Maria Rita seduz platéia em show em SP

Maria Rita Mariano volta amanhã ao palco do Supremo Musical, para o segundo show da temporada que marca sua estréia em solo. A primeira apresentaçãofoi na segunda-feira. Maria Rita subiu nervosa à cena, comoconfessou. Driblou o nervosismo logo em seguida. Fez umaapresentação memorável. Suplantou as expectativas de uma platéiaque acreditava previamente nela.Acreditava mas queria provas concretas - crédito fácilvai fácil para o descrédito. Maria Rita, afinal, é filha de ElisRegina. Há 20 anos que os interessados em música procuram pela"nova Elis Regina", expressão que, pelo desgaste, perdeuespecificidade e passou a designar a procura por uma grandecantora. Muitas novas cantoras, aliás, receberam o rótulo, emgraus variados de impropriedade.E se Maria Rita Mariano não quer ser - e não é, porqueseria redutor - uma nova Elis Regina, mesmo que certasexpressões e gestos, a abordagem e o abandono de algumas notas,um jeito de jogar o corpo façam lembrar a mãe -, ela é, sim, semquestões, uma grande cantora.Vem imaginando o espetáculo-solo há quase um ano. Chamoupara trabalhar com ela três jovens músicos extraordinários, - opianista Tiago Costa, o contrabaixista Giba Pinto e o bateristaMarco da Costa. Em dois números do show - Lavadeira do Rio,de Lenine, e Um Querer, de Daniel Carlo Magno, nome novosurgido na cena paulistana - contou, ainda, com a participaçãodo percussionista Da Lua.Montou um roteiro enxuto, mas abrangente, com 13 músicas apenas - duas delas reprisadas no bis. Caminha, o repertório,de um abertura com Seduzir, sobre a arte de cantar, deDjavan, a Rita Lee (Só de Você, com levada de samba, ePagu, em pop sapeca) e a uma graça perdida de Simonal,Menininha do Portão, anos 60, contida no segundo volume dodisco Alegria, Alegria; de Lenine (além de Lavadeira doRio, também a pungente canção O Silêncio das Estrelas) aCésar Camargo Mariano e Lula Barbosa (O Que Fazer de Mim);bela toada de Natan Marques, com letra de Murilo Antunes(Vero) e linda canção do mineiro Renato Motha e, noencerramento, um número alegre do carioca Jorge Vercilo, doreino do pop (Do Jeito Que For).Fantasma deve ser, tem sido, encarar o repertório damãe. Maria Rita é consciente das comparações e tomou coragem derevisitar Entradas e Bandeiras, de Milton Nascimento eFernando Brant, e o forte, desafiante Não Vale a Pena, deJean Garfunkel.A corajosa e brilhante Maria Rita exorciza em suaestréia o fantasma que poderia ensombrear-lhe a vida artística.E o que a platéia pôde ver, na segunda-feira, no Supremo, e porcerto verá, daqui por diante, onde quer que ela mostre sua arte,foi uma cantora densa e cheia de graça, um bicho de palcocarismático, fascinante, de quem é impossível desgrudar os olhose desviar a audição, uma intérprete sensível e inteligentíssimaconduzir os sentimentos da platéia, tanger o público, aliciá-lo,encantá-lo por ser aliciado.Não é, essa moça, uma estréia promissora - é uma estrelaque nasceu privilegiada de talento e sensibilidade e disposta alutar para torná-los maiores e mais expressivos. E se é mesmonecessário falar de Elis Regina quando se fala de Maria Rita,que seja para dizer que Maria Rita pode ser para a músicabrasileira o que foi Elis: a criadora ousada e tecnicamenteperfeita que jamais respeitou barreira de modismo nem evitoudesafios.Na segunda-feira, provou que tem condições para ocupar oposto de liderança, estrela de brilho próprio e gênio que éseu.Maria Rita Mariano. Quintas-feiras, às 22 horas.R$ 2500. Supremo Musical. Rua Oscar Freire, 1.000, São Paulo, tel.3062-0950. Até 27/2.

Agencia Estado,

12 de fevereiro de 2003 | 16h28

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