Fabio Motta / Estadão
Fabio Motta / Estadão

Maria Bethânia lança CD e DVD para comemorar 50 anos de carreira

Álbum 'Abraçar e Agradecer' sairá pela gravadora Biscoito Fino e registra show realizado em São Paulo em agosto

Pedro Antunes, Enviado Especial

02 Dezembro 2016 | 04h00

RIO - A palavra, para Maria Bethânia, vem fácil. Articula suas histórias com pormenores e pontuações exatas. Dramatiza-as com ponderação, com as mãos livres a gesticular e, por vezes, para marcar momentos incisivos, com toques firmes das pontas dos dedos na enorme mesa de madeira maciça. O tema, às vezes, vem ao acaso. Fala-se de cigarro, vício que ela manteve por “muito tempo”, quando fumava uma marca estrangeira de cigarros mentolados e finos, deixados para trás há mais de 40 anos, após a primeira viagem à Amazônia. E assim, sem a necessidade de direção, o papo com Bethânia vai e vem. 

Na pompa da Villa Riso, espaço e casarão datado do século 18 localizado em São Conrado, no Rio de Janeiro, Bethânia recolhe os cabelos grisalhos em um coque próximo à nuca, após deixá-los soltos para as sessões de fotos. Exibe uma semelhança física cada vez maior com Dona Canô, mãe dela, de Caetano Veloso e de outros seis filhos. É naquele espaço onde a cantora costuma receber a imprensa para conversar sobre seus trabalhos mais recentes. 

São, a partir de 18 de junho deste “2016 difícil”, como ela diz, 70 anos de idade da baiana de Santo Amaro. Desde o ano passado, ela comemorava outra marca, os 50 anos de carreira, com uma bem-sucedida turnê de nome Abraçar e Agradecer, cujo próprio título já entrega o caráter de agradecimento dessa performance na qual alia as palavras cantadas, alma dela como artista desde a estreia meio século atrás, com as palavras faladas que sempre lhe foram importantes. 

O 2016 marca o lançamento da versão em CD e DVD do show – a apresentação escolhida para a gravação foi a de São Paulo, em agosto do ano passado, no Tom Brasil. CD e DVD, sendo que no último há um livreto saboroso com fotos, textos e mais detalhes sobre a turnê, são lançados pela gravadora Biscoito Fino. 

O tempo de mais de um ano entre o show em São Paulo para a gravação, ou o início do projeto de comemoração de 50 anos de carreira, até o momento da chegada da versão física, traz uma perspectiva diferente da artista de hoje com aquela que estava prestes a embarcar nessa jornada de Abraçar e Agradecer. “Ainda sou a mesma pessoa, a mesma artista. O registro aqui é a vida que uma artista viveu. Já foi vivida. Agora, está vivendo um outro pedaço, que não sei ao certo qual é, mas é isso. Foi vivido e encerrado”, explica Bethânia. “Acho bom que saia o registro. Afinal, é uma data perene. São 50 anos, são bodas de ouro. E, agora, me dá espaço vazio para caminhar.” 

São, no repertório do DVD, 41 canções. Para ela, trata-se de “uma síntese da carreira”, afirma. “Representa a devoção ao meu ofício, de minha escolha como intérprete”, diz Bethânia. “Esse é o meu olhar para o Brasil. Eu me sinto intérprete deste país, através das cantigas dos compositores que pensam, escrevem, sentem, eles me passam a informação e eu as jogo, espalho. Eu as semeio.” 

Comemorar os 50 anos porque, para Bethânia, isso faz bem. “É o resumo de tudo o que fiz, uma memória, o que eu fiz no momento em que sentia. Não tem só lembranças boas ou más, lembranças bonitas ou feias. Mas é a minha atualidade”, ela explica. Bethânia sempre se satisfez em registrar aniversários da carreira. “Comemoro os 10 anos, os 15 anos, os 20 anos, os 40 anos, os 50 anos, os 60 anos, os 80 anos”, ela brinca, já de olho no futuro. 

Por mais que tivesse feito dois shows amadores ainda na Bahia, na companhia de Gal Costa, Gilberto Gil e Caetano Veloso, Bethânia considera a estreia no Rio, no espetáculo Opinião, em 13 de fevereiro de 1965, como seu início. Na ocasião, foi chamada para substituir Nara Leão – e lá surgiu seu primeiro sucesso, Carcará, que só esteve presente nos shows de Abraçar e Agradecer em formato instrumental. “Adoro comemorações, diferentemente de Caetano (Veloso, irmão quatro anos mais velho). Até estranhei quando ele quis comemorar 50 anos de carreira com o (Gilberto) Gil”, ela lembra, rindo do irmão. “Eu gosto das comemorações, gosto de aniversário. Sou geminiana.” 

Não que a passagem do tempo crie uma linha imaginária, uma divisão entre o antes e o depois. Para Bethânia, tudo significa um momento, o hoje. “O que me importa é que cada uma dessas celebrações seja quem eu sou, naquele momento. Faço do meu jeito, à minha maneira, mas isso não quer dizer que exista um fim, uma marcação nítida.” 

Para Bethânia, o tempo flui como as palavras tão presentes na vida da intérprete. Da literatura à música, que lhe foi apresentada de fato aos 8 anos, pelo irmão Caetano. “Vivíamos em uma casa com música 24 horas por dia”, ela recorda. “E Caetano me ensinou tudo, a entender o cantar, me ensinou a escutar.” 

Em outubro, a palavra levou Bethânia a Moçambique pela primeira vez. “Foi uma viagem dura, atravessar até o oceano Índico”, ela relembra. Lá, passou 10 dias – a viagem incluiu dois dias na África do Sul. Foi a convite do escritor Mia Couto, para participar do documentário Kiringana, palavra dita pelos moçambicanos antes de interromperem as conversas sobre o tempo presente para darem início às histórias. Fez um mergulho no universo literário de Couto e José Eduardo Agualusa e de outros autores africanos. “Mas todo o sentimento ali foi recíproco”, ela conta, ao lembrar de um recital presenciado em uma escola pública distante, na qual um jovem menino executou Sonho Meu, de Dona Ivone Lara, sozinho, com voz e guitarra. 

A palavra vem e vai para Bethânia, que nos palcos aprendeu com o diretor Fauzi Arap a incluir trechos de declamações entre as canções, mas some quando a artista está prestes a subir ao palco, contudo. Horas antes de se apresentar, o silêncio e a reclusão. Em imagens pouco vistas, o DVD de Abraçar e Agradecer registra o momento da transição entre a pessoa do cotidiano e a Bethânia cantora. O registro ficou a cargo de Bia Lessa, diretora do espetáculo, que pediu para gravar aquele momento. “Achei que ela merecia”, conta Bethânia. É quando as histórias precisam cessar. “Tenho essa necessidade. Sou muito antenada, mexo com tudo ao mesmo tempo. Se não fizer um exercício de concentração, isso invade o palco. E eu gosto de chegar limpa.” 

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