Gustavo Mikaell
Gustavo Mikaell

Mariama põe a malemolência da viola caipira em peças para violino

Violinista resgata obra de Flausino Vale, músico e advogado hoje praticamente desconhecido, mas que foi editado por Heifetz

João Marcos Coelho, Especial para Estadão

10 de janeiro de 2022 | 15h00

Jascha Heifetz, Zino Francescatti, Isaac Stern, Henryk Szering e Ruggero Ricci. Todas estas estrelas do violino clássico no século 20 tocaram e gravaram Ao Pé da Fogueira, peça de 1min30 para violino solo, assinada por um brasileiro hoje praticamente desconhecido, o dublê de violinista e advogado Flausino Vale (1894-1954), nascido em Barbacena, Minas Gerais. Ela virou celebridade ao ser editada em 1937. Heifetz encantou-se e providenciou o arranjo para violino e piano que correu mundo.

Mas Flausino não compôs só um “prelúdio característico e concertante”, e sim um ciclo de 26 peças calcado no encantador universo musical da viola caipira, pelo qual o advogado e músico era apaixonado. Um monumento só revelado nas últimas décadas.

A audição destes prelúdios é impactante. Eles são corretos do ponto de vista musical, mas embebidos no maravilhoso e visceral universo da viola caipira. E isto os torna únicos, saborosíssimos. A violinista brasileira Mariama Alcântara acaba de lançar no mercado internacional um álbum precioso pelo selo italiano DaVinci, no qual interpreta os 26 prelúdios e também realiza a primeira gravação mundial da partita encomendada a André Mehmari Concertantes para Violino Só

Mariama com “m”, sim. Seu pai deu-lhe este nome por causa do poema Invocação a Mariama, de Dom Hélder Câmara (1909-1999), arcebispo de Olinda e Recife que liderou a resistência católica à ditadura militar. Pois Mariama diz em entrevista ao Estadão que conheceu a música de Flausino “ainda como estudante na Universidade Federal da Paraíba, ao me fascinar com prelúdio nº 1, Batuque”. 

Sua tese de doutorado fluiu naturalmente para o universo da música caipira e sua influência na escrita de Vale. A paixão por este universo musical tão brasileiro veio do berço: “A música sempre fez parte de minha vida”, conta. “Meu pai, Salvador de Alcântara, é violonista e bandolinista, amante do baião e do choro além de professor de música na Universidade Federal da Paraíba e fundador do Quinteto Itacoatiara. Cresci no meio de ensaios e rodas de choro com ele. Aos 6 anos, lembro de ouvir o violino em um dos ensaios do Quinteto Itacoatiara e imediatamente me apaixonei pelo instrumento. Meu pai queria que eu aprendesse violão, mas insisti no violino até começar, aos 7 anos, aulas do instrumento pelo método Suzuki”. 

Sua vida definiu-se pela música, como a de tantas outras crianças e adolescentes, a partir da experiência mágica de participar de um Festival de Música. “Foi no Festival Virtuosi em Recife que, impactada pelas aulas com Soh-Hyun, da universidade norte-americana de Memphis, decidi dedicar-me integralmente à música. Aprendi tanto naquelas aulas que fiquei determinada a fazer meu bacharelado com ela em Memphis”. 

Diferencial

Agora, no último ano do seu doutorado, Mariama estuda com Ed Dusinberre e Harumi Rhodes, violinistas do celebrado Quarteto Takacs.

Isso ajuda a explicar o diferencial de sua interpretação destes 26 prelúdios. Ela nasceu neste universo musical. Suas leituras colam-se no modo de tocar dos violeiros brasileiros. Até então, eu conhecia apenas a gravação de Cláudio Cruz, de poucos anos atrás. Um rápido confronto entre algumas versões de Ao Pé da Fogueira confirmou a primeira impressão. A gravação de Heifetz, com piano, está longe do que Flausino queria. Cláudio faz uma leitura corretíssima. Mas a versão de Mariama demonstra a maciez e a malemolência características das modas de viola, raros perfumes que se perdem nas leituras anteriores.

E o bom é que ela tem consciência disso: “Conheço a gravação do Claudio Cruz! Acredito ter conquistado em minha interpretação uma abordagem mais improvisatória, inspirada nas raízes da música caipira”. 

Um acerto que se completou com a encomenda a André Mehmari, “A partita é outra dessas encomendas que começaram em minha vida aos 13 anos de idade e há mais de 15 anos acontecem ininterruptamente, por meio de músicos ou instituições que confiam em minha caneta (técnica) e em meu coração musical (assunto maior)”.

Sobre a música de Flausino, que conhece bem, considera “uma delícia sua escrita idiomática e brasileira, um compositor desligado da academia e completamente intuitivo. Talvez todos os compositores sejam ‘intuitivos’ ou pelo menos dependam do imponderável do instinto criativo que pouco ou nada tem a ver com treinamento técnico”. Sábias palavras.

A partita tem sete movimentos: Devaneio (a meio-caminho de uma sarabanda e o tom choroso do mundo caipira); Choro (inteirinho em delicioso pizzicato, quando o violinista toca as cordas com os dedos, com direito a citações de Nazaré); Lamento remete à música barroca; Furioso explora sonoridades percussivas à Bartók; Moto perpétuo remete às semicolcheias de tom bachiano; Ária Para Árida, na quarta corda brinca com a melodia famosa de Bach e a alusão ao clima árido do sertão nordestino; e Rabeca encerra a partita com um sacudido baião.

Um duplo e virtuoso acerto. Mehmari, como Mariama, é devoto de Flausino Vale. Ela em seu primeiro e corajoso álbum, ele já frequentador do universo musical do autor de Ao Pé da Fogueira. Esta já é sua segunda encomenda de obra em torno dele. “Compus outra obra baseada nestes interessantíssimos prelúdios desse mineiro audaz. A peça se chama Asas Inquietas, Canetio Solto e foi encomenda da Orquestra de Mato Grosso para concerto com Emmanuele Baldini”.

 

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