Maria Bethânia chega a São Paulo com o show 'Abraçar e Agradecer'

Cantora fala sobre o novo show, além de vida e carreira

Entrevista com

Maria Bethânia

Renato Vieira-Enviado Especial/ Rio, O Estado de S. Paulo

08 Março 2015 | 03h00

Perto do final do show Abraçar e Agradecer, no qual celebra 50 anos de carreira, Maria Bethânia diz não se arrepender de nada ao interpretar Non, Je Ne Regrette Rien, clássico de Edith Piaf. “Quando eu sentei para começar a fazer repertório para o show dos 50 anos, ela veio quase que abrindo e eu quis entender por quê.” É o reflexo de uma carreira sem concessões, respaldada por seu público fiel. Prova disso é que os ingressos para as cinco noites de apresentação no HSBC Brasil, a partir do dia 14, estão esgotados. 

Será um ano de trabalhos e celebrações. Além da turnê, Bethânia lança o DVD e o livro do espetáculo Bethânia e as Palavras, e será homenageada no Prêmio da Música Brasileira. Sua voz também deve ser ouvida com frequência na próxima novela das nove, Babilônia, para qual registrou Eu Te Desejo Amor, versão de Nelson Motta para Que Reste-t-il de Nos Amours, de Charles Trenet. Nesta entrevista, Bethânia fala sobre o novo show, família, amigos e carreira. E segue em frente. 

Antes de você subir ao palco na estreia no Rio deste show, você pensou em tudo o que havia realizado até ali? 

Não, não dá tempo, antes de entrar no palco tenho que pensar no show, naquele show.

Não houve nenhum sentimento de “estou fazendo 50 anos de carreira”?

Ah, isso eu tive todo o tempo, e, fazendo o espetáculo, tive isso todos os dias, praticamente. Mas não dá tempo antes de entrar em cena de querer reviver. A cena é dona, ela manda, você tem que entrar servindo ela. 

Todos os seus grandes compositores, entre eles Gonzaguinha, Chico Buarque e Sueli Costa, estão no repertório. É como se eles estivessem homenageados.

Eles fazem parte (da minha carreira). E para mim o jeito mais profundo de cantar as canções deles é esse que eu apresento no show. 

Por marcar os 50 anos de carreira, você poderia ter feito um show retrospectivo, mas não fez. É algo coerente com a sua carreira, não ir pelo estabelecido.

É porque eu sou hoje, eu só sei subir no palco hoje, o que me move hoje. É lógico que a memória está aqui, está tudo representado, tudo homenageado, não só os compositores, como os escritores, como os diretores, então está tudo muito claro para mim, agora, é como eu hoje sinto tudo isso.

Carcará, seu marco inicial, ficou como uma vinheta.

Não estava nem no repertório, os músicos que fizeram para mim. Quando me mostraram, falei: “Que lindo o Carcará”. Aí pensei: “Já que vocês vão me obrigar a ficar em cena ouvindo, não vou dar as costas ao Carcará, porque o Carcará está em mim cantando Roberto Carlos, Chico Buarque, Caetano, cantando Sueli, cantando Piaf, tem o Carcará dentro, então em tudo está o Carcará, foi a canção do meu início de carreira. E, quando eles fizeram uma espécie, quase que uma homenagem a mim, foi uma surpresa. Eu estava no ensaio quando me mostraram – normalmente a banda fica meio à frente, mas eu fui para dentro da banda. Fiquei muito comovida mesmo. Aí, em cena, falei com a Bia (Lessa, que assina a direção, cenografia e criação de luz ): “Já que eles fizeram isso, vou estar em cena, eu não dou as costas”. Ela compreendeu e eu fico ali. Nessa hora, com o show já terminado, dá para lembrar – eu posso pensar em tudo o que quero. 

Você está cantando Non, Je Ne Regrette Rien e diz não se arrepender de nada. 

Não. De verdade. E sou feliz dizendo. Eu sou fã da Piaf e conheço essa música desde sempre, acho linda. Quando a Cássia Eller fez uma regravação, fiquei muito impressionada, achei muito bonito, nunca pensei em cantar. Mas, quando sentei para começar a fazer repertório para show dos 50 anos, ela veio quase que abrindo e eu quis entender por quê. Naturalmente, 50 anos, uma olhada para trás... Mas ela veio tão feliz, ela veio assim, “não me arrependi de nada”.

Há 50 anos, você estreou em Opinião e, ao ser contratada pela RCA, pediu que Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa também fossem. Como é a relação entre vocês hoje?

Caetano é meu irmão de sangue. É o segundo compositor com quem mais trabalho. Ele e Chico são os dois mais importantes no meu repertório. Gil esteve em momentos grandiosos na minha vida, está no espetáculo dos 50 anos com Viramundo. A Gal se afastou da música, foi morar fora... Contato social quase nenhum, com nenhum dos três, nem meu irmão. Vejo meu irmão de fevereiro em fevereiro, em Santo Amaro da Purificação. Mas, no trabalho, sim, a gente se encontra. Para mim, (tem) o mesmo afeto.

Recentemente você teve três perdas. Dona Canô, sua irmã Nicinha e o diretor Fauzi Arap. Como essas perdas influíram na sua vida e no seu trabalho?

Sofri muito, sofro ainda, sinto muita falta. Mas tem uma coisa que me chegou como um presente. Meu sofrimento estava começando a fazer mal, estava sendo injusto com o bem-querer deles. Isso me ajudou a respirar. Minha mãe tinha e nos ensinou uma profunda referência à vida, uma gratidão pelo dom da vida. E fazer o primeiro espetáculo sem o Fauzi, ao mesmo tempo com muita saudade dele, louca para fazer para ele, para mostrar para ele. Porque, nas últimas vezes, nos últimos shows, sempre que eu ligava para fazer uma consulta, ou para fechar o roteiro, ele dizia: “você já sabe tudo que você quer, não adianta você mentir, porque eu sei que você mente”. E então eu...por que eu não vou acreditar nesse homem que me amou a vida inteira, entendeu? Tivemos a maior, a relação mais linda, de aluna e mestre. Tá aí, botei fé e fiz, fiz muito para ele mesmo. Ele tá homenageado de cima a baixo no espetáculo.

O segundo ato termina com uma música chamada Silêncio. É o que você deseja?

(A música é) de uma menina nova, extraordinária compositora (Flávia Wenceslau). Essa foi Chico César que me apresentou. Antes disso, simulo que “não me arrependo de nada”, que estou feliz. Mas eu quero ouvir o céu, quero ouvir a imensidão, quero continuar.

E o que você pretende a partir de agora?

Você acha que a essa altura do campeonato eu vou mudar alguma coisa? (risos). Eu pretendo seguir, não é? Como diz a música, a versão do Nelsinho (Motta), “vamos seguir”. 

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