Maria Callas, a mulher, a soprano e o mito

Cantora volta a ser lembrada em disco, livro e ainda será vivida no cinema por Penélope Cruz

João Luiz Sampaio, de O Estado de S. Paulo,

06 de janeiro de 2010 | 15h03

SÃO PAULO - Um jornalista escreveu o livro; um produtor já prometeu o filme; e a gravadora lançou o disco. O mito Maria Callas segue bem cotado no mercado da ópera - quando o assunto é resgatar a lendária soprano do século 20, que viveu nos palcos as grandes mulheres da ópera e, na vida real, sofreu com romances e histórias dignas de um libreto, parece não haver limites.

 

som Ouça trecho de 'Madame Butterfly'

O livro chama-se Orgulhosa Demais, Frágil Demais (Record, 304 págs., R$ 39), e é uma biografia romanceada da soprano americana de ascendência grega. Seu autor, o jornalista milanês Alfonso Signorini, pesquisou as cartas escritas por Callas ao longo da carreira para recriar sua vida, da infância atribulada ao fim melancólico, passando pelo casamento desfeito, as paixões célebres e, claro, a carreira de sucesso.

O filme, cujo roteiro será baseado no romance, ainda não tem data para estrear - mas, no fim do ano, o produtor Guido de Angelis anunciou a atriz Penélope Cruz como intérprete, nas telas, do papel da diva. Já o álbum duplo da EMI Classics, Callas & Friends, a mostra em gravações ao lado de grandes parceiros, como os tenores Alfredo Kraus, Giuseppe Di Stefano, Nicolai Gedda, o barítono Tito Gobbi e a meio-soprano Fiorenza Cossotto.

Dizer que nenhuma outra soprano gravou - e vendeu - tanto quanto Maria Callas nem começa a explicar o tamanho da importância que ela adquiriu para o público da ópera. Em vida, cantou nos principais teatros do mundo, era disputada por maestros, diretores; recuperou óperas como Medeia e Norma, então fora do repertório, e reinventou Traviata, Butterfly, Tosca, Aida, enfim, toda a lista das grandes personagens femininas da música lírica; longe do palco, foi garota propaganda de grifes, frequentou o jet set internacional, encantou o cineasta Luchino Visconti, filmou com Pasolini - e viveu o escândalo do caso amoroso com o milionário grego Aristóteles Onassis.

Não demorou muito, após sua morte, em setembro de 1977, para que o mito começasse a ser construído. Seus biógrafos se apressaram em estabelecer paralelos entre vida e obra. De que outra maneira, afinal, seria possível explicar a intensidade que ela exibia no palco? A infância difícil, o início da carreira em cabarés do porto de Atenas, a traição de Onassis, que a trocou por Jacqueline Kennedy... Sua trajetória era digna das heroínas trágicas da ópera. Callas não interpretou a cortesã Violeta, em La Traviata - ela foi Violeta; foi abandonada, como Butterfly; foi vítima da paixão, como Tosca.

Em Orgulhosa Demais, Frágil Demais, Signorini renova a aposta nessa simbiose entre vida e obra. O livro, que se lê como um roteiro de cinema, tem como base a correspondência de Callas, em muitos momentos reproduzida literalmente, o que garante certa fidelidade histórica. Mas, no geral, a narrativa de Signorini é um amontoado de clichês. "Estava sentada num maravilhoso gramado verde e fofo. Sentia dentro de si o calor do sol. O céu estava cor de anil, com algumas nuvens brancas, que brincavam com o vento"; "Maria havia decidido recuperá-lo. Sempre que ele chamava, não conseguia rejeitá-lo. Ela gostava de ser seu porto seguro. O seu Aristo, no fundo, tinha um coração de velho marinheiro: aventuroso como Ulisses, desbravava terras estrangeiras, mas, no coração, sabia que a casa era uma só. E a casa dele era Maria"; "Maria vencera: pelo menos na morte, estaria para sempre junto ao seu homem." Se a correspondência de Callas ensina alguma coisa é que não havia nada de óbvio em seu temperamento. Contraditória e imprevisível, olhava o mundo com uma mistura de ingenuidade e arrogância. É uma grande personagem, não há dúvida, mas quando é convertida em heroína de ficção perde um pouco de sua humanidade.

É por isso que, muitas vezes, o melhor a se fazer é simplesmente ouvi-la cantar. O álbum duplo dedicado a seus duetos é primoroso. Não há nada de novo - as gravações de Callas já foram lançadas e relançadas à exaustão. Mas as opções, aqui, recaem sobre discos menos conhecidos. O registro emocionante do dueto de Madame Butterfly, por exemplo, é o realizado com o tenor Nicolai Gedda; a Tosca é a gravada com Carlo Bergonzi; na Traviata, contracena com Alfredo Kraus; no Trovatore, com Giuseppe Di Stefano; em La Gioconda, com Fiorenza Cossotto. É Callas no seu melhor, ao lado de boa parcela do que havia de mais interessante no canto lírico dos anos 50 e 60. A voz não é particularmente bonita, mas a riqueza de coloridos e sensações que transmite não tem concorrência até os dias de hoje. Se o mito Callas persiste, não custa de vez em quando a gente lembrar que Maria Callas, a mulher e artista, é muito mais humana. E interessante.

Leia um trecho do livro:

"Maria e Aristóteles começaram a falar da própria vida, com simplicidade. Ele, de quando, para conseguir algum dinheiro, trabalhava como copeiro numa aldeiazinha da Tessália. Ela, de quando escavava a terra com suas mãos de adolescente para procurar algum tubérculo selvagem, no tempo da guerra. "Como Scarlett O"Hara na cena famosa de ...E o Vento Levou", ria Maria. Ao lado de Aristóteles, as horas passaram rápidas naquela noite. O que a fascinava naquele homem era a energia, a vontade de viver. Uma estranha força animal que ele emanava e transmitia aos outros.

- E a senhora vai cantar aqui em Veneza? - perguntou Onassis à queima-roupa.

- Oh, não. Cantarei em 7 de dezembro em Milão.

- Certo. Dessas canções eu não entendo nada. Quando vocês cantam, não se entende as palavras - riu Aristóteles.

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