Pedrita Junckes
Pedrita Junckes

Marcia Castro revive fase de ouro do axé com parcerias de peso

Cantora baiana lança quinto álbum que tem participação de nomes como Ivete Sangalo, Daniela Mercury e Margareth Menezes

Danilo Casaletti, Especial para o Estadão

09 de novembro de 2021 | 05h00

O maestro baiano Letieres Leite, morto dia 27 de outubro, aos 61 anos, vítima da covid-19, disse ao documentário Axé: Canto do Povo de um Lugar (2016, de Chico Kertész) que ninguém nunca vai apagar o fogão (a chama) do axé music.

Àquela altura, o gênero nascido nas ruas de Salvador nos anos de 1980, que na década seguinte se espalhou pelo Brasil, já havia perdido espaço para o sertanejo pop, o funk e, mais atualmente, a pisadinha, ou piseiro, que dominaram os primeiros lugares entre os mais ouvidos nas plataformas de streaming.

Entretanto, em seu estado bruto, ou misturado, o axé tem lugar afetivo na memória dos brasileiros e renasce a cada carnaval – isto é, fora de Salvador, pois lá se manteve acolhido. Ele também revive agora em Axé, quinto álbum da cantora baiana Marcia Castro, que acaba de ser lançado em formato digital.

Com 10 faixas inéditas – o disco independente foi pensado para ser lançado no formato de vinil, o que ocorrerá em fevereiro de 2022 –, Axé tem como inspiração a fase mais solar e criativa do gênero, de bandas como Mel, Timbalada, Chiclete com Banana, entre outras. Um dos produtores do álbum é justamente Letieres, um dos maiores nomes da música baiana de todos os tempos, que dividiu os trabalhos e arranjos com outro baiano, Lucas Santtana. A direção artística é de Marcus Preto.

“Letieres sempre esteve em meu radar. Ele faz tudo bem e sabe conectar universos diferentes”, lembra Marcia (a cantora conversou com o Estadão um dia antes de o maestro morrer). Já Santtana, que tocou com nomes importantes do gênero, com o cantor e compositor Gerônimo e bandas do início do movimento, foi responsável pelo toque mais contemporâneo. 

O disco é aberto com o galope, inspirado nas músicas do Chiclete, Que Povo É Esse?, de Tenison Del Rey, Marcela Bellas e Paulo Vascon. Já Holograma, de Tiago Simões, é um samba-reggae com arranjos de sopros de Letieres. A cantora Ivete Sangalo faz participação especial.

Outra convidada é Margareth Menezes em Arco-Íris do Amor, que já havia sido lançada como single em 2020. Composta por Santtana, Fabio Alcantara e Magary, a canção celebra a diversidade e traz na letra a gíria baiana do momento, “barril” – que sugere, em um dos seus significados, algo muito bom. 

Margareth, que sempre foi a voz do Bloco dos Mascarados, no qual o público gay se encontra, aconselhou uma mudança na letra da canção que fala de um “verão quase sem roupa” e, a certa altura, trazia o verso “até Jesus nu viu”. “Ela me disse para chegar com um disco sem polêmica. Eu sou mãe lésbica e essa canção é essencial nos dias de hoje. É uma apoteose purpurinada de carnaval. Temos de cantá-la com alegria, sem medo. Esse é um dos propósitos do trabalho”, afirma Marcia.

Um dos estranhos no ninho a princípio, mas muito bem integrado, é o rapper Emicida, que assina letra e música da espiritual Ajuremar-se. “Uma faixa incrível. Ele juntou sua história afrodescendente com nossa música afro-baiana. Ficou linda”, avalia Marcia. 

Outro momento mais calmo é a balada Macapá, de Nando Reis. “Percebemos que todos os discos de axé dos anos 1990 têm uma balada romântica que se aproximava da MPB. Ivete teve o Herbert Vianna, a Daniela Mercury, o Chico César, e a gente foi de Nando”, diz a cantora. 

Em As Paulinas dos Jardins, de André Lima e Carlinhos Brown, Marcia divide os vocais com Daniela Mercury, considerada a rainha do axé, e uma das responsáveis por trazer de vez para o sudeste o ritmo baiano. Foi a cantora que, em 1992, abalou literalmente as estruturas do Masp, ao contagiar, em uma sexta-feira, ao meio-dia, mais de 20 mil pessoas na Paulista com a batucada de Swing da Cor.

Com letra que traça um paralelo entre Bahia e São Paulo feita, obviamente, na época em que o disco foi gravado, parece anunciar novos tempos depois da tristeza por conta da pandemia. “E um novo sino anuncia a alegria (...) vamos nos encontrar na luz e no fim nada acabará.”

“Faz até mais sentido esse disco ter sido lançado agora. Ele traz uma mensagem de otimismo, fé, esperança. Neste momento de retomada de vida, esse sentimento solar faz bem às pessoas que ainda estão muito fragilizadas”, conta Marcia.

O rapper Hiran participa com um flow em Coladinha em Mim, uma das faixas que a cantora assina como compositora ao lado de outros parceiros, assim como faz em Namorar no Mar.

Além de celebrar o axé, o álbum cumpre um desejo na carreira de Marcia, que começou com o elogiado Pecadinho, em 2007, trabalho que tinha compositores como Tom Zé e Zeca Baleiro, e que ficou mais associado ao que se convencionou chamar de MPB, que trazia a música baiana de maneira mais profunda a seus trabalhos.

“Treta (álbum anterior) é de música baiana eletrônica, futurista. Eu, cantora de MPB, com um trabalho assim, quer dizer, flopou. Houve um estranhamento das pessoas. Ele tem seu valor artístico, inclusive, é o mais autobiográfico que fiz, mas teve essa falha de comunicação”, diz. 

Tudo o que sabemos sobre:
músicaMarcia Castro

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.