Marcia Castro lança disco com foco paulistano

'Das Coisas Que Surgem' expõe anos de relação da cantora com SP

Lauro Lisboa Garcia - ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S. Paulo

09 de outubro de 2014 | 03h00

Quando a baiana Marcia Castro chegou a São Paulo em 2008 para uma temporada de lançamento seu primeiro álbum, Pecadinho (2007), no extinto Teatro Crowne Plaza, foi logo abraçada por um bocado de gente interessante do meio cultural. Aqui realizou o segundo álbum, De Pés no Chão (2012), puxado pela canção de Rita Lee. Agora, agregando mais elementos urbanos e paulistanos à sua baianidade, chega com Das Coisas Que Surgem (independente), em que reflete sobre esses anos de sua relação com a cidade. O produtor é local, Gui Amabis, e ajeitou um “foco bem mais preciso”, como diz na letra de Um Bom Filme, de autoria dele.

Essa foi uma das três primeiras canções do álbum gravadas em 2010, antes de De Pés no Chão. As outras são uma reinvenção do samba Na Menina dos Meus Olhos (Monsueto Menezes/ Flora Mattos), transformada em ska num saboroso dueto com a cabo-verdiana Mayra Andrade, e Três da Madrugada (Carlos Pinto/ Torquato Neto), clássico do repertório de Gal Costa. Além de Mayra, há participações de Dengue (baixo), Jaques Morelenbaum (cello) e Thiago França (sax) no disco. 

“Procurei um produtor de São Paulo, porque queria muito me relacionar com a linguagem daqui. Era como se efetivasse minha estada na cidade”, diz a cantora. “Queria experimentar esse lugar, me misturar.” No começo, houve um estranhamento pelas diferenças de linguagem dela e do produtor. Isso se reflete no show do novo disco, com uma pegada mais roqueira, até para as canções dos dois outros álbuns que ela reinterpreta. “Era uma estética muito distante da minha e tive até certa dificuldade de comunicar a Gui como fazer o disco de um jeito que ficasse mais parecido comigo, porque não tinha muita intimidade com ele”, diz.

“A sonoridade que ele trazia era mais introspectiva, tinha mais intensidade. Meus outros discos são extrovertidos e eu precisava me encontrar dentro desse lugar mais denso para cantar. Eu me peguei sem tempo de depurar aquilo, mas me joguei no desafio de unir esses dois mundos.”

Nesse período de indecisão, Marcia - uma das intérpretes mais arrojadas surgidas nos anos 2000 - precisava “fazer girar a carreira” até para viabilizar outros projetos financeiramente. Então partiu para outra direção, com a gravação do disco De Pés no Chão, “que já estava pronto no palco”. “Foi o tempo para fortalecer minha relação com Gui para três anos depois retomarmos o trabalho.”

Das Coisas Que Surgem é, como diz a cantora, um disco sobre “deslocamento”. Entre as novidades, prevalece um grande número de canções inéditas, outro diferencial em relação aos álbuns anteriores. Entres elas, Mau Caminho (Arnaldo Antunes/Alice Ruiz) e Partículas de Amor (Gui Amabis/Lucas Santtana), bela canção também gravada por Lucas, que ela escolheu como “música de trabalho”. Lançado virtualmente no final de setembro, o disco foi todo bancado financeiramente pela própria cantora e sai em CD distribuído pela Sony Music em novembro. 

Desde as primeiras investidas, Marcia revelou uma estimulante capacidade transformadora sobre as canções antigas que escolhe. Imprime sua marca de tal forma que seria justo creditá-la como parceira dos compositores e arranjadores. Agora ela, enfim, expõe seu componente autoral assinando cinco canções com o poeta e letrista arrudA, parceiro de preciosidades com Alzira Espíndola e Gustavo Galo, entre outros da mesma especialidade. “Tinha guardado os poemas de arrudA há um bom tempo e eram todos inéditos. Só depois é que fui fazer as músicas em cima deles. Sou eminentemente intérprete. A composição aconteceu por um desejo de cantar coisas que não estava encontrando em letras de canções e achei esse sentimento na poesia de arrudA. Desde as trivialidades do amor até filosofia, o que move, o que me falta.”

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