Mariana Aydar registra composições do artista plástico Nuno Ramos em novo disco

Mariana Aydar registra composições do artista plástico Nuno Ramos em novo disco

Cantora enfim encontra o diálogo entre um álbum enxuto e densidade poética

Emanuel Bomfim, O Estado de S. Paulo

26 de agosto de 2015 | 05h00

Quando surgiu, há quase dez anos, vindo de uma cena do forró, Mariana Aydar firmou sua voz entre a tradição e a modernidade. O Brasil das cantoras pedia uma visão revigorante sobre a fórmula da canção. Mais do que desfilar timbre bonito e interpretação segura, havia a demanda por um projeto de linguagem. O termo “sofisticação” era o indicativo mais desejável entre os representantes daquela cena, algo que tanto ela ouviu com o Kavita 1 (2006), seu disco de estreia. Passado esse período, que rendeu mais dois álbuns e um projeto belíssimo em torno de Dominguinhos, já é possível dizer que o termo mais adequado, ao menos em seu caso, é “depuração”. Mariana, enfim, alcança aquilo que sempre desejou: um registro enxuto.

“E sem medo de ser triste”, complementa a artista em entrevista nos estúdios da Rádio Estadão sobre seu mais novo rebento, Pedaço Duma Asa. Um tipo de densidade e melancolia que ela encontrou (e se apaixonou) quando teve contato com as composições do artista plástico e escritor Nuno Ramos. Em 2009, com Peixes Pássaros e Pessoas, ela chegou a gravar duas canções dele, Manhã Azul (com Duani) e Tudo Que eu Trago no Bolso (com a própria Mariana). Apesar da parceria, a relação só viria a se estreitar efetivamente quando preparou o show para o projeto Palavras Cruzadas, do diretor Marcio Debellian, apresentado ano passado em São Paulo e no Rio. O repertório foi todo construído a partir das músicas de Nuno. 

“Eu não o conhecia como artista plástico. Conheci por meio dos discos do Romulo Fróes. Gostava muito de uma música que se chama Atrás Dessa Amizade. Achava que era um português, sei lá, não tinha ideia de quem ele era”, conta. A ponte com Portugal não era um disparate. Nuno é filho de português e sua produção musical, em certo sentido, evoca a intensidade do fado. “As composições que faço são mais distanciadas, não há imediatez. Isso talvez seja traço de alguns sambas, especialmente de nomes como Cartola, Nelson Cavaquinho e Batatinha. Tem algo mais afastado do dia a dia. O fado talvez tenha um pouco disso também, uma saudade, uma carga, um déficit histórico”, explica Nuno.

Decidida a registrar em estúdio o que havia sido bem-sucedido no palco, Mariana achou por bem romper com a Universal, gravadora que havia lançado todos os seus discos até então. “Precisava de uma liberdade completa. Não que eu não tivesse antes, mas achei que esse disco precisava voar”, diz. Assim nasceu o selo Brisa Records, que carrega o nome de sua filha. 

O estúdio em casa serviu de base para as gravações, além da produção e mixagem, que ficaram a cargo de Duani, o pai da Brisa. Juntos, tomados pela força poética de Nuno, forjaram um samba sui generis, arquitetado sob uma guitarra harmônica e por vezes ruidosa de Guilherme Held, muitos tambores e atabaques e alguns efeitos eletrônicos dispersos. “Sempre falava para o Duani que eu queria uma coisa mais crua. Queria que tivesse tambores. Esse disco nasceu de uma forma muito natural”, detalha Mariana Aydar. “A gente estava buscando um som afro-mântrico”, define Duani em poucas palavras. Nuno Ramos também aprovou as soluções estéticas pensadas pelo casal. “A Mari dá uma precisão a cada elemento, com um desenho muito nítido da canção. Foi uma surpresa muito boa. O disco tem uma unidade muito grande. Isso é forte.”

Maternidade. Em seu processo de interiorização de cada canção, Mariana buscou narrativas escondidas nas imagens colocadas pelos versos de Nuno. Até personagens criou para ajudar a transmitir “a verdade” das composições, grande parte feita em parceria com Clima (o artista plástico Eduardo Climachauska). “Me divirto muito com a Mari, dos personagens que ela encontra. Acho incrível. Quando eu fiz, não pensei. O que não quer dizer nada. A gente é quem menos controla o que a gente faz. Quem vê o sentido é o outro, o que me deixa superfeliz. Mas não é comum eu trabalhar com uma referência mais clara”, afirma Nuno.

Das percepções compartilhadas entre intérprete e o criador, a maternidade foi um importante elo de ligação. “Nesse período, o Nuno perdeu a mãe e eu virei mãe. As músicas que ele me mandou têm essa temática presente. Poeira é como se fosse a mãe dele depois de morta falando com ele”, relata ela. 

As músicas raramente são alegres, ainda que o sol seja uma figura recorrente na poesia de Nuno. “O Clima brinca que eu nunca teria feito uma canção sem a palavra sol. De fato, uso muito esse termo, como um sinal de potência, mas como uma luz que te cega e vela as coisas. Meu trabalho, em geral, não é solar, às vezes eufórico, mas não solar no sentido da felicidade, apolíneo – apesar de eu amar o Matisse, que é uma das coisas que mais gosto na vida”, pondera o escritor. “Esse disco vem para dizer: ‘A tristeza também é bonita!’”, sintetiza Mariana. 


Tudo o que sabemos sobre:
Mariana Aydarmúsicanuno ramosduani

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.