Marcus Miller faz nova música americana

Álbuns de baixistas são raros, mas um disco como esse M2, do jovem prodígio do jazz Marcus Miller, é duplamente raro. Miller vem de uma longa militância limítrofe entre o jazz e outros gêneros mais afeitos à música pop (principalmente o funk e a soul music), contaminando-os com sofisticação e timing de improvisador.M2 (Telarc/Calber Music do Brasil) é o mais estupendo disco de jazz crossover deste início de década, fundamentalmente ancorado na música negra americana dos anos 70. "Gosto de manter as coisas num balanço, combinando R&B, jazz, funk e a coisa cinematográfica para ajudar na reflexão sobre o que está acontecendo no nosso mundo", diz Miller.Contando com uma pequena ajuda de uma legião de amigos, como o saxofonista James Carter e o cantor Djavan, Miller empreendeu uma pesquisa profunda e multicultural sobre a diáspora dos ritmos negros americanos.Nascido no Brooklyn, em 1959, Marcus vem de uma família de músicos. O pai tocou órgão em igrejas, foi diretor de coro e é parente de Wynton Kelly, pianista que tocou com Miles Davis durante os anos 50 e 60. Aos 13 anos, ele já tocava bem clarineta, piano e baixo e já escrevia música. O baixo tornou-se seu instrumento aos 15 anos, quando já estava vivendo em Nova York e tocando em diversas bandas.Também em Nova York, Miller tornou-se um músico de estúdio de prestígio, tendo trabalhado com Aretha Franklin, Roberta Flack, Grover Washington Jr., Bob James e David Sanborn, entre outros. Seu nome consta nos créditos de cerca de 400 discos, incluindo feras como Joe Sample, McCoy Tyner, Bill Withers, Elton John, Bryan Ferry, Jay Z, and LL Cool J.Em 1981, ele realizou um sonho de juventude e juntou-se ao grupo de Miles Davis, com quem ficou por dois anos. "Nada do que ele fazia era medíocre", conta Miller. "Aprendi com ele que você tem de ser honesto sobre o que é e o que faz e que, se você segue esses preceitos, não vai ter problemas."Mais adiante, Miller bandeou-se para o jazz quase muzak de David Sanborn, com quem gravou Voyeur, disco que valeu um Grammy a Sanborn. Miller ainda produziu vários outros álbuns premiados de Sanborn. Mas, em 1986, voltou a Miles Davis, seu mestre maior, e produziu o álbum Tutu, o primeiro de três que faria com Davis. Também produziu Al Jarreau, The Crusaders e Chaka Khan.Sua carreira-solo só decolou em 1993, quando gravou seu próprio disco-solo, The Sun Don´t Lie. Já vinha com a preocupação de fazer uma releitura da música negra. Mas só agora oito anos depois, ele consegue seu intento. Em faixas como Nikki´s Groove e 3 Deuces, a impressão que se tem é que Miller instaura uma nova era na música americana.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.