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Maria Bethânia é a voz que canta o Brasil e a força que nunca seca

Cantor e compositor Chico César escreve sobre a artista: 'quem é essa mulher?Uma costuradeira de poemas e canções'

Chico César, Especial para O Estado de S. Paulo

08 Março 2015 | 03h00

"Maria Bethania, please send me a letter.” Quando Caetano compôs e pôs esses versos num disco triste que gravou no exílio em Londres, no alvorecer dos anos 1970, rogava por notícias do Brasil sob a ditadura militar. Hoje, podemos pensar que, além de dizer “escreva pra mim”, ele também poderia estar dizendo “escreva por mim”. Com seu canto, com seu corpo, seu cabelo, sua onda, seus trajes, sua imprevisibilidade: escreva por mim, me represente. Parece ser isso que desde seu aparecimento, cantando o Carcará de João do Vale, nós brasileiros confessamos nossa culpa e nosso pecado de não conseguirmos dizer tudo se Bethânia não o fizer conosco. 

Sim, nós que pedimos que nos escreva e por nós escreva uma carta todos os anos. Lance um disco, monte um show, fale Fernando Pessoa e seus heterônimos e nos alivie dessa angústia da balbúrdia e do conturbérnio vil com a vulgaridade que nos assola e nos faz rastejar sob as tolices e os absurdos que somos obrigados a nos acostumar a ouvir, dizer, cantar, dançar, silenciar. Principalmente sobre os absurdos, silenciar: a matança do povo indígena que dizem desaparecimento, o assassinato da freira ou do padre que defende os sem-terra, a eliminação física dos líderes dos sem-terra, a legitimação da diva bruta do agronegócio e da poluição dos alimentos, das mortes de tanta gente, tornada ministra, gente do Estado. “Please, send me a letter”. 

Quem é essa mulher? Uma costuradeira de poemas e canções, emendando uns nos outros, remendando o mundo com a voz e o corpo em cena. Bethânia, a bordadeira, bordando uma carta sem fim pelo Brasil, a América do Sul, a língua portuguesa. Para nós, por nós. Não que seja porta-voz, nada disso. Mas sabe aquele grito de alerta que a gente confunde com as sirenes das fábricas, o sinal do ferryboat, o gemido das baleias gozando, parindo ou morrendo? Pode ser ela, a força das águas que rebentam do interior da terra e a percuciência das águias. Generosa, cantando músicas que ninguém canta, gravando compositores ávidos por serem gravados e de quem pouca gente ouviu dizer, cúmplice e parceira. Segue sendo a senhora de poderoso engenho ao unir o fugidio e o perene, dando leveza a este último e longevidade ao primeiro. A ela nosso amor e nossa gratidão.

CHICO CÉSAR É CANTOR E COMPOSITOR

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