WERTHER SANTANA/ESTADÃO
WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Marcos Mendonça: 'A TV Cultura tem independência'

O presidente da emissora, em entrevista ao 'Estado', diz que não há controle do noticiário por parte do governo que a mantém e que o episódio do corte na música da banda Aláfia foi uma edição normal

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2017 | 07h00

O presidente da TV Cultura, Marcos Mendonça, recebe o Estado na sede da emissora, em São Paulo, municiado de números e otimismo. Ele neutraliza a informação de que a TV estaria em crise, não podendo mais fazer contratações. “É assim desde 2015, isso é notícia velha.” Diz que a audiência está crescendo, que não há mais dívidas e que a produção está a todo vapor. Mas, mais do que recuperar-se da crise financeira, o desafio não seria agora a restauração da credibilidade com parte de seus espectadores? Como um meio de comunicação que vive do dinheiro que recebe do Estado pode ter liberdade de expressão para noticiar, cobrar ou denunciar esse mesmo Estado? O que a edição a uma música da Banda Aláfia no programa Cultura Livre, cortando trechos que maldiziam o governo, pode ensinar?

Qual a situação financeira da TV Cultura?

A notícia de que não se pode contratar está defasada há dois anos, quando o governador soltou nota proibindo novas contratações. Isso para todas as empresas. Mas na crise é que você cresce. Uma série de despesas foram redimensionadas, demos superávit nos últimos dois anos. Em 2015, foi algo como R$ 300 mil e, no ano passado, R$ 7 milhões. É uma situação absolutamente equilibrada. Estreamos agora alguns programas e reformulamos outros.

O senhor acha que essa produção tem sido percebida pelo espectador?

Sim, temos aumentado razoavelmente nossa audiência. Ficamos em quarto lugar em muitos dias. A gente fala em audiência, mas audiência não é a medida para a TV Cultura. Quando eu coloco um programa Café Filosófico no ar, não tenho a pretensão de bater o Ratinho ou o Fantástico. Estou prestando serviço público. Mas quem oferece música popular brasileira de qualidade? Quem abre espaço ao mundo das artes visuais? Evidente que eu não vou ter audiência. O mundo mudou radicalmente e, pensando assim, fizemos, nossas mudanças. O programa Metrópolis, por exemplo, que está na grade há muito tempo, foi repaginado para ficar mais dinâmico.

O senhor diminuiu bem a duração do Metrópolis.

Aumentou substancialmente a audiência. Mas quem assiste sentiu um drástico corte na profundidade das matérias. Fazemos com uma hora de duração no domingo. Alguns temas tratados com mais rapidez na semana podem ser aprofundados. Foi uma opção que fizemos. Estamos atingindo muito mais público, com uma linguagem mais modernizada. Temos que entender que o espectador que está na outra ponta quer o essencial.

Mas audiência não é a medida da TV Cultura.

Eu tenho que pensar na audiência, não desprezá-la. A TV Cultura não depende de audiência porque o Estado me dá recursos para eu prestar serviços para a comunidade. Agora, que é bom ter audiência, não nego. Eu gostaria de ter a audiência que a Globo tem.

A relação da TV Cultura com quem a paga, que é o governo do Estado, não é delicada? Como o jornalismo pode cobrar ou denunciar esse governo?

No Brasil, não temos a visão da importância da TV Cultura. Ela tem um modelo de TV absolutamente pública. A Cultura tem um conselho com 47 pessoas. Ela escolhe, elege seu presidente e dá posse no ato. É a única entidade que tem essa autonomia. Sabe quantos votos o governo do Estado tem nesse conselho? Quatro. O governador nunca ligou para mim para dizer que queria alguém no jornal ou coisa assim. A TV tem independência. 

Banda Aláfia, programa Cultura Livre. A banda canta uma música, citando no final um trecho contra o governador Geraldo Alckmin e o prefeito João Doria (“O pior do ruim / Dória, Alckmin / Não encosta em mim playboy / Eu sei que tu quer o meu fim). Quando a música vai ao ar, esse trecho foi cortado. Isso não é estranho?

A televisão funciona em uma velocidade alta, para colocar no ar. O editor pegou um produto que não estava na pauta que ele recebeu e simplesmente cortou.

Cortou a parte dos políticos.

Sim, porque não estava na pauta que ele recebeu.

Foi uma coincidência?

Não, o que ele não recebe na pauta, ele corta. Ele tem autonomia para isso, da mesma forma como você vai editar essa minha entrevista. Mas quando essa questão chegou a meu conhecimento, mandei colocar no ar.

Mas sob forte pressão das  redes sociais...

A TV Cultura agasalha todas as posições políticas. Tem centenas de bandas querendo vir aqui e convidaram essa. Se houvesse alguma discriminação, não traríamos essa banda. Ou seja, temos a absoluta liberdade de trabalho.

A entrevista com o presidente Michel Temer depois de sua posse, em Brasília, foi considerada leve demais por parte da opinião pública. Logo depois de sua exibição no Roda Viva, Chico Buarque pediu que sua música fosse retirada da abertura do programa

Aquela foi uma entrevista normal, foram convidados um jornalista do Estado, um da Folha e um do Globo. Foi uma entrevista amistosa? Foi. Da mesma forma como havia sido com o presidente Lula na qual, de repente, os jornalistas começaram a perguntar do Corinthians. Mas o Brasil estava em outro momento. Agora, é bem mais radicalizado. As pessoas que eram favoráveis à Dilma e contra o impeachment não gostaram e começaram um movimento. E o Chico Buarque estava claramente envolvido contra o impeachment. Então, é natural que ele não tivesse gostado da entrevista com Michel Temer. Acredito que, na hora em que refletir sobre aquilo, vai dizer, “Ah, que bobagem”.

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