Maria do Céu resgata obra de Chico Soares

Francisco Soares de Souza gravou, ao que se sabe, apenas um disco. Um Recital no Clube do Violão foi lançado em 1961, pela então gravadora Philips. Até a década de 90, o raro LP era a única forma de conhecer a obra do compositor cearense, que nasceu em Quixadá, em 1905. Na década de 90, o sobrinho do músico, Airton da Costa Soares, responsabilizou-se por organizar a obra do tio. Levou partituras e gravações para alguns violonistas conhecidos. Sebastião Tapajós foi o primeiro a gravar. Cristina Azuma, violonista radicada em Paris, aproveitou o lançamento de um álbum de partituras de Francisco Soares na França e gravou outras quatro. Foi por meio desse trabalho de divulgação desenvolvido por Airton que a violonista Maria do Céu, ex-integrante da Orquestra de Violões do Rio de Janeiro, entrou em contato com a obra do compositor de Quixadá. Nos recitais que fazia, costumava tocar uma, duas canções de Francisco Soares. Desse primeiro contato surgiu a idéia de gravar um álbum dedicado ao violonista. Há dois anos conseguiu aprovação do Ministério da Cultura, via Lei Rouanet, para captar recursos. Os patrocinadores não apareceram e ela decidiu bancar o projeto sozinha. Levou quatro meses, de janeiro a abril deste ano, para gravar as 12 composições que integram o disco. Cinco delas são inéditas: Clipe 1, Clipe 2, Aquário, Choramingando e Choro nº 19. Caboré 1 e Peneirando estão no disco de Tapajós. Os choros Cangapé e Tira-Teima e a valsa Jane foram gravadas em Um Recital no Clube do Violão. E Samburá e Cangapé 2 quem trouxe à tona foi Cristina. "Eu não considero ter feito uma pesquisa", diz Maria. "Porque não fui eu que o achei, foi ele que me achou", completa. A violonista diz que se identificou muito com a maneira de Soares compor. "Ele tem bom humor, sinto alegria e inteligência nas composições", explica. Ela optou, no disco, em desenvolver sua própria linguagem, ao invés de procurar reproduzir a maneira de interpretar do violonista cearense. Acompanham-na em Choros do Ceará o percussionista Di Lutgardes e o baixista Rodrigo Sebastian. O primeiro toca inúmeros instrumentos, como xequerê, moringa, reco-reco. O segundo, contra-baixo elétrico. "Adoro instrumentos graves e acho a moringa o melhor acompanhamento percussivo para violão", diz a violonista, explicando suas preferências. São elas que dão ao disco um tom diferente do que habitualmente se ouve quando o assunto é choro. "Não quis repetir a formação de regional, em que percussão é o pandeiro e os instrumentos que sobressaem são o bandolim ou o cavaquinho", comenta.Chico Soares, como era conhecido pelos amigos, morreu em 1986. O tom das matérias publicadas nos jornais Diário do Nordeste e Jornal do Leitor, que davam conta de sua morte, era de surpresa. Não entendiam os jornalistas como um homem tão importante para a vida cultural da cidade de Fortaleza estivesse relegado ao ostracismo. Soares foi o fundador do Violão Club do Ceará, e nos anos 30 já era conhecido por seus dotes musicais na cidade, como escreve o parceiro, também músico, José Vasconcelos, em crônica publicada no Jornal do Leitor, em 1990. Na PRE-9, principal rádio do Estado, apresentava o programa Uma Voz e um Violão, no qual divulgava o trabalho de músicos de sua terra. Para Maria do Céu, Soares foi um grande nome do choro nordestino, que se caracteriza menos pelo virtuosismo, mais pelo apreço à melodia e ao ritmo. Choros do Ceará - Maria do Céu interpreta Francisco Soares de Souza; Compras pelo site http://www.samba-choro.com.br/compras/chicosoares; Preço: R$ 15

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