WERTHER SANTANA/ESTADÃO
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Marcia Castro adere à quentura do pop e do funk em novo disco

Cantora e compositora lança hoje o quarto disco, ‘Treta’, após período de transformação pessoal e musical

Pedro Antunes, O Estado de S.Paulo

20 Outubro 2017 | 06h00

Marcia Castro queria mudar. Ou melhor, foi atropelada pela mudança. Ela veio arrebatadora. Foi-se o casamento de nove anos, deixou a casa na zona oeste onde viveu oito desses anos. Perdeu o chão no qual pisava, vieram as idas frequentes à Bahia, seu Estado natal. Foram-se se as roupas que cobriam o seu corpo, expôs a pele e a si mesma. A MPB dos três discos anteriores foi aglutinada pelos ritmos eletrônicos, o funk, o pagode baiano, o kuduro. 

Renovada. Transformada. Transmutada, como se todos as suas células – biológicas e rítmicas – passassem a conversar em outra língua. É a Marcia Castro mais pura, garante ela, que se apresenta em Treta, o quarto álbum, lançado nesta sexta-feira, 20, pelo selo Joia Moderna, criado por DJ Zé Pedro. E Treta é fruto de muita treta – a gíria usada para denominar problemas, brigas ou desentendimentos –, como conta a artista. “Acho que é um momento de transformação, mesmo”, ela avalia. “É uma mutação, uma mudança em toda as esferas da minha vida. Treta, o disco, é uma espécie de diário a respeito da minha vida, de tudo o que aconteceu comigo desde 2015 e 2016. Está tudo ali.” 

Marcia, com o novo álbum, prova a 3.ª Lei de Newton em estado puro: “A toda ação sempre há uma reação de mesma intensidade e direção”. Ela deixou um relacionamento ao se apaixonar por outro alguém, teve a vida jogada num liquidificador. Era impossível imaginar que a cantora que surgiria para o quarto álbum fosse a mesma de Das Coisas Que Surgem, o terceiro dela, de 2014. Agora, seu canto tem pressão, tem grave, groove, tem rebolado, molejo e, principalmente, coragem. É a ode ao ser quem se quer, ser mulher, ser um furacão. Debate a sensualidade a sexualidade. Esquenta, provoca suor e dança. Marcia quer falar sobre si, sobre quem é hoje. Ela é a explosão que não tem medo de mostrar a pele e o corpo. 

Marcia pensa em compor um disco no qual ela perfuraria a estética eletrônica desde 1999, mesmo que sua carreira tenha tomado outros rumos. Há dois anos, conheceu Rafael Dias, do grupo baiano Attoxxá, e dele recebeu a música Noites Anormais. A via para esse flerte do sintético dos beats, a quentura dos gemidos sussurrados e versos quentes estava aberta. Ao longo dos dois anos seguintes, até a chegada de Treta, Marcia encarava os problemas, lidava com eles, compunha e tentava fazer com que suas cordas vocais e seu diafragma se encaixassem no pop, no ritmo que puxa, pega pelo braço e vai até o chão. 

Pelo tempo de gestação do disco, Rafael Dias, inicialmente convocado para a produção do disco, foi substituído por Marcos Vaz. A partir das bases criadas por ele, Marcia buscava no que viveu e vivia a inspiração para as canções. Vulgar, que tem uma versão normal e outra remix, é o oposto do sentido pejorativo da palavra. É poderoso o discurso de ser o que quiser, vestir o que quiser e se relacionar com quem quiser. É nesse discurso no qual Marcia se apoia para acompanhar os ritmos com graves poderosos, prontos para estourar as caixas de som durante a turnê. “Fui redescobrindo a relação com o meu corpo”, conta ela. “Com o sexo, com a minha sexualidade. Tudo isso veio de uma vez, como nunca tinha experimentado. Eu precisava falar disso de algum modo.” 

Ouça 'Noites Anormais':

Tretas passadas, Treta lançado, Marcia está feliz com o que se tornou. “Toda vez que dou um passo o mundo sai do lugar”, diz a frase que vem logo abaixo do nome dela no aplicativo WhatsApp. É um verso do artista pernambucano Siba, mas diz muito sobre ela também. Seu mundo saiu do lugar. Marcia chorou, dançou. E colocou-o num novo eixo.

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