. Marília Pêra pretendia prestar outro tributo desta vez. Estrela Tropical deveria ter sido inicialmente uma homenagem a Carmen Miranda (1909-1955). Nem os turbantes - "Estava com muita vontade de voltar a cantar", diz. "E quando começei a conversar sobre isso com os produtores Márcio Montenegro e Nilson Raman, com quem tenho trabalhado de maneira muito harmoniosa, surgiu a idéia de se fazer um show baseado no repertório de Carmen. Começamos a pesquisar o legado dela, a selecionar as músicas. Quando estávamos com o roteiro praticamente definido, soubemos que os direitos autorais de sua imagem e de suas interpretações estão vendidos. Não posso fazer um gesto da Carmen, não posso cantar nada dela, não posso nem usar seus turbantes. E já interpretei Carmen acho que mais de 50 vezes na vida. Foi muito decepcionante." A decepção, no entanto, gerou um novo trabalho. "Em vez de ir para o repertório de Carmen, começamos a pensar em um conjunto de canções contemporâneas que ela teria gostado de cantar. E mantivemos o nome do show porque, em vez de se referir a Carmen Miranda, passou a indicar o compositor brasileiro. Escolhemos só estrelas tropicais, de Ary Barroso a Chico."Entre as canções que integram a set list estão Não Quero Dinheiro, de Tim Maia, A História de Lily Braum, de Chico Buarque e Edu Lobo, Nunca Mais, de Dorival Caymmi, O Mundo é um Moinho, de Cartola, Não Enche, de Caetano Veloso. A atriz também guardou espaço para o polêmico country brasileiro, e interpreta Paz na Cama, de Edson Mello e Rhael, e Pense em Mim, de Douglas Maio e Jósé Ribeiro. Ela atua em cena ao lado do filho, o músico Ricardo Graça Mello, e da cantora Maria Lúcia Priolli, que fazem os backing vocals. A banda que a acompanha é formada por cinco músicos. Estrela Tropical foi dirigido e coreografado por Antônio Negreiros. Os cenários e figurinos são assinados por Cláudio Tovar, a iluminação é de Rogério Wiltgen. Pop, romance e folia - "O show é bonito, alegre e popular", diz. "As músicas formam três blocos. O primeiro é dançante e bem pop. O segundo, de que mais gosto, é romântico. E o terceiro é formado por músicas de carnaval." Para compensar a frustração, Marília Pêra conseguiu, mediante acordo especial com a família de Carmen, autorização para cantar três músicas da Pequena Notável. "Quando pedem bis, e sempre pedem, eu saio correndo, visto uma roupa da Carmen e entro então para fechar o espetáculo." A interpretação na música é totalmente diferente da atuação no teatro, explica. "Qualquer exagero, em música, fica muito marcado. Trabalho sempre no sentido de reduzir, de interpretar menos. Dentre as canções que interpreto no show, só me derramo mesmo em Começaria Tudo Outra Vez, que pede isso." Marília Pêra lembra que, quando Estrela Tropical estreou no Rio, no primeiro semestre, "tinha medo de não saber que personagem é essa cantora que entra em cena. Pois não é uma personagem. Na música, não se tem uma personagem. Mas o perfil dessa cantora foi nascendo aos poucos, e hoje não sou mais eu, a atriz, quem entra no palco. É ela, a personagem". Marília diz que não pensa em como vai interpretar a canção antes de cada show. "Eu afino as notas para cumprir tudo o que o artista compôs. É assim que gosto de cantar. Controlo a emoção, mas sou muito influenciada pelo modo como a letra bate, o tipo de sentimento que expressa." Veterana dos musicais - Filha dos atores Manoel Pêra e Dinorah Marzullo, Marília nasceu no Rio em janeiro de 1943 e em bastidores de teatros. Estreou aos dois anos em Medéia, na Cia. Henriette Morineau. Em mais de cinco décadas de intensa carreira, fez inúmeros musicais. Aos 14 anos chegou a fazer figuração em teatro de revista e apareceu em De Cabral a J.K. Brilhou tanto em musicais brasileiros, como Onde Canta o Sabiá, de Gastão Tojeiro, quanto em versões de musicais americanos, entre eles Como Vencer na Vida sem Fazer Força, onde atuou com Procópio Ferreira, e Pippin, com Marco Nanini. A primeira paixão da atriz não foi a música, mas a dança, que estudou por 12 anos, antes de se dedicar ao teatro. A voz e o canto, porém, sempre estiveram entre suas paixões. Na década de 90, ela se metamorfoseou em Maria Callas para atuar em Master Class. Apaixonada por ópera, respeita o gênero, conhece todas as dificuldades do canto lírico e jamais inclui árias em seus espetáculos musicais. Mas sua voz cuidada e bem polida soa erudita em muitas das músicas de Estrela Tropical.Marília Pêra afirma estar com muita vontade de voltar ao teatro. Gostaria de formar um grupo "de repertório, onde pudesse passar um ou dois anos fazendo uma série de grandes peças. São tantas as que quero viver, que adoraria poder me dedicar só a isso. Mas por enquanto vou viajar com o show. A receptividade no Rio foi enorme, e depois de São Paulo os produtores querem excursionar." Teatro vai ficar mais para a frente. Estrela Tropical permanece na cidade somente até o dia 22. Estrela Tropical - Teatro Renaissance (Al. Santos, 2233, tel.: 3609-2233). Sexta e sábado, 21 h, domingo, 18 h. R$ 50.

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