Wilton Junior
Wilton Junior

Marcos Valle e Azymuth recontam a história no palco do Blue Note

Shows desta sexta (15), às 19h e 22h, colocam no palco um dos encontros mais vitoriosos da música brasileira dos anos 1970

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

15 de fevereiro de 2019 | 03h00

Azymuth, aos navegadores do céu, é orientação. Sua origem é árabe, de as-sumult, e o significado vai no mesmo sentido: caminho, direção. Os dicionários trazem explicações mais técnicas de astrometria, falando do “plano que passa por uma estrela e a vertical do observador” ou do “ângulo desse plano com o meridiano”. Marcos Valle só precisava de um nome para a música que havia feito para abertura de uma novela da Globo, Véu de Noiva, de 1969, a primeira da história a contar com um tema criado por um brasileiro. Havia corrida de carros na trama, Emerson Fittipaldi estava no auge, e a ideia veio daí. Azymuth, o aparelho de orientação dos automóveis e dos aviões, seria o nome certo para nortear o que Marcos Valle havia e o que não havia pensado.

Seu novo encontro com um grupo que parece estar tocando sempre em algum lugar do espaço, perto da linha do horizonte, será hoje, como primeiro show aberto ao público da casa Blue Note, no Conjunto Nacional da Avenida Paulista. Azymuth, a música que virou trio dos originais José Roberto Bertrami (morto em 2012, substituído hoje por Kiko Continentino), Alex Malheiros e Ivan Conti, teve em Marcos Valle um padrinho e um quarto integrante. A história conta muitos encontros do gênero, artistas estelares que lançam grupos para a posteridade, mas poucas vezes, ou nenhuma, dois idiomas criados simultaneamente em cantos diferentes se uniu com tanta fluência. O Azymuth nasceu de uma costela de Marcos Valle e, a partir dele, Marcos Valle renasceu.

A história tem seu prólogo anos antes, em 1967, com um gigante batendo à porta de Valle em Nova York. “FBI, podemos conversar?” O agente foi informá-lo gentilmente de que, como portador da carteira de residente no país, o senhor Marcos Kostenbader Valle, aquela criatura loira, cheia de saúde e bem apessoada, de olhos claros tão norte-americanos, deveria se alistar nas Forças Armadas do presidente Lyndon B. Johnson. Havia uma guerra no Vietnã esperando por ele e ninguém parecia se importar muito com o fato de o brasileiro estar no meio da gravação de Samba 68, com produção de Eumir Deodato. “Eu me apavorei”, lembra. Ele vai, se alista e, dias depois, a categoria de soldado que recebe pelo correio não tranquiliza ninguém: A1, também conhecido como “linha de frente.”

A história brinca quando diz que Valle pega o primeiro avião batendo os dentes para sumir de vista dos azymuths norte-americanos. Não foi assim. “Eu voltei depois. Meu advogado fez um recurso e cheguei a lançar o Brasil 68 por lá. O que me fez vir embora mesmo foi a saudade.” Saudade do tamanho do disco que sai logo depois de sua volta, Viola Enluarada, cheio das brasilidades que já influenciavam sua visão de mundo e começando com uma frase do irmão Paulo Sérgio Valle que não condizia com covardes que fogem de guerras: “A mão que toca o violão se for preciso faz a guerra, mata um mundo, fere a terra”. Era, só para lembrar, 1968, o ano de AI-5.

