Antonio Cesar/ Divulgação
Antonio Cesar/ Divulgação

Marília Bessy e Ney Matogrosso dão voz a repertório lascivo em 'Infernynho'

'É uma festa para as pessoas dançarem', salienta Ney

Renato Vieira, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2013 | 15h45

Atualizada às 11h35

Ney Matogrosso nunca se interessou em colocar grandes sucessos no repertório de seus shows, quase sempre conceituais. Atento Aos Sinais, com o qual roda o Brasil - e cujo registro em disco sai em novembro -, não abre espaço para músicas como Homem com H ou Sangue Latino. Nem o fato de completar quarenta anos de carreira em 2013 o convenceu a dar o braço a torcer.

Mas, no ano passado, Ney aceitou um convite que quebra tal perspectiva. Em nome da diversão, segundo ele. Em Infernynho, lançado agora em em CD e DVD, ele se junta à cantora e compositora Marília Bessy para interpretar músicas que não revisitava há tempos. Idealizado por Bessy e pelo produtor e diretor Rodrigo Faour, também responsável pelo roteiro, o espetáculo evoca o clima dos antigos inferninhos, estabelecendo uma dinâmica de casal entre ambos através do repertório calcado na sensualidade.

"É uma brincadeira. Não tem nenhuma conotação de seriedade. É uma festa para as pessoas dançarem", salienta Ney, que já havia participado do segundo CD de Bessy, Doce Devassa. "Ele era a pessoa ideal para a temática do show. Sem ele não funcionaria", avalia Bessy, que diz ter ficado nervosa durante a gravação por estar ao lado de Ney. "Tive que relaxar durante os ensaios e o show, porque senão a coisa não ia andar. E aprendi muito com ele durante esse processo."

O fio condutor do espetáculo foi definido por Faour, tendo como base um casal neurótico que vai a um inferninho para discutir a relação. Durante a parte solo de Bessy, que abre o show, ela manda indiretas ao "personagem" de Ney, que entra no palco e dá sua resposta, até a reconciliação final. A intenção do produtor era também fazer de Infernynho uma lembrança da estética dos shows do cantor realizados nos anos 1970 e 1980, nos quais a sexualidade, ainda presente em seus espetáculos, era usada a favor da liberdade suprimida pela ditadura militar.

Quase todo o repertório de Infernynho data dos anos 1980. Bessy relembra sozinha Louras Geladas, hit do RPM, e Rádio Blá, de Lobão. E dá espaço para seu trabalho autoral, incluindo a música que dá título ao show, parceria com Eduardo Dussek, que entra no CD em duas versões. "No show, o Ney cantou apenas o refrão e algumas passagens da música. Mas ele gostou muito, ficou a fim de cantar, e decidimos entrar em estúdio", conta Bessy.

Ney Matogrosso conta que Infernynho é show para dançar. Ouça no áudio abaixo.

Com a adesão de seu convidado, ela revisita Rita Lee em um medley com Bem-Me-Quer e Banho de Espuma, além de Meu Sangue Ferve por Você - sim, a de Sidney Magal. O cantor ainda recupera músicas com letras de duplo sentido, a exemplo de Por Debaixo dos Panos e Folia no Matagal. "É um repertório que mostra bem o que foi aquela época", considera Ney, por conta do afrouxamento da censura a partir do fim da década de 1970. O CD e o DVD serão lançados em show nesta quarta-feira, no Rio de Janeiro. Segundo Bessy, há a intenção de trazer Infernynho para São Paulo quando a agenda de Ney permitir.

Marília Bessy fala sobre sua relação com Ney Matogrosso. Ouça no áudio abaixo.

Novos. Em setembro, o cantor e compositor Dan Nakagawa lançou o CD e DVD Dan Nakagawa Convida Ney Matogrosso, registrado em 2009. Ney só participa de três músicas, mas a receptividade aos chamados de Nakagawa e de Bessy evidencia o quanto ele permanece ligado às novas gerações da MPB, que também ocupa boa parte do repertório de Atento Aos Sinais, indo de Criolo a Paulinho da Viola. "São pessoas com quem gosto de me divertir. Não tem isso de estar prestando um bem ou fazendo um favor. É apenas por gostar deles", explica o intérprete, que nesta sexta-feira participa do show da banda Tono, no Rio de Janeiro.

Serviço: Infernynho - Marília Bessy Convida Ney Matogrosso (Coleção Canal Brasil)

CD (R$ 29,90), DVD (R$ 54,90).

Sucessos recuperados

Açucar Candy: Ney a interpretou em show pela única vez em Homem de Neanderthal (1975), seu primeiro show solo. Recentemente, cantou a música com a banda Zabomba durante apresentação do grupo.

Não Existe Pecado Ao Sul do Equador: Cantada ao vivo apenas no show Feitiço, de 1978, e retomada apenas em Um Brasileiro (1996), dedicado à obra de Chico Buarque

Amor Objeto: A música de Rita Lee e Roberto de Carvalho esteve no show de lançamento do álbum Ney Matogrosso, lançado em 1981. Desde então, não foi revista.

Folia no Matagal: Lançada por Maria Alcina em 1979, esteve pela última vez no repertório de Ney no show realizado no Festival de Montreux em 1983. Em 2011, cantou-a em show de Eduardo Dussek.

Primeiro de Abril e Por Debaixo dos Panos. Figuraram no repertório do show Matogrosso, de 1982. Ney nunca mais as colocou em suas apresentações.

Por Que a Gente é Assim: Esteve no repertório de show que gerou disco ao vivo no fim dos anos 1980 e foi recuperada em Inclassificáveis, de 2008.

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