TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO
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Mariana Furquim mostra sua 'Iemanjá planetária'

Álbum 'Princesa de Aiocá', produzido por Dante Ozzetti e com participação de Ná e Patrícia Bastos, universaliza um tema apresentado, em geral, de forma regionalizada

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

19 Outubro 2018 | 15h26

Os mergulhos no mar em busca da figura de Iemanjá costumam trazer de volta à praia uma música quase sempre formatada em tambores de terreiro dando as ordens e os tempos de pontos do candomblé regendo até as cordas do violão. Suas letras são reverenciais e sua representação responde por vários nomes: Janaína, Aiocá, Rainha do Mar, Inaê. Graças mais à música brasileira do que à própria propagação das culturas afro em uma sociedade de tabus religiosos recrudescidos, Iemanjá é a rainha do mar mesmo para quem não faz ideia de sua força no contexto espiritual. De Dorival Caymmi a Bethânia, de Baden Powell a Gal Costa, de Clara Nunes a Beth Carvalho, e todo o samba baiano e carioca, Iemanjá ganhou uma onipresença na música brasileira que outro santo não tem.

Mariana Furquim, cantora paulistana de 36 anos, faz de sua celebração à entidade um feito fora dos padrões. Seu primeiro álbum, Princesa de Aiocá, traz apenas músicas que tenham como centro a figura de Dona Janaína. Ela poderia recorrer ao repertório clássico sobre a figura e se amparar apenas no conceito do álbum, usando a produção inesgotável de um assunto que tanto inspirou Paulo Cesar Pinheiro, Vinicius de Moraes e o “rei do mar”, Dorival Caymmi. Mas, então, a primeira surpresa que provoca é na composição.

Os nomes que falam hoje de Iemanjá nas músicas de seu disco, gente de grandeza poética descomunal como os paraenses Joãozinho Gomes e Enrico di Miceli e o amapaense Paulo Bastos, tratam do tema com um frescor sem ranços folclóricos.

A direção musical e os arranjos são de Dante Ozzetti, e aqui vale um paralelo com o álbum Batom Bacaba, de Patrícia Bastos, um dos melhores discos da música brasileira lançados em 2016. Ao assinar a produção de Patrícia, Dante atingia o resultado dos sonhos a um artista. Sua verdade regional pode ser planetária e sua força rítmica pode deixar as amarras das batidas de tambores e ganhar as melodias. Batom Bacaba é muito presente em Princesa de Aiocá em vários sentidos. A mão de Dante é visível, assim como a presença do espírito do Amapá na voz de Patrícia, que canta em Eu Vim do Mar, de Paulo Bastos. “Dante conseguiu colocar luz em minha essência”, diz Mariana. Eles têm familiaridade: Dante é tio de Mariana.

Sua voz não é das grandes emissões, o que a faz investir em um canto naturalista, pequeno, livre de empostações. Ela a escolheu assim, sem personagens nem simulacros. Canta o que é, não uma ideia do que gostaria de ser – uma armadilha que sempre derruba vozes nos primeiros discos. A música que abre, Omim de Todos os Mistérios / Ondoiajuê, foi recolhida pela própria no terreiro da denominação Nação Livre Aruanda, com menos amarras do que o próprio candomblé. O disco tem muitos bons momentos, como Canção Calunga, de Déa Trancoso e Regina Machado, com o vocal dividido com Ná Ozzetti. A contribuição dos nortistas, como no disco de Patrícia, é aquele momento em que o sol nasce com danças à beira-mar.

Dançando com Sereia é uma pedrinha preciosa de Enrico Di Miceli e Joãozinho Gomes. Eu Vim do Mar faz parte das simplicidades profundas de Paulo Bastos, irmão de Patrícia, hoje o maior compositor dos marabaixos de sua terra. Duas são de Mariana: Ofício é um samba que diz “falo do que vibra, essência da vida / meu verso rima, verdade irradia”. Não deixa de ser biográfica quando se descobre que a música foi mesmo uma escolha de vida. A outra canção é Liberta Mulher, que ela criou com Luisa Toller. Ciranda pra Janaína, de Jonathan Silva e Kiko Dinucci, traz os vocais de Marcelo Pretto, dos Barbatuques.

A música de Mariana ganhou força suficiente para que a fizesse tomar uma decisão difícil. Depois de nove anos responsável pela gestão de projetos do Projeto Guri, com dois filhos pequenos, de quatro e dez anos, ela decidiu que era o momento de se jogar na música. Pediu as contas da empresa e decidiu viver apenas do que cantava. Para gravar o disco, abriu uma campanha de financiamento coletivo pelo Catarse e fez a lição de casa. Gravou vídeos, instigou os potenciais apoiadores e chegou ao resultado que queria. Em 45 dias, o prazo da arrecadação, vieram os R$ 45 mil necessários para a gravação. Hoje, o álbum tem lançamento digital.

Ela diz que o meio a recebeu com generosidade. Ao ficar sabendo da ideia de gravar um projeto sobre Iemanjá, Patrícia Bastos imediatamente passou a enviar mensagens para seus colaboradores paraenses e amapaenses em busca de material inédito. “No dia seguinte, ela colocou todos os compositores que conhecia para me mandar músicas.”

Sua ligação com a rainha do mar veio da mãe. “Ela sempre teve um apreço ao espiritual, mesmo sendo muito eclética. Um dia, me lembro de ter ido um pai de santo em casa por algum motivo de que não me lembro. Ele acabou jogando os búzios e descobri ali que eu era filha de Iemanjá. Comecei a me envolver, a ler tudo sobre o assunto e a ir atrás do que era cantado sobre ela no samba baiano, por exemplo.”

Ao passar pelo filtro de Dante, sua Iemanjá respira livre, urbana, cheia da carga da tradição sem estar presa aos terreiros. Princesa de Aiocá faz Dona Janaína também soar universal.

 

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