Marcos Valle parecia sempre em mutação, desde que se sentou em um piano pela primeira vez. Ele já havia estudado música clássica na adolescência e, aos 20 anos, tido Sonho de Maria, que fez com o irmão Paulo Sérgio, gravada pelo inatingível Tamba Trio. Já havia formado um trio com Edu Lobo e Dori Caymmi, os três chamados de integrantes da “segunda geração da bossa nova” por quem havia integrado a primeira, como Tom Jobim, e feito Samba de Verão, a música que atingiria, em 1964, o segundo lugar nas paradas de sucesso dos Estados Unidos – só para lembrar, 1964 é o ano em que os Beatles partem pela primeira vez para a América e se apresentam no programa Ed Sullivan Show para 74 milhões de telespectadores no dia em que os índices de criminalidade chegaram a zero (“até os criminosos assistiam ao programa”, diria George Harrison). Por Samba de Verão, Valle receberia ainda um prêmio da BMI (nos EUA) por atingir a marca de dois milhões de execuções, algo só concedido até hoje a Garota de Ipanema, de Jobim e Vinicius.

Marcos Valle já poderia então descansar sobre o alicerce robusto criado desde seus dias de Beco das Garrafas, no Rio. Sua produção atingiria mais de 700 músicas gravadas e um trânsito entre pessoas de linguagens tão diferentes. Sarah Vaughan canta com ele Something, dos Beatles, em 1965. Dizzy Gillespie toca Summer Samba (Samba de Verão) no álbum The Melody Linger On, de 1964. E o gravariam, regravariam ou compartilhariam produções Diana Krall, Elis Regina, Edu Lobo, Dori Caymmi, Tim Maia, Roberto Carlos, João Donato, Jay-Z, Kanye West.

Mas havia mais. Se a primeira geração ergueu a harmonia e definiu os parâmetros do que deveria ser chamado de bossa nova, a segunda chegou com uma liberdade maior para fazer a plateia se soltar. Ao mesmo tempo que chega com frevos e baiões afiados pela saudade do Brasil, Valle traz também o groove de Eumir Deodato e o funk que respirou em toneladas nos Estados Unidos. Groove com baixo e bateria funkeados, harmonia de jazz e letras, quando existiam, em português causavam impacto em outra frente no Brasil pelos finais dos 60 e começo dos 70: as trilhas sonoras de filmes e novelas. E aí começa a aparecer sua outra face.

Nelson Motta indicou o músico quando soube que a Globo procurava alguém que desse conta da linguagem moderna que queria para Véu de Noiva, escrita por Janete Clair e dirigida por Daniel Filho. Ele entendeu o briefing e fez, com Novelli, Azymuth, um tema tão suingado que parecia fazer os carros em preto e branco da abertura correrem ainda mais. Ainda em 1969, a música estaria em seu álbum também orientador de uma nova fase, Mustang Cor de Sangue.

Quatro anos depois e o músico é procurado pelos diretores Hector Babenco e Roberto Farias. Eles queriam resgatar o tema da novela para colocá-lo como trilha de um filme que rodavam sobre a idolatria ao piloto de Fórmula 1, Emerson Fittipaldi, chamado O Fabuloso Fittipaldi. A música Azymuth deveria ser ampliada e regravada. Para isso, o produtor da gravadora Philips, Armando Pittigliani, sugeriu um trio que vinha fazendo gravações de estúdio com bastante sucesso. José Roberto Bertrami nos teclados, o baixista Alex Malheiros e o baterista Ivan Conti, chamado mais de Mamão. Um encontro que o universo parecia ter marcado. Juntos, acabaram gravando a trilha toda do filme, arranjada por Bertrami e composta por Valle. O nome do compositor, que pertencia à gravadora Odeon, não poderia aparecer nos créditos de um disco da Philips. O álbum virou raridade de colecionador. O trio se anima com a sonoridade que atinge ali e pede ao padrinho: “Podemos passar a usar o nome Azymuth?”. “Fiquei muito feliz com isso. Claro que deixei”, lembra.

Anos depois de voltar ao Brasil, o recurso feito nos EUA pelo advogado de Marcos chegou às suas mãos. A categoria havia mudado, passando de A1 para a série daqueles que serviriam bem longe das rajadas vietcongues. Aí sim, os norte-americanos acertaram na mosca.

Tudo o que sabemos sobre:
Marcos Valle

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.