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Maria Schneider mostra os sons mágicos das planícies de Minnesota

Livro acompanha CD da maestrina e compositora

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

05 de junho de 2015 | 08h00

NOVA YORK - “Você não apenas ouve um CD da Maria Schneider. Você tem uma experiência com ele.” O comentário de um crítico de jazz canadense não poderia ser mais bem aplicado a The Thompson Fields, a primeira gravação da compositora e maestrina com sua orquestra em oito anos. Valeu a espera, reagiram outros críticos, nesta semana que seguiu o lançamento.

Um suntuoso livro com texto, ilustrações, fotos da natureza de Minnesota e gravuras antigas de pássaros embala o CD que sai, mais uma vez, pelo selo pioneiro em crowdfunding ArtistShare, no qual a musicista se tornou, em 2004, a primeira a ganhar um prêmio Grammy com uma gravação – Concert in the Garden – feita fora do sistema de uma gravadora convencional.

Os Thompson Fields (campos) aludidos na música título são uma expansiva pradaria na fazenda da família Thompson, amiga dos Schneiders. Uma paisagem como as que dominam o sul de Minnesota, onde Schneider nasceu em Windom, população 4.600. É possível tirar a artista de Windom, que nem loja de discos tinha, quando ela crescia, mas não é possível tirar Windom da artista. 

Trinta anos como residente ativa da cena do jazz de Manhattan não sacudiram a memória que a inundou numa noite em que levou a orquestra para tocar na cidade natal. Com Tommy Thompson, seu amigo de infância, ela escalou o silo da fazenda, bebeu do vento, do céu incomparável do Meio-oeste americano, da vegetação ondulante e começou a compor a peça há cinco anos.

Na noite de terça, 2, primeiro dos shows da semana de lançamento do CD, o clube nova-iorquino Birdland estava cheio, mas uma pequena parte do público era responsável pela música que íamos ouvir. São participantes que investiram na gravação e um grupo seleto que patrocinou comissões individuais como Lembrança, dedicada ao compositor e maestro brasileiro Paulo Moura. 

Um comentário feito pela maestrina com esta repórter durante as gravações de um especial para o GNT, em 2000, levou à sugestão do encontro com Paulo Moura em Manhattan. Schneider tinha sido assistente e colaboradora do lendário Gil Evans, o maestro arranjador de clássicos como Miles Ahead e Sketches of Spain com Miles Davis e disse que lamentava Evans ter morrido, em 1988, sem encontrar um possível irmão musical em Paulo Moura.

Depois do encontro, o maestro carioca levou Maria Schneider, que visitava o Rio, para ouvir um ensaio da escola de samba Imperatriz Leopoldinense, em 2001. Ela nunca se esqueceu da noite, parte da inspiração para a canção Lembrança, gravada com participação do percussionista brasileiro Rogerio Boccato. Lembrança tem uma progressão harmônica em diálogo com a percussão que sugere a ideia de uma compositora impressionista inspirada por um samba-exaltação. 

O romance de Maria Schneider com a música brasileira não ficou dormente neste hiato de lançamentos da orquestra. Em 2013, seu Winter Morning Walks ganhou três Grammys de música clássica por duas composições numa comissão para a soprano Dawn Upshaw. Uma das peças é Carlos Drummond de Andrade Stories, uma seleção de cinco poemas de Drummond musicados e traduzidos pelo poeta recentemente falecido Mark Strand. 

Em Thompson Fields, ótimos solistas e veteranos da orquestra, como os saxofonistas Scott Robinson, Donny McCaslin, Steve Robinson, Greg Gisbert, no flugelhorn, e o pianista Frank Kimbrough, voam alto, premiados com frases musicais escritas com seu talento individual em mente.

Uma faixa-bônus de The Thompson Fields é Lembra de Mim. Maria Schneider pediu a Ivan Lins para gravar sua canção no Rio, trouxe Rogério Boccato e Romero Lubambo para completar o arranjo e telefonou para Toots Thielemans, hoje aposentado em La Hulpe, Bélgica. Thielemans fez 93 anos em abril e resistiu, por ter perdido boa parte da audição. Mas a conversa fez Toots tocar mais e mais. Schneider tomou um avião com um engenheiro ao encontro do amigo e eles gravaram Lembra de Mim na sala de jantar de Thielemans.

As primeiras resenhas elogiosas e a série de shows no Birdland deram um empurrão na venda de The Thompson Fields que preocupa Maria Schneider. Preocupa? Os downloads em websites continuam, mas a tiragem física do CD luxuoso, de 18 mil exemplares, dificilmente pode ser reeditada por uma artista independente. “Uma gravadora não investiria neste objeto,” diz ela ao Estado. Entre tarefas que raramente sobrecarregam a rarefeita classe de artistas de gravadoras, Schneider não hesita sobre a satisfação de fazer música com o apoio de fãs. “Ganho eu e a música. Numa época de acordos escusos com websites de streaming, quando a criação é tão desvalorizada, acho que as pessoas querem possuir a arte que ajudaram a produzir.”


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